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Empresários temem 'pior cenário' após EUA designar PCC e CV como terroristas

Executivos temem aumento de exigências de compliance e sanções sobre empresas sem ligação com o crime

Flávio e Trump: Outro executivo com experiência no setor financeiro diz que bancos, cooperativas de crédito e fintechs tendem a reagir endurecendo ainda mais as medidas de compliance preventivo para evitar sanções americanas (Divulgação)

Flávio e Trump: Outro executivo com experiência no setor financeiro diz que bancos, cooperativas de crédito e fintechs tendem a reagir endurecendo ainda mais as medidas de compliance preventivo para evitar sanções americanas (Divulgação)

Ivan Martínez-Vargas
Ivan Martínez-Vargas

Repórter especial em Brasília

Publicado em 31 de maio de 2026 às 10h00.

Última atualização em 31 de maio de 2026 às 12h49.

A inclusão das facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelo governo dos Estados Unidos tem gerado apreensão entre grandes empresários de diversos setores, como o financeiro e o de combustíveis, que temem aumentos de custos, impactos econômicos negativos e sanções politicamente motivadas decorrentes da decisão americana.

A EXAME conversou com cinco grandes empresários e executivos de diversos setores, incluindo os segmentos de serviços financeiros, indústria, energia e varejo, sobre a decisão do governo americano. Todos pediram anonimato. A classificação das facções como terroristas, argumentam, não resolve e podem ser contraproducentes, um cenário que é pior do que o atual.

Reservadamente, um representante de entidade setorial afirma que, embora à primeira vista a medida pareça um endurecimento contra atividades criminosas por parte dos Estados Unidos, na prática ela pode servir para colocar empresas e instituições brasileiras na mira de sanções econômicas e diplomáticas, mesmo que não tenham ligação direta com o tráfico.

Sanções econômicas amplas a grandes instituições financeiras brasileiras, nesse sentido, não minariam as facções, que já operam internacionalmente em paraísos fiscais, e poderiam ter efeitos econômicos perniciosos.

Nesta quinta-feira, o Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou que incluirá, no dia 5 de junho, as facções criminosas CV e PCC na lista de organizações designadas como terroristas pelo governo americano. A decisão ocorre após o pedido dos irmãos Eduardo e Flávio Bolsonaro às autoridades dos Estados Unidos, feito durante visitas à Casa Branca nesta semana.  O governo brasileiro reagiu criticando o que considera um ataque à soberania do país e disse já levar a cabo ações de combate ao crime.

Compliance preventivo

Outro executivo com experiência no setor financeiro diz que bancos, cooperativas de crédito e fintechs tendem a reagir endurecendo ainda mais as medidas de compliance preventivo para evitar sanções americanas. Uma opção em discussão é restringir ainda mais os controles de abertura de conta, por exemplo, excluindo clientes que jamais tenham sido processados por crimes, mas que, por exemplo, residam em regiões controladas pelo tráfico. Hoje, a norma do Banco Central impede que contas sejam encerradas sem justificativa, mas ela pode ser genérica, como "desinteresse comercial".

O governo Lula teme que a atitude do governo Trump tenha impacto negativo até mesmo no funcionamento do Pix, ferramenta que já é alvo de críticas de autoridades americanas por permitir a transferência rápida de dinheiro sem passar por cartões. A suposta concorrência desleal do Pix com meios de pagamento americanos é um dos temas sob investigação do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) no âmbito da chamada Seção 301. O processo foi aberto no ano passado, em meio ao tarifaço imposto pelo governo de Donald Trump às exportações brasileiras.

Há, ainda, receio no empresariado de que empresas que não apoiam organizações criminosas sejam alvo de sanções econômicas por eventualmente terem mantido relações comerciais, ainda que esporádicas e de pequena dimensão, com pessoas que posteriormente foram identificadas como colaboradoras de facções.

O argumento é que, no atual estágio de desenvolvimento e sofisticação das facções criminosas, há situações em que é difícil identificar se determinado fundo ou investidor tem ligação com o crime organizado e que sanções contra instituições financeiras não combatem o crime em si. Regras de compliance preventivo, por outro lado, têm como efeito colateral tornar mais difícil o acesso a serviços financeiros para uma parcela considerável da população.

Outro temor é o uso político e direcionado, por parte do governo Trump, de sanções que deveriam ser utilizadas no combate a grupos terroristas. Esse cenário não seria inédito, visto que a gestão americana já aplicou, por exemplo, a chamada Lei Magnitsky contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, no ano passado. A norma prevê duras sanções econômicas e diplomáticas a pessoas envolvidas em grandes casos de corrupção e flagrantes abusos de direitos humanos, situações nas quais, segundo críticos da medida, o ministro e sua esposa não se enquadrariam. Ambos ficaram na lista de sancionados de julho a dezembro de 2025.

Por fim, há receio de que sanções econômicas de cunho político contra o Brasil possam afetar negativamente a economia do país e, consequentemente, os negócios.

Apesar do receio, os empresários ouvidos pela reportagem evitam falar publicamente sobre o tema por temerem danos à própria reputação. No atual estágio de polarização, diz um deles, críticas às medidas do governo americano podem ser interpretadas publicamente como conivência com organizações criminosas.

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