Kieran Gartlan: "“O Brasil é o lugar perfeito para agtech", diz sócio sócio do The Yield Lab Latam.
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 27 de fevereiro de 2026 às 06h00.
O The Yield Lab, plataforma global de investimento focada em agtechs, prepara o lançamento de um fundo exclusivo para startups do agronegócio brasileiro. O movimento marca um novo capítulo na estratégia da gestora na região, onde já opera com um fundo de US$ 50 milhões voltado à América Latina.
“Vamos anunciar um novo fundo só para o Brasil daqui a alguns meses”, afirmou Kieran Gartlan, sócio do The Yield Lab Latam, em entrevista exclusiva à EXAME. O executivo não revelou o tamanho da nova estrutura, mas indicou que ela terá foco em startups em estágio inicial.
A decisão de estruturar um fundo dedicado ao país está ancorada no potencial do ecossistema local. O Brasil reúne hoje cerca de 1.972 agtechs distribuídas ao longo da cadeia produtiva — antes, dentro e depois da fazenda — segundo o Radar Agtech Brasil 2025.
Para Gartlan, o país combina escala produtiva com gargalos estruturais que abrem espaço para ganhos relevantes de eficiência por meio da tecnologia.
“O Brasil é o lugar perfeito para agtech. Ele já é grande e muito ineficiente em alguns pontos. A tecnologia pode ajudar a melhorar muito em todas as partes da cadeia”, disse.
Com atuação nos Estados Unidos, América Latina, Europa e Ásia, o The Yield Lab construiu presença relevante na região nos últimos cinco anos.
Ao todo, foram 24 investimentos em sete países da América Latina e Caribe. Hoje, o Brasil concentra mais de 50% das startups apoiadas pelo fundo na região.
Entre as investidas estão a Um Grau e Meio, que utiliza inteligência artificial para identificar focos de incêndio em canaviais e florestas, e a Culttivo, fintech voltada ao crédito e serviços financeiros para cafeicultores.
O fundo latino-americano soma atualmente US$ 50 milhões e reúne investidores institucionais como BID, Nestlé e Bimbo. Com o novo fundo dedicado ao Brasil, a estratégia é ampliar a atuação no estágio early stage, com cheques menores e maior proximidade do empreendedor.
“A gente precisa de um fundo mais local para investir tickets menores e captar esse valor no início da startup, não esperar Série A ou Série B”, afirmou Gartlan.
A estrutura prevista inclui ainda um fundo maior para follow-ons — acompanhando as empresas nas rodadas seguintes — além da manutenção de um fundo regional para os demais países da América Latina.
Além do novo fundo, o The Yield Lab prepara um programa voltado à aceleração da adoção de inteligência artificial no agro.
A proposta é conectar grandes empresas do setor a startups com soluções já desenvolvidas, inclusive fora do Brasil. “A gente enxerga a IA não como tecnologia, mas como uma plataforma que vai transformar tudo”, disse Gartlan .
Ele compara a inteligência artificial a movimentos estruturais como eletrificação e industrialização.
No campo, a expectativa é de que a tecnologia reduza ineficiências na tomada de decisão, especialmente em um ambiente complexo como a agricultura tropical.
“Hoje tem muita decisão baseada em sentimento ou histórico. Com IA, você consegue processar variáveis como clima, solo e doenças de forma muito mais assertiva”, afirmou .
A estratégia inclui facilitar a entrada de startups estrangeiras interessadas no mercado brasileiro, conectando-as a pilotos e parceiros locais. “Tem muitas startups na Europa e nos Estados Unidos que adorariam vir para o Brasil, mas falta um piloto. A ideia é fazer esse matchmaking”, afirmou.