15.10.2026 - O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante entrevista ao Jornal Nacional, nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro (RJ). Foto: Ricardo Stuckert. (Ricardo Stuckert/Flickr)
Publicado em 15 de outubro de 2026 às 22h21.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que não pretende cortar recursos destinados à população de baixa renda para equilibrar as contas públicas. A declaração ocorre em meio ao debate sobre a necessidade de um ajuste fiscal a partir de 2027. Economistas e instituições financeiras estimam que o Brasil precisará de medidas equivalentes a 3% a 4% do Produto Interno Bruto (PIB), cerca de R$ 400 bilhões, para conter o crescimento da dívida pública.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, afirmou nesta quinta-feira, 15, que não pretende cortar recursos destinados à população mais pobre para promover um ajuste fiscal nas contas públicas.
A declaração ocorre em meio às avaliações de economistas e instituições financeiras de que o Brasil precisará de um ajuste de até 4% do Produto Interno Bruto (PIB), equivalente a cerca de R$ 400 bilhões, a partir de 2027 para estabilizar a dívida pública.
"Eu estou propondo não cortar dinheiro do pobre", afirmou Lula durante sabatina na TV Globo à jornalista Renata Lo Prete, ao ser questionado sobre a condução da política econômica em um eventual quarto mandato.
O presidente defendeu a ampliação do acesso ao crédito e a circulação de recursos entre a população de baixa renda como instrumentos para estimular a atividade econômica. Segundo Lula, a prioridade deve ser fortalecer pequenos negócios e preservar o poder de compra das famílias.
"O dinheiro na mão de pouco é pobreza, e pouco dinheiro na mão de muitos é riqueza. E é por isso que eu aposto muito na microeconomia. É por isso que eu aposto muito no microcrédito. É por isso que eu aposto muito no MEI. É por isso que eu aposto muito no pequeno empreendedor", disse.
Lula também afirmou que não pretende permitir um crescimento descontrolado da dívida pública, mas ponderou que o endividamento pode ser necessário para financiar investimentos em infraestrutura capazes de gerar retorno econômico.
"Eu não quero que a dívida cresça. Agora, ao mesmo tempo, você tem que levar em conta, Renata, se você fizer uma dívida e essa dívida for para construir um ativo produtivo para o país, uma ferrovia, uma hidrelétrica, um porto que tenha recebíveis, é importante que você até tenha uma dívida", afirmou.
Na entrevista, Lula afirmou que sua estratégia econômica está baseada na distribuição de renda e no fortalecimento do consumo das famílias.
O presidente destacou o papel do microcrédito, do Microempreendedor Individual (MEI) e dos pequenos empreendedores na geração de atividade econômica.
"É por isso que nós fazemos a maior política de crédito que esse país já conheceu. Fazendo com que as pessoas peguem dois, três, mil reais pra ele fazer as coisas crescerem. E as coisas dão certo", afirmou.
Lula também mencionou divergências que teve com ex-integrantes de suas equipes econômicas sobre os fatores responsáveis pelo crescimento da economia.
"Eu cansei de brigar com o Guido Mantega e com o Meirelles. O que faz a economia do Brasil crescer é a chamada microeconomia. É fazer o dinheiro rodar na mão do povo", disse.
O presidente argumentou que a concentração de renda prejudica o desenvolvimento econômico e defendeu a manutenção das políticas de transferência de recursos.
"Se o dinheiro fica concentrado em meia dúzia de pessoas, o Brasil vai continuar pobre", afirmou.
A posição de Lula contrasta com avaliações de economistas e instituições financeiras que defendem medidas de contenção de despesas e revisão de benefícios tributários para estabilizar a dívida pública brasileira.
Conforme mostrou a EXAME, diversas instituições financeiras estimam que o próximo governo precisará realizar um ajuste fiscal equivalente a 3% a 4% do PIB, aproximadamente R$ 400 bilhões, a partir de 2027.
