Operação policial deixa 23 mortos no Complexo da Penha, no Rio

Operação visa prender líderes da facção criminosa no Jacarezinho e na Mangueira. Bandidos dão abrigo a criminosos do Pará, Rio Grande do Norte, Amazonas e Alagoas
Rio: A Secretaria Municipal de Educação informou que, por causa das operações policiais na Vila Cruzeiro e proximidades, 19 escolas da região estão fechadas, prestando atendimento remoto (MAURO PIMENTEL/AFP/AFP)
Rio: A Secretaria Municipal de Educação informou que, por causa das operações policiais na Vila Cruzeiro e proximidades, 19 escolas da região estão fechadas, prestando atendimento remoto (MAURO PIMENTEL/AFP/AFP)
Por Da redação, com agênciasPublicado em 24/05/2022 09:50 | Última atualização em 26/05/2022 17:39Tempo de Leitura: 8 min de leitura

Uma operação em conjunto na Vila Cruzeiro, na Penha, na zona norte do Rio de Janeiro na manhã desta terça-feira, 24, deixou ao menos 23 mortos. Entre as vítimas estão uma moradora e outros 12 suspeitos, como descreve a Polícia Civil. Sete ficaram feridos e três pessoas ainda estão no hospital na tarde de quinta-feira, 26.

Um dos corpos foi levado por um motorista de aplicativo que, segundo a polícia, foi obrigado a deixá-lo no Hospital estadual Getúlio Vargas.

O que aconteceu?

Agentes do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar, da Polícia Federal (PF) e da Polícia Rodoviária Federal (PRF) estavam desde a madrugada de terça na comunidade, na Zona Norte do Rio, e, segundo a PM, foram atacados a tiros quando iniciavam uma “operação emergencial”, com o objetivo de prender chefes da maior facção criminosa que atua no estado e que estariam escondidos no local.

A polícia afirma que chefes da facção em outras favelas do Rio — como Jacarezinho, Mangueira e Providência —, do Salgueiro, em São Gonçalo, e até de estados do Norte e do Nordeste também estão abrigados na Penha.

Pouco depois das 13h, o tiroteio recomeçou na região. Os disparos podem ser ouvidos do Hospital estadual Getúlio Vargas, que também fica na Penha.

A PM usou um helicóptero blindado durante a ação e diz que, até o momento, já apreendeu 13 fuzis, quatro pistolas, 12 granadas e drogas, além de 10 carros e 20 motocicletas.

"Nessa madrugada nós identificamos uma grande movimentação de elementos nessa região, pertencem a uma facção que controla essa localidade. Hoje nossa aeronave também foi atingida com vários disparos provenientes dessa região. A operação vem sendo construída há semanas, toda trabalhada em cima da inteligência. Esse é nosso primeiro balanço da operação", disse o coronel da PM Luiz Henrique Marinho Pires, em coletiva no início desta tarde.

A PRF não informou ainda o motivo de estar na comunidade, já que é uma instituição que cuida das rodovias federais que cortam o estado.

Operação teve ao menos 23 mortos

Uma moradora, identificada como Gabrielle Ferreira da Cunha, de 43 anos, morreu ao ser baleada na Rua Dr Luis Gaudie Ley, na Chatuba, durante a operação. Ela passava pela Rua Dionísio quando foi atingida por uma bala perdida. Agentes da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), da Polícia Civil, fizeram uma perícia no local. Desde cedo, moradores relatam trocas de tiros na comunidade.

A Polícia Militar confirmou que 10 suspeitos também morreram. Eles e os feridos foram levados para o Hospital Estadual Getúlio Vargas. Parentes das vítimas estão na unidade de saúde em busca de informações.

A direção da unidade de saúde afirmou que dois baleados na ação estavam no centro cirúrgico, por volta das 11h. Ainda de acordo com a unidade, nove homens já foram identificados pelos familiares.

Durante a tarde, o número de mortos subiu para 21. Além de uma moradora e dos suspeitos, outros corpos foram levados para o Hospital estadual Getúlio Vargas, sendo um deles deixado por um motorista de aplicativo. Segundo a Polícia Civil, ele foi obrigado a deixá-lo na unidade de saúde.

Erro no número de óbitos?

A Polícia Civil do Rio informou nesta quinta-feira, 26, que 23 pessoas morreram durante a operação policial realizada na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, na zona norte da cidade, na manhã de terça-feira, 24. A nova informação significou uma redução no número de mortos anteriormente divulgado, que era de 26 vítimas.

Segundo a polícia, três corpos encaminhados ao Instituto Médico-Legal (IML) no mesmo dia da operação na Penha são de suspeitos que se envolveram em uma troca de tiros no Morro do Juramento, outra favela da zona norte.

Do total de 26 mortos, 24 foram levados inicialmente no Hospital Estadual Getúlio Vargas. Desses, 21 já chegaram sem vida. Além deles, um menor de idade havia sido levado à UPA (Unidade de Pronto-Atendimento) do Alemão. A outra vítima é Gabrielle Ferreira da Cunha, atingida por uma bala perdida em uma favela próxima.

