Oncoclínicas: Dívida inviabilizou negócio com Fleury e Porto (Oncoclínicas/Reprodução)
Colaboradora na Exame
Publicado em 14 de abril de 2026 às 15h15.
Porto Seguro, Fleury e Oncoclínicas encerraram as negociações para criar uma nova empresa focada em oncologia, uma iniciativa que poderia reorganizar o segmento e aliviar a estrutura financeira da rede especializada em câncer.
O fim das conversas desmonta uma proposta vista por analistas com potencial de consolidação no setor de oncologia, área intensiva em capital e com crescente necessidade de escala operacional.
A Porto (PSSA3) informou nesta terça-feira, 14, que notificou formalmente a Oncoclínicas (ONCO3) sobre o encerramento das negociações para a criação de uma nova empresa de oncologia. Com isso, a companhia ficou liberada da cláusula de exclusividade firmada em março, que restringia conversas paralelas com outros potenciais parceiros.
Na véspera, o Fleury (FLRY3) já havia comunicado decisão semelhante ao mercado. A empresa reiterou que continua avaliando oportunidades estratégicas no setor, mas confirmou que a estrutura conjunta discutida entre as três companhias não seguirá adiante.
Para a Oncoclínicas, o impacto é mais sensível. A companhia permanece com uma dívida superior a R$ 4 bilhões e perde, no curto prazo, uma alternativa estruturada para reorganizar o balanço com apoio de dois parceiros relevantes do setor.
As negociações entre Oncoclínicas, Porto Seguro e Fleury previam a criação de uma nova companhia (NewCo) para concentrar os ativos e operações das clínicas oncológicas da rede especializada. Em troca, a Oncoclínicas receberia participação acionária na nova empresa, enquanto as operações hospitalares permaneceriam fora da estrutura, segundo fato relevante divulgado pela companhia em março.
O desenho incluía ainda a transferência de cerca de R$ 2,5 bilhões em passivos para a NewCo, como parte de um plano de reorganização financeira. Além disso, Porto e Fleury fariam um aporte conjunto de R$ 500 milhões por meio de uma holding controladora (HoldCo), que passaria a deter o capital votante do novo negócio — embora a divisão da participação entre as duas ainda não estivesse definida.
A estrutura também previa a emissão de R$ 500 milhões em debêntures conversíveis (títulos de dívidas que podem ser transformados em participação acionária), com prazo de quatro anos e remuneração equivalente a 110% do CDI até a conversão. O arranjo permitiria à Oncoclínicas manter exposição ao negócio operacional ao mesmo tempo em que buscaria reequilibrar sua estrutura de capital.
As tratativas ainda estavam em estágio inicial e dependiam de etapas como auditorias detalhadas (due diligence), alinhamentos internos entre as companhias e aprovações regulatórias. Segundo análise do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME), o desfecho já era, em certa medida, esperado diante da situação financeira da companhia.
Para o banco, a complexidade da operação e a profundidade necessária das auditorias provavelmente evidenciaram os desafios embutidos na estrutura de capital da Oncoclínicas. A empresa violou covenants de dívida (regras para manter indicadores de endividamento dentro de um limite) no quarto trimestre e atualmente está em processo de standstill (pausa negociada para evitar default) com suspensão do pagamento do serviço da dívida.
Na avaliação dos analistas, a combinação de endividamento elevado e potenciais passivos fora de balanço dificulta a entrada de capital novo por empresas com balanços robustos, como Porto e Fleury, dentro de condições aceitáveis de risco e retorno.Segundo uma pessoa ligada à gestão da Oncoclínicas ouvida pela Folha de S.Paulo sob condição de anonimato, a companhia não aceitou a extensão do período de exclusividade das negociações com Porto Seguro e Fleury — movimento que antecedeu a decisão das duas empresas de abandonar o projeto conjunto.
Com dívida superior a R$ 4 bilhões, a Oncoclínicas entrou nesta segunda-feira com pedido cautelar na Justiça para suspender cobranças e se proteger de credores enquanto negocia a reorganização do passivo. Em fato relevante, a empresa afirmou que a medida busca garantir um ambiente “administrativo e financeiro mais organizado e estável”, permitindo a condução das negociações com credores sem interrupções nas operações.
O movimento ocorre em meio a uma deterioração acelerada da situação financeira da empresa. A crise se intensificou nas últimas semanas, com sinais claros de falta de liquidez. A empresa não conseguiu avançar em negociações com credores para adiar pagamentos de juros, especialmente entre detentores de CRIs, o que elevou o risco de execução imediata das dívidas.
Sem acordo, a proteção judicial virou o principal caminho para evitar um calote desordenado.
Segundo a Folha de S.Paulo, o avanço da operação com Porto e Fleury dependia de um balanço com menor nível de endividamento.
Executivos das duas companhias esperavam que os números divulgados pela Oncoclínicas indicassem redução do passivo. O contrato preliminar firmado entre as partes previa limite de aproximadamente R$ 2,5 bilhões em dívidas transferidas para a nova estrutura — patamar inferior ao observado atualmente.
Os números mais recentes reforçam a deterioração. Segundo relatório do BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME), a companhia teve um quarto trimestre fraco, com receita líquida de R$ 1,37 bilhão, queda de 13% na comparação anual, impactada pela descontinuação de serviços para alguns planos de saúde.
O resultado final foi pressionado por efeitos não recorrentes. A empresa registrou prejuízo de R$ 1,45 bilhão no período, mais que o dobro da perda de R$ 643 milhões um ano antes. Mesmo ajustando os efeitos extraordinários, a operação segue pressionada, com queda no Ebitda e consumo relevante de caixa.
A alavancagem também preocupa. A dívida líquida somava R$ 2,94 bilhões ao fim de 2025, e a empresa encerrou o ano com alavancagem de 4,3 vezes — acima do limite estabelecido em contratos com credores, o que configura quebra de covenants.
Apesar das dificuldades financeiras, o segmento oncológico é considerado estratégico dentro da saúde suplementar por concentrar parte relevante da rentabilidade ambulatorial do setor.
Com sua capilaridade nacional, a expectativa de Porto e Fleury era que a operação pudesse ampliar escala, fortalecer presença em tratamentos de alta complexidade e elevar margens operacionais.
Além da pressão financeira, a companhia também enfrenta desafios em sua operação. Segundo uma fonte ouvida pela Folha de S.Paulo, mais de 5.000 pacientes estariam com tratamentos oncológicos atrasados por problemas de abastecimento de insumos e medicamentos. Procurada pelo jornal, a empresa afirmou que não comentaria o tema.
Com o encerramento das negociações, cada uma das companhias segue agora sua estratégia de forma independente, interrompendo um movimento que havia elevado as expectativas do mercado em torno de uma possível reestruturação relevante no segmento de oncologia.
Nos últimos dias, conforme divulgado pela Folha de S. Paulo, a Oncoclínicas recebeu propostas por parte da gestora Starboard e do fundo Mak Capital, que detém uma fatia de 6,3% da rede oncológica. Segundo um executivo, outras negociações estão em andamento, o que pode representar um caminho para a reestruturação da ONCO3.