Starbucks: “Estamos determinados a fortalecer a nossa marca sem sacrificar a experiência do cliente ou a percepção de valor, mesmo diante de pressões nos preços do café e nos custos globais”, disse Brian Niccol, CEO, em call com investidores. (Christopher Furlong/Getty Images)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 2 de fevereiro de 2026 às 13h39.
Última atualização em 2 de fevereiro de 2026 às 13h48.
Os preços do café e as tarifas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, devem ser os principais elementos de preocupação para os resultados da Starbucks em 2026.
Em meio à recuperação da demanda doméstica e à expansão internacional, os executivos da maior rede de cafeterias do mundo acreditam que o custo da matéria-prima segue como principal fator de pressão para as margens — e que há limites para repassar esse aumento aos consumidores.
“Estamos determinados a fortalecer a nossa marca sem sacrificar a experiência do cliente ou a percepção de valor, mesmo diante de pressões nos preços do café e nos custos globais”, disse Brian Niccol, CEO da companhia, em call com investidores.
A cautela da Starbucks vem na esteira de dois movimentos que marcaram a indústria global de café em 2025.
No ano passado, em razão da menor produção no Brasil e no Vietnã — dois dos principais produtores mundiais de café —, os preços médios da commodity saltaram 54,4% na comparação anual, passando de US$ 232,55 para US$ 359,11 por libra-peso, segundo dados da consultoria agrícola Datagro.
Além disso, as tarifas de Trump sobre o café brasileiro agravaram o cenário. O Brasil é o maior exportador do produto para os EUA e um dos principais mercados nos quais a Starbucks compra café.
Em função das tarifas, inclusive, os EUA caíram para a segunda posição como destino do café brasileiro em 2025. Os norte-americanos importaram 5,381 milhões de sacas em 2025, queda de 33,9% frente a 2024. Apesar de a tarifa ter sido revertida em novembro, a taxa sobre o café solúvel do Brasil permanece em vigor e deve elevar os custos de insumos para a Starbucks.
Para o ano fiscal de 2026, a Starbucks projeta um lucro ajustado por ação entre US$ 2,15 e US$ 2,40, além de estimar um crescimento mínimo de 3% nas vendas globais e nas lojas com desempenho comparável nos EUA.
A rede mantém uma política de preços cautelosa para evitar que o café — já pressionado por custos elevados — se torne um freio adicional ao consumo. Em um negócio altamente internacionalizado, qualquer aumento de tarifas tende a elevar custos e reduzir margens, especialmente em sua maior operação, nos EUA.
"Esse cenário acaba gerando desequilíbrios ao longo de toda a cadeia produtiva. A atividade segue altamente rentável para os produtores, enquanto os demais elos, especialmente a indústria, enfrentam forte pressão em função do encarecimento da matéria-prima", avalia Daniel Pinhata, analista de café da Datagro.
Para Cathy Smith, CFO da empresa, a percepção de valor do café será decisiva nos próximos anos. “Para nós, o preço será nossa última alavanca. Manter uma percepção de valor positiva entre nossos clientes é fundamental”, afirmou Smith.
Segundo ela, a Starbucks pretende priorizar eficiência operacional, controle de custos e inovações no cardápio antes de elevar os preços ao consumidor.
Mesmo com a posição cautelosa, o mercado enxerga ceticismo. As ações da Starbucks recuaram mais de 1% no pregão da última sexta-feira, 30, e acumulam queda de cerca de 12% em um ano.
No primeiro trimestre do ano fiscal de 2026, encerrado em 28 de dezembro de 2025, a Starbucks registrou lucro líquido de US$ 293,3 milhões, uma queda de 62,4% em relação ao mesmo período do ano fiscal anterior. O lucro por ação caiu de US$ 0,69 para US$ 0,26.
Em termos ajustados, o lucro por ação foi de US$ 0,56, abaixo da expectativa de US$ 0,58 estimada por analistas consultados pela FactSet. Já a receita líquida cresceu 5,3% na mesma base de comparação, alcançando US$ 9,9 bilhões — acima da projeção de US$ 9,7 bilhões.
Pela primeira vez em dois anos, o fluxo de clientes nas lojas aumentou, impulsionando uma alta de 4% nas vendas em mesmas lojas no trimestre. No mesmo período do ano anterior, essas vendas haviam recuado 4%.
Apesar do avanço na receita, os resultados ainda refletem os efeitos dos investimentos realizados para sustentar a recuperação da companhia.
A Starbucks ampliou contratações, reformou cafeterias e reforçou o atendimento ao cliente — medidas que pressionaram a lucratividade no curto prazo e contribuíram para o lucro abaixo das expectativas de Wall Street.
Ainda assim, a empresa acredita que o fortalecimento da marca e o aumento do consumo de café fora de casa devem sustentar uma retomada gradual ao longo do ano.
Segundo levantamento de dezembro do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o consumo de café no país deve atingir 26,550 milhões de sacas em 2026 — crescimento de 3,9% em relação à estimativa anterior, de junho.
A companhia também avalia a formação de uma joint venture com a Boyu Capital para administrar os negócios da rede na China — hoje o segundo maior mercado da companhia.
A conclusão do acordo está prevista para o segundo trimestre do ano fiscal de 2026, ainda sujeita à aprovação dos órgãos reguladores. Pela proposta, a Boyu terá uma participação de até 60% na nova empresa conjunta.
Embora a mudança leve a uma redução na receita internacional da Starbucks, a expectativa é que o novo modelo — com menor intensidade de ativos — contribua para o aumento da rentabilidade no longo prazo.
Em 2025, as margens internacionais da Starbucks ficaram em 13%. Com a formação da joint venture, a companhia projeta elevar esse índice para cerca de 20%.