Flávio Bolsonaro concede entrevista após ato de campanha ( Charles Vieira/Divulgação Campanha Flávio Bolsonaro/Divulgação)
Publicado em 27 de outubro de 2026 às 13h33.
O senador Flávio Bolsonaro (PL) não entregou à Polícia Federal (PF) os seus passaportes comum e diplomático. O prazo para a entrega ocorrer se encerrou na manhã desta terça-feira, 27.
Na segunda-feira, 26, Flávio foi intimado a entregar seus passaportes comum e diplomático no prazo de 24 horas e foi proibido de deixar o Brasil por uma decisão do ministro Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes.
A decisão também proíbe o parlamentar de deixar o Brasil e de manter contato com o advogado Willer Tomaz, seu amigo e investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo empresas de apostas. A PF suspeita que os dois sejam sócios, por exemplo, da Best Bet, casa de apostas que o advogado fundou e controlou. Ambos negam ter qualquer sociedade.
Em vídeo divulgado nas redes sociais, Flávio afirmou que foi abordado por agentes da PF após visitar o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar.
"Quando eu estava saindo, a Polícia Federal do Lula me intimou na rua. Eu fui intimado para entregar meu passaporte e também estou proibido de deixar o país", disse.
O senador afirmou que a decisão foi tomada na noite de domingo, após o resultado da eleição, e questionou a medida, classificando-a de perseguição. Segundo ele, a determinação teria levado em consideração uma declaração do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que defendeu que Flávio deixasse o país caso fosse derrotado. Eduardo vive nos Estados Unidos em autoexílio.
A PF também investiga o destino de recursos pagos por Daniel Vorcaro a uma offshore no Texas ligada a um advogado amigo de Eduardo. A suspeita é que os valores, supostamente arrecadados para a realização do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, teriam sido desviados para benefício próprio do ex-deputado.
"Eu nunca pensei em sair do país. Eu vou entregar os meus passaportes e vou me defender dessa aberração, que é uma clara tentativa de me intimidar, mas ninguém vai me calar", afirmou Flávio Bolsonaro.
Flávio é investigado em dois inquéritos que tramitam no STF. Em um deles, é suspeito, ao lado de Willer Tomaz, de lavagem de dinheiro por meio de plataformas de apostas.
O outro inquérito apura o financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A investigação relacionada às apostas está sob a relatoria de Alexandre de Moraes e teve origem em um procedimento conduzido pela Polícia Federal no Rio Grande do Sul.
O caso chegou ao Supremo depois que os investigadores identificaram referências ao senador, que possui foro por prerrogativa de função em razão do mandato parlamentar.
A PF apura suspeitas de movimentações financeiras irregulares e possíveis mecanismos de ocultação de recursos por meio de empresas do setor de apostas e plataformas de pagamento vinculadas ao advogado.
Entre os elementos identificados pelos investigadores está uma conta bancária ligada à empresa Alcazar Holdings, associada a Willer Tomaz.
Segundo a investigação, Flávio aparecia como usuário com acesso privilegiado à conta, identificado como master, termo utilizado para designar um perfil com permissões ampliadas de acesso.
Os investigadores buscam esclarecer a natureza dessa vinculação e se houve movimentações financeiras realizadas pelo parlamentar.
A defesa de Willer nega que Flávio tivesse esse tipo de acesso à conta e afirma que os dois mantêm apenas uma relação de amizade, sem movimentações financeiras entre eles.
A Polícia Federal também identificou registros de viagens, encontros e relações comerciais envolvendo os dois.
Uma das linhas de investigação busca esclarecer a origem e o destino de recursos movimentados por empresas relacionadas ao advogado, incluindo uma conta que registrou aproximadamente R$ 130 milhões em operações entre março e maio de 2025.
Na última sexta-feira, 23, Moraes determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens e valores vinculados a Willer Tomaz.
A decisão também determinou a quebra dos sigilos bancário, fiscal e cambial do advogado, além da suspensão das atividades econômicas, financeiras e empresariais de empresas ligadas a ele.O ministro ainda adotou medidas relacionadas aos passaportes de Willer, que deixou o Brasil em agosto, após ter sido alvo de uma operação da Polícia Federal.
As medidas foram determinadas depois que os investigadores apontaram indícios de movimentações financeiras suspeitas envolvendo negócios relacionados a plataformas de apostas.
O bloqueio de até R$ 6 bilhões representa um limite estabelecido pela decisão judicial, e não significa que esse montante tenha sido efetivamente localizado ou apreendido.
A defesa de Willer classificou as determinações como desproporcionais e contestou a existência de irregularidades. Segundo os advogados, o valor estabelecido para o bloqueio não corresponde ao patrimônio do investigado.
De acordo com nota técnica da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), à qual EXAME teve acesso, Tomaz movimentou cerca de R$ 5 bilhões em apostas em 2025 e foi a pessoa que mais depositou dinheiro em plataformas de apostas no Brasil no ano passado.
De acordo com o documento, revelado pelo portal UOL, Tomaz realizou depósitos superiores a R$ 258 milhões, quase o dobro do valor depositado pelo segundo maior apostador do país, e acumulou aproximadamente R$ 200 milhões em saques. As apostas realizadas ao longo do período somaram cerca de R$ 5 bilhões.
As suspeitas continuam sob investigação e não representam uma condenação dos envolvidos.