Dário Durigan: o ministro da Fazenda criticou a euforia do mercado com os resultados do primeiro turno da eleição em 2026 (Washington Costa/Ministério da Fazenda/Divulgação)
Estagiária de jornalismo
Publicado em 7 de outubro de 2026 às 14h17.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, classificou como “pastel de vento” as propostas econômicas da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) para melhorar as contas públicas. A declaração foi feita em participação remota em evento da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) nesta quarta-feira, 7.
“Compra pastel de vento, quem quer? Já está sendo dito por eles que vão fazer uma magia, vendendo a dívida ativa da União, criando um fundo imobiliário e cortando ministérios para, com isso, alcançar 1,5% de superávit do PIB”, disse Durigan ao questionar as promessas da campanha de Flávio, como alcançar um superávit primário de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB).
A crítica ocorre após o primeiro turno das eleições, que provocou uma reação positiva entre agentes econômicos diante da possibilidade de mudança de governo. Para Durigan, porém, essa reação não corresponde necessariamente à consistência das propostas apresentadas.
“O veredito do eleitor ainda não aconteceu. Vai acontecer no final do segundo turno, no fim do mês. Mas o veredito do agente econômico já aconteceu”, afirmou.
Segundo o ministro, a perspectiva de que a reeleição de Lula se tornou mais difícil após o resultado do primeiro turno foi acompanhada por movimentos de queda no câmbio e nas taxas de juros de longo prazo.
“Eu tenho alguma dificuldade de entender essa euforia”, disse. Na avaliação de Durigan, a comparação entre as propostas econômicas e os resultados dos governos anteriores torna difícil justificar o otimismo em relação à política fiscal da oposição.
“Você compara com as outras propostas, compara o que foi o governo anterior e o governo atual, do presidente Lula, e é difícil o governo anterior ganhar em alguma coisa, em especial no fiscal”, afirmou.
A equipe econômica de Flávio Bolsonaro defende o envio de uma PEC fiscal durante a transição, com o objetivo de conter despesas e recuperar a credibilidade do país.
Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha, também propõe um “enxugamento de pelo menos dez ministérios” no início de um eventual governo. A equipe pretende ainda rever gastos administrativos, combater supersalários e retomar a reforma administrativa.
Outra proposta é revisar os imóveis da União. Segundo Marques, existem cerca de 760 mil propriedades públicas, avaliadas em aproximadamente R$ 1,7 trilhão, muitas delas ociosas.
A campanha também defende a securitização de ativos sob custódia da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), estimados por Marques em cerca de R$ 400 bilhões por ano. A ideia é utilizar os recursos para reduzir a dívida pública e investir em infraestrutura.
A equipe também critica o atual modelo tributário e promete uma “Lei de Liberdade Econômica 2.0”, além de mudanças na estrutura administrativa do Estado.
Para Durigan, as medidas anunciadas não seriam suficientes para sustentar a promessa de um superávit tão expressivo. “Essa história de vender ativos, dizer que vai privatizar tudo e que vai fazer, no primeiro ano, um superávit de 1,5% do PIB, sem mostrar como isso será feito, e, quando você olha para o passado, vê que nada foi feito nesse sentido. É difícil comprar um pastel de vento em meio a essa euforia”, afirmou.
O ministro defendeu, em contraposição, a estratégia fiscal do governo Lula.
“Vamos continuar equilibrando o orçamento e gerando superávits crescentes até 2027, de modo a reduzir a dívida pública brasileira, reduzir a taxa de juros e criar um ambiente para que o mercado prospere, mas com a participação do Estado”, disse.
Durigan também defendeu a atuação do Estado como parceiro do setor privado e citou a reforma tributária, a revisão de benefícios fiscais e políticas voltadas ao setor da construção civil como medidas para melhorar a situação fiscal e econômica do país.
“Um Estado eficiente e racional, que cumpra seu papel sem vender ilusão, é o que precisamos continuar construindo no Brasil, com muita responsabilidade e com um projeto de país claro, que seja bom para todos”, afirmou.
Dez dias antes do primeiro turno, Durigan publicou na The Economist o artigo “Lula has the right fiscal policy for Brazil” ("Lula tem a política fiscal correta para o Brasil", em tradução direta), no qual defendeu a política econômica do governo.
No texto, o ministro afirmou que o déficit primário, superior a 2% do PIB em 2023, deveria chegar a 0,6% do PIB em 2026. Também destacou o novo arcabouço fiscal aprovado em 2023 e afirmou que as despesas primárias permanecem em torno de 19% do PIB desde 2024.
Durigan reconheceu que a trajetória da dívida pública é uma preocupação, mas afirmou que o governo trabalha para alcançar superávits a partir de 2027.
No artigo, também defendeu a revisão de benefícios fiscais e a participação do Estado na economia.