Brasil

Cracolândia acabou e não vai voltar, diz vice-governador de SP

Em entrevista exclusiva à EXAME, Felício Ramuth defende que a Cracolândia não se espalhou pela cidade e que o modelo adotado pelo estado e prefeitura é baseado em dados

Felício Ramuth: coordenador da ação para acabar com a Cracolândia diz que região tinha alta rotatividade de pessoas

Felício Ramuth: coordenador da ação para acabar com a Cracolândia diz que região tinha alta rotatividade de pessoas

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 15 de janeiro de 2026 às 10h56.

A cena aberta de uso de drogas que marcou por décadas a região central de São Paulo deixou de existir e não vai voltar.

A avaliação parte do vice-governador Felício Ramuth, que coordena a política de enfrentamento às drogas no estado, em entrevista exclusiva à EXAME.

“A Cracolândia acabou porque as pessoas deixaram de vir. E não vai voltar porque a lógica foi desmontada”, afirma o vice-governador em seu gabinete no Palácio dos Bandeirantes ao comemorar a marca de oito meses sem a cena aberta de uso. 

Ramuth destaca o trabalho transversal do estado com a prefeitura que interrompeu o que ele chama de “torneira aberta”: a chegada constante de novos usuários a um espaço sem presença do Estado.

Desde março de 2023, o governo estadual consolidou uma frente integrada entre segurança, saúde e assistência social. Segundo o vice-governador, o trabalho todo foi baseado em dados. A identificação de quem estava na região mostrou que 60% dos frequentadores não eram da cidade de São Paulo e que existia uma grande rotatividade no local.

“Havia 15% das pessoas que estavam constantemente na cena de uso. Falamos então de 300 a 400 pessoas com dependência mais forte, que apareciam com frequência”, diz. 

“Além disso, descobrimos que 85% tinham passagem pelo sistema penitenciário e 60% estavam descumprindo medidas judiciais”.

Foram mais de 5 mil notificações ao Judiciário de pessoas em descumprimento de médias judiciais, 2 mil prisões, 9 mil internações e a criação de uma rede de cuidado ancorada no Hub de tratamento para usuários de drogas e em 56 casas terapêuticas, com monitoramento individual e por dados clínicos.

O vice afirma ainda que a Cracolândia não se espalhou pela cidade, pois o trabalho de monitoramento segue. Ramuth destaca ainda a queda no número de roubos e furtos na região e a volta dos comércios e negócios.

“Antes, era um local onde o poder público não entrava. Hoje, toda concentração de 10 pessoas em qualquer lugar do centro é identificada, abordada e qualificada”, diz.

O plano, agora, é replicar fora da capital, em cidades do interior, o modelo.

Leia a entrevista completa com Felicio Ramuth

No início da gestão, o governador Tarcísio disse que a Cracolândia não seria um problema que se resolveria do dia para a noite. O que mudou? E como começou, de fato, a implementação?

Quando lançamos o programa, o objetivo já era enfrentar a situação. Isso foi em março de 2023. Assim que o governador me passou essa missão, como coordenador desses trabalhos pelo estado, nós começamos buscando evidências de experiências em outros locais do mundo. Eu também fui conversar com pessoas aqui no Brasil. Escutei especialistas, políticos, representantes de entidades que tinham realizado trabalhos sobre isso, todos sem viés ideológico. O trabalho começou com a pergunta: qual é a essência do problema? A Cracolândia era um local, no meio do centro de São Paulo — a maior cidade da América Latina —, onde o poder público não entrava. Não entrava segurança, não entrava saúde, nem assistência social. Era preciso acabar com isso. Quando chegamos, havia uma concentração de mais de 3 mil pessoas. Estava na Rua dos Gusmões, depois foi para a Rua dos Protestantes. E como era um lugar onde nem a polícia entrava, começamos a mostrar a presença das políticas públicas.

Como foi feita a articulação para solucionar o problema?

