(YARA/Divulgação)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 14 de abril de 2026 às 12h41.
O acordo de cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos trouxe um alívio pontual ao mercado global de fertilizantes nitrogenados, ao reduzir o risco imediato de novas rupturas na oferta.
Ainda assim, o cenário segue distante da normalidade, com baixo volume de negócios e cautela elevada entre os agentes, avalia a Stone X, consultoria de commodities.
“As tensões diminuíram no curto prazo, mas o mercado ainda opera com muita incerteza. A atividade segue limitada e os preços continuam firmes, justamente porque os problemas estruturais de oferta e logística não foram resolvidos", diz Tomás Pernías, analista da Stone X.
E esse sentimento já mostra reflexos no campo. Um estudo da Universidade de Purdue, nos Estados Unidos, divulgado na última sexta-feira, 10, mostra que o aumento dos preços dos fertilizantes e o risco de interrupção no fornecimento estão forçando produtores a rever planos em pleno início das decisões para a safra 2026/27, que começa em 1º de julho.
No caso do Irã, o país é um dos principais fornecedores globais de ureia, muito utilizado no plantio do milho. Desde o início do conflito, os preços da ureia acumulam alta de 61% no Brasil, o que tem gerado resistência dos compradores, mostra a StoneX.
Além disso, as relações de troca entre ureia e milho estão nos piores níveis dos últimos anos, reduzindo o poder de compra do produtor rural e dificultando o avanço das negociações.
E há um agravante estrutural: a dependência externa. O Brasil importa 85% dos insumos que utiliza. Na prática, isso significa que o produtor brasileiro está exposto tanto ao preço quanto ao risco físico de falta do produto.
Essa dependência se distribui entre diferentes nutrientes: o nitrogênio é importado principalmente na forma de ureia, com forte presença de Rússia e China; o fosfato depende de países como Marrocos e Rússia; e o potássio é fornecido por Canadá, Rússia e Bielorrússia.
Para o milho, o impacto imediato é menor porque a safra atual já foi plantada. Ainda assim, os preços da ureia e do fosfato também se aproximam de máximas históricas, o que pode influenciar as decisões para 2027.
Mesmo com a possibilidade de maior estabilidade caso as negociações avancem, a normalização do mercado no curto prazo é considerada improvável.
A fragilidade do processo diplomático e os custos elevados de seguro de guerra nas rotas pelo Estreito de Ormuz continuam pressionando o comércio internacional.
O impacto acontece justamente porque a região é responsável por escoar cerca de um terço dos fertilizantes transportados por via marítima, o que transforma qualquer instabilidade em choque imediato de preços e oferta.
“Qualquer frustração nesse processo pode trazer de volta a volatilidade de preços. O cessar-fogo ajuda, mas está longe de ser uma solução definitiva”, diz Pernías.
Segundo relatório da StoneX, do lado da oferta, os gargalos logísticos continuam sendo um fator crítico. A navegação no Estreito de Ormuz permanece praticamente paralisada, enquanto a produção iraniana foi afetada nos últimos dias.
No domingo, 13, além do Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que bloquearia o Estreito de Ormuz após as negociações de paz do fim de semana em Islamabad entre os EUA e o Irã não terem resultado em um acordo.
Mesmo em um cenário de retomada das rotas, a prioridade deve ser a liberação das cargas acumuladas, e não novos embarques. Com isso, diz Pernías, o represamento logístico deve prolongar os efeitos da crise no mercado global.
“Ainda que o fluxo de navegação pelo Estreito de Ormuz seja retomado, é esperado que o mercado global permaneça enfrentando dificuldades. O cessar-fogo reduz a tensão, mas não resolve os desequilíbrios estruturais no curto prazo”, afirma.
Se o choque já seria relevante por si só, o timing torna a situação ainda mais delicada. A compra de fertilizantes para a próxima safra do Brasil ocorre entre fevereiro e maio, justamente durante a escalada do conflito.
E os números mostram cautela no campo uma vez que apenas cerca de 30% do volume estimado havia sido adquirido, abaixo da média dos últimos anos.