Repórter especial em Brasília
Publicado em 5 de agosto de 2026 às 11h36.
Última atualização em 5 de agosto de 2026 às 12h46.
O senador e pré-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro (PL), anunciou nesta quarta-feira, 5, que o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL), ex-relator da CPMI do INSS, será o vice-presidência da sua chapa eleitoral à Presidência.
O nome surpreendeu aliados do filho de Jair Bolsonaro, uma vez que Gaspar é pouco conhecido nacionalmente e havia oficializado, na véspera, sua candidatura ao Senado em Alagoas. Além disso, a campanha buscava o nome de uma mulher que ajudasse a reduzir a alta rejeição que o bolsonarista tem entre o público feminino.
No evento de anúncio do nome do vice, Flávio afirmou que a atuação de Gaspar na área da segurança pública e o papel que teve como relator da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investigou desvios no INSS levaram à sua escolha.
O parlamentar apresentou um relatório que pedia o indiciamento de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por suposto envolvimento no esquema. O documento atribuía a Lulinha os crimes de tráfico de influência, lavagem de dinheiro, organização criminosa e corrupção passiva, mas o documento foi rejeitado pela CPMI em março deste ano.
"É uma pessoa que eu aprendi a admirar, pela coragem, pela honestidade. (...) Alguém que defendeu nossos aposentados na CPMI do INSS e pediu a prisão do Lulinha, que tinha culpa no cartório", disse Flávio.
Flávio, no entanto, admitiu publicamente que o nome de Gaspar foi uma alternativa diante da falta de apoio de siglas do Centrão, como Progressistas, União Brasil, Republicanos e Podemos. Todas essas siglas tiveram mulheres cotadas para serem vice de Flávio, mas declararam neutralidade na disputa presidencial no segundo turno e liberaram seus diretórios estaduais para endossar presidenciáveis.
Flávio ressaltou que atuou para obter "o tempo de televisão, as inserções, de outros partidos aderindo formalmente à nossa chapa nacional, mas isso não foi possível". Destacou, porém, o apoio individual de lideranças de partidos do Centrão, como o do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) e do prefeito da capital paulista, Ricardo Nunes (MDB).
Entre os aliados presentes ao anúncio do vice da chapa bolsonarista, estavam nomes de mulheres que foram cotadas a vice pelo PL, a exemplo das senadoras Tereza Cristina (PP-MS) e Damares Alves (Republicanos-DF) e da ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniela Marques (Republicanos).
Tereza Cristina, cujo partido vetou a aliança com o PL em âmbito nacional, o que impediu sua escolha como vice, afirmou que vai apoiar Flávio individualmente e endossou a escolha de Gaspar.
"Houve uma série de menções a meu nome, mas o convite só veio na semana passada. Eu me dispus, mas disse que dependia do apoio (nacional) do partido, que não decidiu apoiar. Pessoalmente, apoiarei Flávio", afirmou.
A escolha do nome foi uma surpresa até mesmo para aliados do senador, que esperavam que o escolhido fosse o senador e coordenador-geral de sua campanha, Rogério Marinho (PL-RN), após o fracasso da tentativa do PL de atrair partidos do Centrão à coligação de Flávio.
Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, disse que o nome foi mantido em sigilo até mesmo de aliados mais próximos, como os líderes do partido na Câmara, Sóstenes Cavalcanti (RJ), e no Senado, Carlos Portinho (RJ).
Valdemar disse que o nome de Gaspar surgiu como uma opção para vice há seis meses, quando ele ainda atuava na CPMI do INSS, embora aliados de Flávio digam, reservadamente, que o deputado não estava entre os cotados.
"Sempre foi um nome que eles falavam, eu disse ao Flávio 'pelo menos fala para o Alfredo', mas ele disse pra não falar nada, que não podia vazar. Não tem um vice melhor que o Alfredo Gaspar", disse Valdemar Costa Neto.
Com Gaspar como vice, a campanha de Flávio demonstra que vai explorar, durante o período eleitoral, o escândalo dos desvios no INSS.
Como relator da CMPI que investigava o caso, Gaspar pediu o indiciamento de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, ao apontar indícios de suposta participação do filho do presidente Lula no esquema. O relatório, que não foi aprovado pela comissão, apontava indícios de que Lulinha teria recebido repasses de Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, apontado como principal operador do esquema de desvios de benefícios de aposentados e pensionistas por meio de descontos associativos fraudulentos.
Durante seu discurso, Flávio Bolsonaro citou o ex-chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola, que admitiu ter recebido um empréstimo da empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha que também é investigada por ligações com o Careca do INSS.
"O Marcola do Lula está sendo acusado de receber dinheiro que provavelmente veio do desvio do INSS", afirmou. O ex-chefe de gabinete de Lula afirma que o repasse de Luchsinger se tratou de um empréstimo pessoal já quitado.
Gaspar tinha a pretensão de se eleger senador por Alagoas e as pesquisas mais recentes demonstravam que sua candidatura seria competitiva. Ele figurava em primeiro lugar em sondagens publicadas em julho, eventualmente empatado tecnicamente com o senador Renan Calheiros (MDB) e à frente do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP).