STF: repercussão do julgamento nas redes teve impacto negativo para Lula (Rosinei Coutinho/STF)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 21 de setembro de 2026 às 06h00.
A crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) mudou o eixo da conversa política nas redes sociais e ampliou a exposição negativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo levantamento da Datrix, empresa de inteligência de dados e comportamento digital, divulgado com exclusividade à EXAME.
Durante o julgamento que discutia se o ministro Alexandre de Moraes deveria ser investigado por ligações com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do extinto banco Master, as menções ao presidente cresceram cerca de 30% acima da média diária, com predominância de comentários negativos.
A análise da Datrix indica que o debate sobre o STF se tornou um dos principais temas políticos nas redes e passou a concentrar a atenção que antes estava distribuída em outras pautas do governo Lula.Em entrevista ao programa Eleições em Pauta, da EXAME, João Paulo Castro, analista da Datrix, afirmou que o episódio favoreceu principalmente o senador Flávio Bolsonaro (PL) no ambiente digital, enquanto reduziu o espaço de crescimento de outros nomes da oposição, como Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante).
Segundo ele, a polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro estabelece um limite para os demais candidatos nas redes. “Tanto Flávio Bolsonaro quanto o presidente Lula têm volumes, alcances e número de dimensões muito superiores aos outros candidatos”, afirmou.
O levantamento da Datrix sobre a sessão extraordinária do STF em 15 de setembro identificou 523 mil publicações sobre a Corte e seus ministros, com 39,15 bilhões de impressões potenciais, indicador que estima o alcance possível das mensagens publicadas.
O pico de conversa digital teve como principais personagens Alexandre de Moraes, André Mendonça e Flávio Dino, mas também ampliou a exposição de ministros que tinham menor presença anterior nas redes. Cármen Lúcia registrou o maior crescimento proporcional de impressões entre os integrantes do tribunal, após seu discurso durante a sessão.
Para João Paulo, o principal efeito político do episódio nas redes foi retirar espaço de temas que vinham sendo explorados pelo governo federal antes da crise.
“Antes do começo do mês, quando começaram a eclodir os vazamentos, a gente via temas positivos para o governo, como a escala 6x1. Isso não se discute mais. Não se discute mais isso na imprensa, não se discute mais isso nas redes sociais”, afirmou.
Segundo o analista, o debate sobre o Supremo passou a dominar a agenda digital e dificultou a entrada de novos assuntos na conversa política online.Na avaliação da Datrix, o presidente Lula passou a ser associado nas redes principalmente à crise institucional envolvendo o STF. O levantamento aponta que o aumento das menções ao presidente ocorreu “praticamente todo negativo”, segundo o CEO da Datrix.
O analista afirmou ainda que a mudança de postura pública do presidente indicou uma tentativa de separar a imagem institucional do governo da disputa eleitoral.
“Parece que ele entrou na campanha, porque acho que eles perceberam que o posicionamento institucional do presidente estava sendo negativo para o candidato Lula”, disse.
Para Castro, a campanha petista precisa mudar a narrativa da campanha e citou o aumento do Bolsa Família como uma tentativa de mudar o foco dos comentários nas redes sociais e trazer a narrativa de volta para o lado do presidente.
A análise de sentimento da Datrix, que mede a proporção de menções positivas e negativas nas redes, aponta que os episódios relacionados ao STF tiveram efeito diferente para Lula e Flávio Bolsonaro.
Segundo João Paulo, as discussões envolvendo ministros, decisões da Corte e críticas ao tribunal tiveram saldo positivo para Flávio Bolsonaro. A exceção ocorreu em temas relacionados ao caso Banco Master e ao empresário Daniel Vorcaro, que apresentaram resultado diferente para o senador.
“Para o Flávio, absolutamente todos os assuntos de briga entre os ministros, de revelações, isso tudo é positivo”, afirmou.
O levantamento não mede intenção de voto, mas mostra como determinados acontecimentos alteram o volume, o alcance e o tom das conversas políticas nas redes sociais.João Paulo destacou que a crise também alterou a percepção dos usuários sobre os personagens envolvidos. Segundo ele, Alexandre de Moraes passou a ser visto como o principal nome associado ao conflito digital, enquanto Daniel Vorcaro perdeu espaço na conversa.
“Daniel Vorcaro, em alguns momentos, some da conversa. Ele desaparece da conversa. E se torna uma conversa institucional sobre a crise do STF”, afirmou.
Além de Lula e Flávio Bolsonaro, a sessão alterou a presença digital dos ministros do Supremo. Alexandre de Moraes permaneceu como o principal nome em volume absoluto, com 202,8 mil publicações e 24,54 bilhões de impressões no dia do julgamento.
Cármen Lúcia teve o maior crescimento proporcional de alcance entre os ministros, com aumento de 19,84 vezes nas impressões em relação à média da semana anterior.
Para João Paulo, o desempenho está relacionado ao caráter emocional da fala da ministra durante a sessão. “As redes sociais trazem algo que é essencialmente humano, que é o pensamento emocional. Então teve um toque emotivo. O discurso que ela fez foi muito bem recebido”, afirmou.
O levantamento da Datrix considera publicações públicas no X (antigo Twitter), Facebook, YouTube, Instagram, Threads, TikTok, Flickr e portais de notícia. As impressões representam estimativas de alcance potencial das publicações e não correspondem a visualizações confirmadas.