A operação começou ainda de madrugada, pouco depois das 4h. De acordo com o porta-voz da PM, tenente-coronel Ivan Blaz, porta-voz da instituição, lamentou a morte de Gabrielle e destacou que “criminosos da favela estão portando armas de guerra”.

"Foi a perda de uma vida inocente. A gente não vai ter um grande êxito numa operação quando temos a morte de uma inocente, uma senhora de 41 anos. Infelizmente é necessário que a gente faça uma operação como essa. Precisamos de homens e mulheres para fazer uma operação como esta, porque não é normal criminosos atuarem nessas comunidades com arma de guerra", destacou.

Vídeos que circulam nas redes sociais mostram a troca de tiros desde a madrugada desta terça-feira. Quem mora na região diz que o clima é de medo. Nas cenas gravadas pelos moradores, é possível ver um blindado militar circulando dentro da comunidade e pessoas carregando corpos por conta própria para o hospital. Em outro vídeo, moradores fazem uma manifestação na Rua 14 por conta do número de mortes e queimam madeiras e caixas de papelão.

Política de guerra

A PM afirma que fez a ação emergencial após detectar que haveria uma reunião da quadrilha na comunidade e por isso a decisão da operação.

Ainda de acordo com o porta-voz da PM, “a facção criminosa tem tido uma política expansionista de guerra e responsável por mais de 80% dos confrontos armados no estado”. Ivan Blaz destacou ainda que “esses criminosos tentem hospedar outros comparsas do Nordeste e Norte”.

— Estamos falando de uma facção criminosa que é responsável por mais de 80% dos confrontos armados do Rio. Essa facção que atua na Vila Cruzeiro, no Jacarezinho, no Chapadão e em Salgueiro (São Gonçalo), ela tem uma política expansionista, é uma ideologia de guerra: de enfrentamento e confronto. Não só contra as forças policiais, mas também contra as outras quadrilhas. Não bastasse isso, eles agora estão hospedando criminosos de outros estados, que daqui do Rio dão ordens para cometerem homicídios em outras regiões do Brasil. Então, desarticular essa quadrilha é fundamental e, logicamente, a vítima inocente morta no início da operação tira a ação altruísta que tínhamos.

Seis carros e 10 motos utilizados por traficantes durante operação militar foram abandonados na região conhecida como "Vacaria" e encontrados pelos militares. A localidade é a mesma que serviu como rota de fuga de bandidos em 2010, na ocasião da ocupação do Complexo do Alemão. Durante a ação desta terça-feira, foram apreendidos, até as 9h, diversos armamentos, sendo 13 fuzis e dez granadas, além de pistolas. De acordo com porta-voz da PM, tenente-coronel Ivan Blaz, essas armas vêm de outros países.

— Esse são fuzis produzidos na China e no Leste Europeu que vem para o país no tráfico internacional de armas. São armamentos longos que podem vitimar pessoas a longa distância, como aconteceu com a moradora.

Em nota divulgada na tarde desta terça-feira (24), o Ministério Público do Rio (MPRJ) afirmou que “a operação foi comunicada ao órgão com a justificativa da absoluta excepcionalidade, com intuito de coletar dados de inteligência sobre o deslocamento de aproximadamente 50 criminosos da Vila Cruzeiro, entre eles lideranças do Estado do Pará, para a Comunidade da Rocinha. Foi mencionada na justificativa a necessidade de reconhecimento da área para atualização de prontuário de localidade com vistas a futuras operações policiais”.

Ainda de acordo com o MPRJ, “durante esse levantamento, a equipe da Unidade de Operações Especiais foi reconhecida e atacada por diversos criminosos locais que portavam armas de grande valor cinético e efetuaram vários disparos de arma de fogo, tentando contra a vida dos policiais que compunham a patrulha, havendo assim a necessidade de iniciar uma operação emergencial com o objetivo de estabilização do terreno”.

Serviços básicos afetados

A operação policial na área do Complexo da Penha afetou o funcionamento de 19 escolas da região, que tiveram de fechar as portas, de acordo com informações da Secretaria Municipal de Educação. As unidades estão prestando atendimento remoto aos alunos, segundo o órgão. A medida faz parte do protocolo de segurança da rede.

As unidades de saúde também têm impacto no atendimento devido à ação nesta manhã. Segundo a Secretaria municipal de Saúde, as clínicas da família Felippe Cardoso, Klebel de Oliveira Rocha, Rodrigo Yamawaki Aguilar Roig, Zilda Arns e Valter Felisbino de Souza estão funcionando apenas com atividades internas, ou seja, as unidades mantêm o atendimento à população, mas sem as atividades externas realizadas no território.

Dezenas de motociclistas fazem uma manifestação no início da tarde desta terça-feira. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram a Rua Ministro Moreira de Abreu, em Olaria, tomada por motociclistas. A via é perpendicular a Estrada José Rucas, que dá acesso à Vila Cruzeiro. Além disso, por volta das 12h40, sons de tiros e granadas voltaram a ser ouvidos do Hospital Getúlio Vargas, na Penha.

(Com informações de Estadão Conteúdo e Agência O Globo)

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