Passamos a realizar reuniões semanais entre o estado e prefeitura e, uma vez por mês, reuniões conjuntas com todos os setores: saúde, social, habitação, segurança. Isso para todos saberem o que o outro está fazendo. E semanalmente temos reuniões setoriais — saúde com saúde, segurança com segurança, social com social. Ajustamos os detalhes ali. Muitas ações que hoje parecem simples nunca tinham sido feitas. Começamos com a qualificação das pessoas que estavam ali. O que significa qualificar? É saber quem são. Fizemos a chamada “Operação Resgate”. Sentávamos todos, chamávamos um por um. Tirávamos fotografia, fazíamos reconhecimento facial, buscávamos informações: de onde vinha, onde morava, se tinha passagem pelo sistema penitenciário. Com isso, passamos a ter informações relevantes.

E o que essas informações revelaram?

Primeiro, descobrimos que 60% das pessoas eram de fora da cidade de São Paulo. Começamos a fazer a operação a cada 15 dias, e notamos que a maioria das pessoas não aparecia mais que duas ou três vezes. Ou seja, havia uma grande rotatividade. Também vimos que o público da noite era completamente diferente do público de dia. À noite, era um público de happy hour, recreativo, pessoas que saíam do trabalho e iam comprar droga barata. Já o grupo do dia era outro. Havia também 15% das pessoas que estavam constantemente na cena de uso. Falamos então de 300 a 400 pessoas com dependência mais forte, que apareciam com frequência. Com base nisso, passamos a fazer ações específicas para cada tipo de público. Além disso, descobrimos que 85% tinham passagem pelo sistema penitenciário e 60% estavam descumprindo medidas judiciais. Essas medidas incluem, por exemplo, pessoas em semiliberdade ou aguardando julgamento, que tinham restrições e não poderiam estar ali.

Como foi a aplicação das medidas de segurança e o uso da tecnologia, como o reconhecimento facial?

Instalamos câmeras e passamos a fazer o monitoramento do tráfego. Prendemos mais de 2 mil traficantes ali, só na cena aberta de uso da Cracolândia. Não estou falando do centro inteiro, estou falando só ali. Começamos a notificar a Justiça pelo descumprimento de medidas. Queríamos prender essas pessoas com base nas decisões judiciais que diziam: se descumprir, pode prender. Mas a Justiça não permitia. Fizemos aproximadamente 5 mil notificações. Aí alguém pode perguntar: 'Mas Felício, se tinham 2 ou 3 mil pessoas, como fizeram 5 mil notificações?' Porque tudo tem a ver com a rotatividade. Inclusive, a extinção da Cracolândia tem a ver com essa rotatividade. Por exemplo: 9 mil pessoas foram para tratamento. Como, se havia apenas 2 mil ou 3 mil? Porque era um fluxo que mudava sempre. Esses números de internação estão consolidados entre os encaminhamentos do estado e da prefeitura.

Qual era a expectativa em relação a essas notificações judiciais?

Quando notificamos 5 mil pessoas, fazíamos isso manualmente no início. A gente identificava o sujeito, via que ele estava em semiliberdade ou aguardando julgamento, com medidas de restrição. Fazíamos um ofício. Depois automatizamos, pegando a ficha dele junto com o BNMP, o Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões. Esperávamos que todos que estavam descumprindo medidas regredissem para o regime fechado, como está previsto na lei. Quantos regrediram? 150. E, quer saber? Foi ótimo. Porque quando o primeiro regrediu, os “coleguinhas” viram. Quando um vai preso, os outros se assustam. E aí muita gente parou de descumprir medidas, com medo.

Você mencionou  a criação de um Hub. Como foi a criação dele?

Criamos o Hub logo no início. Já existia algo no local, mas transformamos em Hub de cuidado com o crack e outras drogas. Fui buscar dados sobre outros programas, como o Braços Abertos. E a surpresa foi que não havia dados disponíveis. Quem não tem informação, não tem gestão. Por isso, uma das exigências que fiz foi a criação de um repositório de dados. Chamamos a Unifesp. Desde o primeiro dia, tudo foi registrado e catalogado. Sabemos, por exemplo, que até agora foram feitos 37.972 atendimentos. A gente sabe para onde essas pessoas foram: 20 mil para hospitais especializados, 9 mil para comunidades terapêuticas, outras para equipamentos de saúde. Todos os dados estão aqui: tipo de droga, perfil clínico, cor da pele, frequência de passagens pelo Hub, risco de convulsão, risco de suicídio... tudo está registrado.