O objetivo do ajuste, segundo esses economistas, seria produzir resultados primários suficientes para interromper a trajetória de crescimento da dívida pública em relação ao tamanho da economia.Em entrevista à EXAME, o economista Samuel Pessoa, pesquisador do BTG Pactual e do FGV Ibre, afirmou que o principal desafio do próximo governo será conter o crescimento das despesas obrigatórias e avançar em medidas fiscais que criem condições para a redução dos juros.
O ajuste das contas públicas é uma das principais diferenças entre os planos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Lula defende a manutenção do arcabouço fiscal e associa o equilíbrio das contas ao crescimento econômico, à eficiência dos gastos e à justiça tributária. Flávio propõe rever as regras fiscais, reduzir a dívida pública e buscar superávits primários.
O senador também prometeu um ajuste fiscal de até R$ 200 bilhões e o corte de ao menos dez ministérios. Sua equipe econômica, coordenada por Daniella Marques, defende uma PEC fiscal para conter despesas, combater supersalários e retomar a reforma administrativa. A campanha também propõe revisar imóveis da União e securitizar ativos da dívida pública para obter recursos destinados à redução do endividamento e a investimentos em infraestrutura.
Durante um evento com representantes do setor produtivo em 13 de outubro, Flávio afirmou que pretende fazer um “tesouraço” nos impostos e na burocracia. Questionado sobre como viabilizaria o ajuste fiscal, respondeu que começaria “tirando o Lula” e classificou a situação econômica como uma “crise de credibilidade”.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, classificou como “pastel de vento” as propostas econômicas da campanha de Flávio. Em evento da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), na semana passada, questionou a promessa de alcançar superávit primário de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) por meio da venda de ativos públicos, da criação de um fundo imobiliário e do corte de ministérios.
Durigan defendeu a continuidade da política fiscal do governo Lula e a busca por superávits a partir de 2027. O ministro também afirmou que a trajetória das contas públicas exige revisão de benefícios tributários e controle das despesas.
Apesar de defender responsabilidade fiscal, o governo Lula enfrenta dificuldades para equilibrar o orçamento. As contas do Governo Central registraram superávit primário de R$ 10,8 bilhões em julho de 2026, mas acumulavam déficit de R$ 81,3 bilhões nos sete primeiros meses do ano.
Segundo relatório da Moody’s Ratings, a dívida bruta do governo geral ultrapassou 82% do PIB em 2026. A agência estima que seria necessário um ajuste capaz de gerar superávit primário de 2% a 3% do PIB para estabilizar a relação entre dívida e PIB.
A Moody’s projeta estratégias diferentes para os candidatos, mas ressalta que a execução de reformas dependerá do Congresso. Mais de 90% das despesas orçamentárias são obrigatórias, o que limita a margem para cortes.
Perguntas frequentes
O presidente afirmou que não pretende cortar recursos destinados à população pobre para equilibrar as contas públicas. Lula defendeu a manutenção dos programas sociais e o estímulo à economia por meio do crédito e do consumo.
Estimativas de economistas e instituições financeiras apontam para um esforço fiscal equivalente a 3% a 4% do PIB, aproximadamente R$ 400 bilhões, para estabilizar a dívida pública.
O objetivo é conter o crescimento da dívida pública em relação ao PIB e melhorar a sustentabilidade das contas do governo. Entre os desafios apontados estão o crescimento das despesas obrigatórias e o custo do endividamento.
Não necessariamente. A estimativa representa a dimensão do esforço fiscal considerado necessário e pode envolver uma combinação de controle de despesas, aumento de receitas e revisão de benefícios tributários.
Entre as propostas mencionadas por Mario Mesquita estão mudanças nas despesas com pensões, revisão das vinculações de gastos com saúde e educação às receitas e redução de benefícios tributários concedidos a empresas.
No trecho da entrevista, o presidente não detalhou um plano de ajuste fiscal para 2027. Ele afirmou que pretende preservar os recursos destinados à população de baixa renda e que investimentos produtivos podem justificar a contratação de dívida pública.