Carne bovina: Em 2025, o Brasil embarcou cerca de 3,1 milhões de toneladas de carne bovina in natura. (Freepik)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 15 de abril de 2026 às 10h58.
O setor de carne bovina vive um momento de forte demanda externa, mas enfrenta crescente pressão de custos — e isso deve afetar a margem dos frigoríficos e mexer até mesmo com os preços. A avaliação é de Fernando Iglesias, analista de pecuária da Safras & Mercados, consultoria de commodities agrícolas.
Para o analista, o movimento do boi gordo está atualmente centrado em uma questão que ele denomina de 'super demanda'. O boi gordo é uma referência usada no setor de commodities e se refere ao bovino macho, com idade geralmente até 42 meses, que atingiu o peso e o acabamento de carcaça ideais para o abate e comercialização, comumente pesando 16 arrobas ou mais.
“É um contexto em que tanto os exportadores brasileiros quanto os importadores chineses aceleraram as compras para preencher a maior parcela possível da cota. Esse cenário impulsionou fortemente as negociações, resultando em um desempenho extremamente favorável nas exportações”, afirma o analista.
E os dados reforçam essa perspectiva. Um relatório do BTG divulgado nesta terça-feira, 14, mostra que, na segunda semana de abril, os embarques brasileiros cresceram 30,7% na comparação mensal e 15% em relação ao mesmo período de 2025, alcançando 13,9 mil toneladas por dia.
O movimento foi acompanhado por uma valorização relevante dos preços, que cresceram 4,5% no mês e acumulam alta de 20,8% em 12 meses. As vendas externas de carne bovina somaram US$ 84,5 milhões no período, um salto de 36,6% frente a março e de 39% na comparação anual.
O desempenho reforça a leitura de que a demanda internacional segue aquecida, mesmo em um cenário de câmbio menos favorável. A valorização do real frente ao dólar, de cerca de 11,7% em 12 meses, tende a reduzir a competitividade das exportações, mas ainda não foi suficiente para frear o ritmo de crescimento.
Segundo Iglesias, a movimentação no setor ocorre justamente por causa das cotas de exportação de carne da China, anunciadas no fim de 2025. Em dezembro, o país asiático impôs tarifas adicionais de 55% sobre as importações de carne bovina de países como Brasil, Austrália e Estados Unidos, caso os embarques ultrapassem as cotas estabelecidas.
Segundo o Ministério do Comércio da China (MOFCOM), a cota total para 2026 será de 2,7 milhões de toneladas. O Brasil, principal fornecedor da proteína ao país asiático, ficou com a maior fatia: 41,1%, o equivalente a 1,1 milhão de toneladas.
No ano passado, a China manteve a liderança como principal destino da carne bovina brasileira, com 1,7 milhão de toneladas importadas e US$ 8,90 bilhões movimentados — altas de 25,5% em volume e 48,3% em valor na comparação com 2024.
O volume embarcado pelo Brasil em 2025 ficou cerca de 600 mil toneladas acima do teto atualmente permitido.
“A demanda se aqueceu, as exportações foram muito contundentes e os embarques atingiram níveis extremamente elevados nesse período. Esse movimento levou os frigoríficos a reduzirem ao máximo a capacidade ociosa, operando praticamente a pleno vapor para capturar o maior volume possível dentro da cota”, diz Iglesias.
Para ele, no entanto, o cenário deve mudar a partir de agora. “Muitos frigoríficos já anunciam férias coletivas e passam a operar com maior cautela na formação de preços, evitando compras mais agressivas e tentando conter avanços, tendo o fim da cota chinesa como um parâmetro relevante”, afirma.
Ainda que não tenham confirmado as paralisações em frigoríficos no Centro-Oeste, fontes do mercado afirmam que JBS e MBRF deram férias coletivas a unidades de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.
“O que se desenha para o mercado do boi gordo é um comportamento mais volátil, com a formação de picos elevados quando a China estiver ativa nas compras e vales mais profundos nos períodos de ausência”, diz o analista da Safras.
Apesar do cenário positivo para exportações, o relatório do BTG chama atenção para um ponto crítico: o avanço dos custos. “O preço do gado continua subindo e pressionando os spreads”, dizem os analistas.
Na prática, isso significa que a margem dos frigoríficos está sendo comprimida, mesmo com preços de venda mais altos.
Os dados indicam que os spreads — diferença entre preço de venda e custo — seguem em queda no curto prazo, refletindo o descompasso entre a alta do boi gordo e a capacidade de repasse ao mercado.
O mercado do boi gordo registrou uma alta expressiva ao longo de 2026, puxada principalmente pelo avanço nos preços do dianteiro bovino, enquanto os cortes nobres tiveram reajustes mais limitados.
No primeiro dia útil de janeiro, o boi gordo em São Paulo era negociado a R$ 318,42 por arroba, enquanto o traseiro bovino estava em R$ 25,40 e o dianteiro em R$ 17,85. Já em 14 de abril, os preços subiram para R$ 369,78 por arroba, no caso do boi, R$ 28 para o traseiro e R$ 23 para o dianteiro.
O movimento representa uma alta de 16% para o boi gordo, 10,24% para o traseiro bovino e expressivos 28,85% para o dianteiro, mostram dados da Safras & Mercados.
“O boi teve uma alta extremamente expressiva, assim como o dianteiro. Só para entender, o dianteiro bovino reúne cortes de menor valor agregado, como acém, paleta e peito, popularmente conhecidos como carne de segunda”, diz o analista.
“Já o traseiro bovino reúne os cortes nobres, como alcatra, picanha e filé mignon, que tiveram mais dificuldade de reajuste por já partirem de preços mais elevados", afirma.
Segundo ele, a tendência para os próximos meses é de maior pressão sobre os preços. “Quando a gente olha para o período de maio até outubro, devemos sentir um mercado mais pressionado, com maior disponibilidade de produto e, muito provavelmente, com preços mais baixos”, afirma.
O cenário, no entanto, segue cercado de incertezas, especialmente em função da política comercial da China. “O grande ponto é que as visões entre as casas têm variado bastante, porque existe muita incerteza causada pela imposição de cotas pela China. O término dessas cotas está gerando apreensão dentro do mercado brasileiro”, diz Iglesias.
A tendência, segundo o BTG, é de que o desempenho operacional das companhias continue dependente da evolução do preço do gado — hoje o principal limitador de expansão de margens.