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China, Venezuela e EUA: os riscos que devem mexer com o Brasil em 2026

Relatório da Eurasia aponta impactos moderados no curto prazo, mas alerta para efeitos decisivos no cenário político e econômico brasileiro

Vista da passagem de fronteira Brasil-Venezuela em Pacaraima, estado de Roraima, no Brasil: Embora o Brasil esteja relativamente protegido da chamada Doutrina Monroe, ações envolvendo a Venezuela podem gerar atritos indiretos com Washington (Getty Images)

Vista da passagem de fronteira Brasil-Venezuela em Pacaraima, estado de Roraima, no Brasil: Embora o Brasil esteja relativamente protegido da chamada Doutrina Monroe, ações envolvendo a Venezuela podem gerar atritos indiretos com Washington (Getty Images)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 5 de janeiro de 2026 às 14h49.

Os principais riscos para o Brasil em 2026 devem ter impacto moderado no curto prazo, mas podem se tornar decisivos à medida que o país se aproxima das eleições presidenciais, marcadas para outubro. A avaliação é do relatório Top Risks 2026, da consultoria de risco político Eurasia, divulgado nesta segunda-feira, 5.

Segundo o documento, os quatro fatores com maior potencial de impacto para o Brasil neste ano são: a desaceleração estrutural da economia da China, uma possível crise regional envolvendo a Venezuela, o uso de inteligência artificial nas eleições e a disputa geopolítica entre Estados Unidos e China.

O documento, que identifica fatores externos e domésticos capazes de influenciar de forma relevante o cenário político e econômico brasileiro neste ano, aponta que o risco mais consequente para o Brasil está ligado à desaceleração estrutural da China, o principal parceiro comercial do país.

Segundo o relatório, a chamada “armadilha deflacionária” chinesa tem efeitos positivos imediatos ao exportar desinflação para economias como a brasileira, reduzindo preços de bens manufaturados — o que deve ajudar a conter a inflação e abrir espaço para um ciclo de flexibilização monetária mais rápido.

Hoje, a taxa básica de juros no Brasil está em 15% ao ano. O ambiente deve favorecer o cenário econômico no curto prazo.

“As importações chinesas reduzem os preços dos produtos manufaturados, controlam a inflação e permitem uma flexibilização monetária mais rápida, o que é uma boa notícia para a campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)”, afirma o documento.

Contudo, diz o relatório da Eurasia, o alívio mascara vulnerabilidades relevantes, uma vez que a demanda chinesa mais fraca tende a reduzir o apetite por commodities brasileiras, especialmente minério de ferro — principal item exportado pelo Brasil à China.

Ainda que o país busque diversificar mercados por meio de acordos comerciais, o relatório aponta que não existe, no horizonte, um substituto claro para o mercado chinês. Além disso, setores industriais como siderurgia, petroquímica, têxtil e automotivo seguem pressionados pela concorrência de importações chinesas.

“O desafio político é administrar os benefícios da inflação de curto prazo, ao mesmo tempo, em que se acelera a diversificação estrutural”, diz o documento.

Venezuela e Trump

Um ponto levantado pela Eurasia envolve a relação entre Venezuela e Estados Unidos. Embora o Brasil esteja relativamente protegido da chamada "Doutrina Donroe" — política de Trump que reforça a primazia dos EUA no Hemisfério Ocidental —, ações envolvendo a Venezuela podem gerar atritos indiretos com Washington.

Na madrugada de sábado, 3, forças de elite dos Estados Unidos capturaram o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em Caracas. A ação incluiu uma ofensiva aérea contra alvos na capital e em estados vizinhos.

Maduro e a primeira-dama, Cilia Flores, foram levados sob custódia para fora do país. A operação, aprovada pessoalmente por Donald Trump, mobilizou navios de guerra, caças F-35 e agentes da CIA.

Segundo o relatório, uma escalada regional tende a atrasar negociações bilaterais estratégicas entre Brasil e Estados Unidos, especialmente nas áreas de comércio e minerais críticos.

Ainda assim, o documento avalia que, pela escala econômica e pela relevância estratégica do Brasil, os riscos são mais de atraso do que de ruptura nas relações entre os dois países.

IA nas eleições

Outro risco central envolve o uso de inteligência artificial nas eleições de 2026. O Brasil entra no ciclo eleitoral com regras recém-implementadas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que proíbem deepfakes eleitorais, conteúdos falsos gerados por IA e o uso de chatbots que simulem candidatos.

Ainda assim, o relatório da Eurasia avalia que a rápida evolução tecnológica, aliada à polarização política, torna a fiscalização um desafio significativo.

“Apesar dessa arquitetura, a aplicabilidade prática no contexto da rápida evolução tecnológica será um desafio”, afirma o relatório.

O documento alerta que a influência da IA pode ocorrer de forma indireta, por meio de sistemas usados por eleitores para buscar informações sobre candidatos — canais que escapam ao monitoramento das autoridades.

O cenário é agravado pela desconfiança institucional e pelo ambiente político polarizado, o que amplia o risco de disputas sobre a legitimidade do processo eleitoral.

EUA, China e energia

O quarto fator analisado pela consultoria coloca o Brasil em uma posição relativamente favorável na disputa geopolítica global.

A combinação entre exportações de petróleo, matriz elétrica majoritariamente renovável e acesso a minerais críticos cria uma vantagem estratégica em meio à competição tecnológica entre Estados Unidos e China.

Cerca de 70% do investimento direto chinês no Brasil está concentrado em energia e sustentabilidade, acelerando a transição para uma economia de baixo carbono sem comprometer receitas do setor de combustíveis fósseis.

Ainda assim, o relatório aponta incertezas decorrentes de mudanças na política industrial americana, que podem limitar oportunidades brasileiras em áreas como combustível sustentável de aviação (SAF) e hidrogênio verde.

Outros riscos no radar

Além dos fatores centrais, a Eurasia destaca riscos adicionais que, embora tenham impacto mais limitado no curto prazo, podem influenciar o Brasil em 2026.

A instabilidade política na Europa tem impacto direto reduzido, especialmente se o acordo entre União Europeia e Mercosul for finalizado antes do agravamento das crises no continente. Ambos os blocos econômicos afirmam que a tratativa será assinada na próxima segunda-feira, 12.

Em dezembro de 2025, agricultores europeus protestaram em Bruxelas contra a medida, o que fez países como a França, a Itália e a Polônia se posicionarem contra o acordo.

No entanto, o relatório alerta que o aumento do protecionismo europeu pode dificultar a implementação do acordo mesmo após sua assinatura, além de complicar o engajamento do Brasil em pautas multilaterais ligadas a comércio, clima e direitos humanos.

Uma possível escalada do conflito entre Rússia e OTAN pode afetar o Brasil por meio de choques no fluxo global de commodities.

Entre as principais vulnerabilidades estão as exportações russas de fertilizantes — essenciais para o agronegócio brasileiro — e os mercados de energia, onde interrupções no fornecimento russo elevariam preços internacionais e pressionariam a inflação de importados.

Acompanhe tudo sobre:BrasilEleições 2026

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