Inauguração do Complexo da Casa Terapêutica Casa Verde

Complexo da Casa Terapêutica Casa Verde: local é indicado para acolhimento terapêutico de dependentes químicos

Foi necessário aumentar a rede de cuidado? 

Quando começamos, havia 120 vagas em hospitais especializados. Hoje são mais de 700. Ampliamos as vagas em comunidades terapêuticas e criamos 14 complexos de casas terapêuticas, com 56 casas ao todo. Cada complexo tem quatro etapas. Tem a casa de chegada, a de evolução, a de transição e a final. Em algumas, precisamos até ensinar higiene pessoal, porque a pessoa já havia perdido isso. Criamos uma metodologia para isso.

Houve ações além da área da saúde e segurança?

Sim. Fechamos pensões e ferros-velhos usados pelo crime. Mudamos a legislação municipal. Antes, um bar pego com droga era fechado na hora, mas reabria no dia seguinte. Agora, é lacrado imediatamente. E mudamos a lei de zoneamento: não pode mais abrir ferro-velho no centro. Houve operação conjunta com o Ministério Público chamada “Saúde e Dignidade”, que fechou prédios usados pelo crime, inclusive o que tinha ligação com o “Léo do Moinho”, preso depois. Tínhamos duas favelas importantes: a da Gusmões, que pegou fogo, e a do Moinho. A da Gusmões era menor, 70 casas. A do Moinho era mais problemática. Conseguimos realocar 90% das famílias.

Tem gente que diz que a Cracolândia se espalhou. O senhor já explicou que havia rotatividade ali, mas qual a explicação para a percepção de que ela foi para outros bairros?

Primeiro, é importante explicar algo. Infelizmente, sempre existiram moradores de rua e uso de drogas em várias regiões da cidade: na Roberto Marinho, na frente do Ceagesp, na Cruzeiro do Sul... sempre existiu. Claro que agora existem dois sentimentos diferentes na sociedade. Primeiro, o sentimento de que a Cracolândia está na porta da minha casa. Segundo: “Se resolveram lá, agora tem que resolver aqui também”. Então, muitas vezes, a pessoa já tinha dois ou três usuários na porta da casa dela há anos, mas só agora passou a enxergar isso como um problema público, porque viu a ação no centro. E isso não é um erro — faz parte. Mas precisamos saber separar o que é morador em situação de rua e o que é cena aberta de uso, que são coisas distintas.

Mas vocês continuam monitorando a região central?

Sim. Temos um trabalho constante com monitoramento e equipes de saúde, assistência social e segurança. Contamos todos os pontos, um por um. Hoje, qualquer concentração com 4, 5, 10 pessoas, abordamos. E fazemos a qualificação — sabemos quem são, de onde vieram. E é por isso que dizemos, com convicção: a Cracolândia não se espalhou. Por quê? Porque dessas pequenas concentrações que vemos, apenas 10% das pessoas já estiveram um dia na cena aberta de uso da Cracolândia. Ou seja, são outras pessoas. Não são as mesmas 2 mil ou 3 mil que se espalharam. E, mais importante ainda: a grande pergunta não é: “para onde essas pessoas foram?”. É: “por que elas deixaram de vir?”. E a resposta é: porque aquele não era mais o melhor lugar do Brasil para se esconder da polícia e da família. Aquele cenário de ausência do poder público acabou. Isso fechou a torneira principal. A Cracolândia era alimentada pelas pessoas que vinham, mais do que pelas que já estavam lá.

E para quem estava lá, o que aconteceu?

Boa parte foi encaminhada para tratamento. E temos um dado importante: 67% das pessoas que vão para comunidades terapêuticas concluem o tratamento. Isso com duração média de 131 dias — o ideal seria 180, mas é uma média muito boa. E essas comunidades não são internação, tecnicamente, mas funcionam com vida em grupo, terapia coletiva. Já as casas terapêuticas são diferentes. Nelas, o sujeito mora mesmo — com quarto, beliche, responsabilidades, num ambiente urbano. Criamos 14 complexos, com quatro casas cada um, que representam etapas: acolher, despertar, transportar, caminhar. O objetivo é que a pessoa evolua, recupere hábitos, e esteja pronta pra sair. Mas se quiser permanecer, pode também.

