Brasil

Câmara aprova projeto que proíbe 'carne de soja' e 'leite vegetal' em rótulos

Texto redefine legalmente os termos, impõe mudanças em rótulos e pode influenciar enquadramento tributário

Rotulagem de alimentos: projeto aprovado na Câmara restringe uso de termos como “carne” e “leite” a produtos de origem animal (//Thinkstock)

Rotulagem de alimentos: projeto aprovado na Câmara restringe uso de termos como “carne” e “leite” a produtos de origem animal (//Thinkstock)

Publicado em 3 de março de 2026 às 08h50.

A Câmara dos Deputados aprovou no início da madrugada desta terça-feira, 3, um projeto de lei que restringe o uso das palavras “carne”, “leite” e “mel” exclusivamente a produtos de origem animal.

A proposta proíbe alimentos vegetais de utilizarem denominações tradicionalmente associadas à proteína animal, como “carne de soja” ou “leite de castanha”, e seguirá para análise do Senado Federal.

Pelo texto, “carne” passa a ser definida como tecidos comestíveis de animais de açougue abatidos sob inspeção veterinária. “Leite” ficará restrito à secreção mamária de fêmeas mamíferas. A regra também veda que produtos vegetais utilizem qualquer denominação associada a alimentos de origem animal.

Na prática, itens comercializados como “carne de soja”, “hambúrguer vegetal”, “leite vegetal” ou “iogurte vegano” terão de alterar embalagens, rótulos e estratégias de comunicação. Restaurantes e estabelecimentos deverão informar de forma clara quando utilizarem produtos similares no preparo de alimentos. O prazo de adaptação será de 180 dias após eventual sanção.

Debate no plenário

Parlamentares ligados ao agronegócio defenderam a proposta sob o argumento de que a medida garante clareza ao consumidor e evita confusão entre produtos de origem animal e vegetal.

“O leite é um produto de origem animal, assim como a carne, e às vezes transparece que existem de origem vegetal. Nós precisamos esclarecer isso ao consumidor. Leite de soja não é leite. Parece que é o que não é”, afirmou Pompeo de Mattos (PDT-RS).

Deputados favoráveis sustentam que a restrição protege cadeias produtivas do campo e evita concorrência desleal.

Parlamentares da oposição criticaram o texto e afirmaram que a proposta representa retrocesso no debate sobre alternativas alimentares e inovação no setor.

“Esse projeto é no mínimo desnecessário e não soma ao avanço da alimentação saudável, de proteínas alternativas, para o consumo humano”, disse Chico Alencar (PSOL-RJ).

Possíveis reflexos tributários

Embora o projeto não altere alíquotas nem crie novos tributos, técnicos avaliam que a redefinição legal do que pode ser considerado “carne” ou “leite” pode influenciar o enquadramento tributário desses produtos.

No sistema brasileiro, a carga tributária sobre alimentos varia conforme a classificação fiscal e a natureza jurídica do item. Carnes in natura podem ter tratamento diferenciado e integrar listas com tributação reduzida. Já alimentos vegetais processados seguem outra lógica de enquadramento.

Ao estabelecer que apenas produtos de origem animal podem ser denominados “carne”, a proposta tende a consolidar a separação entre proteína animal e vegetal também na esfera fiscal. Isso pode reforçar o enquadramento de itens como “carne de soja” exclusivamente como produto vegetal industrializado, afastando eventual equiparação a regimes aplicáveis à cadeia da proteína animal.

O efeito, no entanto, não é automático e dependerá de regulamentação posterior e da interpretação da Receita Federal. Ainda assim, a definição pode influenciar disputas de classificação fiscal e o acesso a benefícios previstos na reforma tributária, especialmente na discussão sobre itens da cesta básica com alíquotas reduzidas.

Perda de benefícios fiscais

O projeto prevê que o descumprimento das regras poderá sujeitar fabricantes e estabelecimentos às penalidades do Código de Defesa do Consumidor e à perda ou restrição de incentivos e benefícios fiscais concedidos pela União.

Nesse ponto, há impacto tributário direto: empresas que mantiverem rotulagem considerada irregular podem perder regimes favorecidos ou incentivos federais.

*Com informações do O Globo

Acompanhe tudo sobre:Agência CâmaraVeganos

Mais de Brasil

TSE proíbe disseminação de conteúdo feito por IA 72 horas antes das eleições

Flávio começa a atuar como advogado de Jair Bolsonaro em processo de trama golpista

Papa Leão XIV nomeia novo arcebispo de Aparecida

Marília Arraes se filia ao PDT para concorrer ao Senado em Pernambuco