Como funciona a reinserção social dessas pessoas?

Tem uma ilusão de que você vai tirar o sujeito da rua e arrumar um emprego. Isso não existe. Ele precisa estar preparado para isso. Mas quem conclui o tratamento pode participar do POT — Programa Operação Trabalho, da Prefeitura. Recebe R$ 1.200, se qualifica e trabalha em serviços públicos. Hoje, temos 1.200 pessoas no POT. Ainda há preconceito, mas falta mão de obra, e quem completa o ciclo geralmente consegue se inserir. Também criamos o Projeto Prevenir, com 11 unidades, espalhadas pelo interior e capital. São espaços onde as famílias desses usuários recebem orientação. Porque 76% das pessoas que estavam na Cracolândia não eram moradores de rua, mas tinham casa e foram para a rua por causa da droga. A família não sabia como recebê-los de volta. O Prevenir ajuda nesse processo.

Inauguração do Espaço Prevenir

Espaço Prevenir: local faz parte da estratégia do estado para tratar dependentes (CELSO SILVA / Governo do Estado de SP/Reprodução)

No hospital, como é feito o atendimento a esses usuários?

Antes, não existia uma metodologia padrão nos hospitais para atender usuários de drogas. Cada hospital fazia de um jeito. Criamos agora uma metodologia única, usada em sete hospitais e 30 comunidades terapêuticas credenciadas, além das 14 casas. Existe uma publicação científica com o protocolo: medicamento, procedimento, tudo padronizado. Esse cuidado, somado à segurança pública e à integração com a Prefeitura, é o que permitiu a gente chegar onde chegamos. Mas deixo claro: não acabamos com o consumo de drogas em São Paulo. Acabamos com a Cracolândia — com a cena aberta de uso. E ela não vai voltar.

E depois que a pessoa passa por tudo isso, existe algum dado sobre a inserção no mercado?

O POT é a principal porta. Quem conclui o tratamento, entra no programa. Como eu disse, recebe cerca de R$ 1.100 ou R$ 1.200, se qualifica e presta serviço à Prefeitura. E temos um sistema de regulação das comunidades terapêuticas. Uma gestora acompanha tudo, cobra os indicadores, recebe denúncias e paga conforme o desempenho. Se a casa atinge a meta de dias de permanência, recebe um valor maior. Isso estimula a permanência até o fim do tratamento.

Essa política pública corre o risco de não continuar num novo governo?

Infelizmente, corre. Fui prefeito por dois mandatos e já vi muitas políticas públicas sendo descontinuadas por questões ideológicas. Isso acontece. Mas nós regulamentamos a Política Estadual sobre Drogas. A regulamentação da lei de 2019 nos permitiu transformar a prática em norma. E temos fé que a sociedade abrace essa política como conquista e não permita retrocessos. E neste ano vamos implementar o maior programa de prevenção da história de São Paulo. Não é “diga não às drogas”. Esse modelo não funciona. Fomos buscar metodologias internacionais, inserimos o tema de forma transversal nas disciplinas escolares. O Estado tem material didático próprio, e tudo será incorporado de forma estruturada.

Qual é o próximo objetivo do programa, agora que a Cracolândia acabou?

Consolidar a metodologia, expandir os Hubs para outras regiões da cidade e do Estado. Criar Hubs regionais para abordar usuários de drogas. Isso é diferente da política para moradores em situação de rua, que é responsabilidade do município. Hoje temos a central de monitoramento, que atende alguns bairros do centro. A ideia é replicar esse modelo em outras regiões. Mesmo onde não há cena aberta como a Cracolândia, existem pequenos pontos de uso. E queremos aplicar a mesma metodologia, que agora já tem validação científica, em todo o Estado para acabar com qualquer pequeno grupo.

Acompanhe tudo sobre:CracolândiaDrogasEstado de São Paulo

Mais de Brasil

Acordo Mercosul–UE deve entrar em vigor no segundo semestre, diz Alckmin

JBS confirma interesse e Itajaí vira peça-chave nos leilões portuários

Genial/Quaest: 58% temem ação dos EUA no Brasil como na Venezuela

Passsaporte do Brasil está na frente do México, mas atrás do Chile; veja ranking