Carne bovina: produção dos EUA deve cair 1% neste ano, projeta USDA (Freepik)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 23 de janeiro de 2026 às 06h01.
Última atualização em 23 de janeiro de 2026 às 06h12.
A combinação de menor oferta de gado, mudanças no comércio internacional e maior concorrência global deve intensificar a crise no setor de carne bovina nos Estados Unidos em 2026. A previsão é de que as exportações da proteína americana caiam 5,6% neste ano em relação a 2025, para 2,4 milhões de toneladas em equivalente carcaça (TEC).
Se confirmado, será o segundo ano consecutivo de queda e refletirá um cenário de restrição produtiva interna somado a um ambiente externo mais competitivo, estima o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), no relatório Perspectivas para Gado, Laticínios e Aves, assinado pelos analistas Russell Knight e Hannah Brooks.
Na projeção do USDA, a produção de carne bovina nos EUA deve cair 1% neste ano, para 11,7 milhões de toneladas. Em 2025, a produção da proteína americana recuou 4% em relação a 2024, para 11,8 milhões de toneladas, o que fez o país perder o posto para o Brasil como o maior produtor mundial de carne bovina.
A crise vivenciada pelos pecuaristas nos EUA tem se intensificado nos últimos cinco anos. A indústria da carne americana enfrenta uma fase de contração do ciclo pecuário, com redução do rebanho e menor disponibilidade de animais nos confinamentos.
Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte recuou para 27,9 milhões — queda de 13% — e o inventário total de bovinos está no menor patamar desde 1952, segundo o USDA.
Além da menor oferta de animais, a seca no oeste do país elevou custos com ração e reduziu pastagens, levando muitos pecuaristas a diminuir seus rebanhos ao vender parte do gado.
Nesse cenário a Tyson Foods, gigante americana do setor de processamento de carne, fechou uma se suas fábricas em Nebraska em razão de crise no abastecimento. Mesmo com sinais recentes de recomposição do rebanho, a recuperação leva tempo.
“Esse é um processo lento, pois leva de dois a três anos para criar um bezerro até o abate”, afirma Fernando Iglesias, analista de pecuária da Safras & Mercado.
Apesar da menor entrada de gado nos confinamentos em novembro de 2025 — uma queda de 11% em relação ao ano anterior —, o USDA identificou um dado que acende o alerta sobre o comportamento da oferta nos próximos meses.
Em 1º de dezembro, havia 11,727 milhões de bovinos confinados nos Estados Unidos, volume 2% menor que o registrado no mesmo período de 2024.
No entanto, “o número de animais que já ultrapassou 150 dias em confinamento cresceu 25% em um ano”, diz o relatório, sinal de que muitos bois prontos para o abate ainda não foram enviados aos frigoríficos.
O represamento tende a deslocar a oferta para o segundo semestre de 2026, quando esses animais terão de ser abatidos. O resultado deve ser um pico de abates concentrado num curto período, o que pode desorganizar o fluxo de produção e pressionar os preços no atacado, diz o USDA.
No ano passado, em razão da menor oferta e do tarifaço sobre a carne brasileira, os preços da proteína subiram nos Estados Unidos. A situação levou o presidente, Donald Trump, a elevar as importações de carne da Argentina em uma tentativa de conter a inflação.
A implementação das cotas de importação da China deve agravar o cenário para a indústria americana. Nos cálculos do USDA, “as novas políticas vêm limitando o espaço da carne americana”.
A China anunciou, no último dia de 2025, a imposição de tarifas adicionais de 55% sobre as importações de carne bovina de países como Brasil, Austrália e Estados Unidos, caso os embarques ultrapassem determinadas cotas.
A cota total para 2026 será de 2,7 milhões de toneladas. O Brasil, principal fornecedor da proteína ao país asiático, ficou com a maior fatia: 41,1%, ou 1,1 milhão de toneladas. Em seguida vêm a Argentina, com 19,0%, e o Uruguai, com 12,1%. Para a Austrália e os Estados Unidos, foram alocadas cotas de 205 mil e 164 mil toneladas, respectivamente.
“O impacto indireto do anúncio de salvaguardas da China deve redirecionar o excedente de carne para outros mercados, aumentando a concorrência para a carne bovina dos EUA”, afirmam Knight e Brooks.
Além da China, o México — um dos principais parceiros dos EUA — criou uma nova cota de 70 mil toneladas para países sem acordo, restringindo embarques de concorrentes dos EUA, como o Brasil.
Para o USDA, esse rearranjo global tende a deslocar mais carne de países como Brasil, Austrália e Argentina para mercados tradicionalmente atendidos pelos Estados Unidos, como Japão e Coreia do Sul — o Brasil não exporta carne bovina para esses países, mas está em negociação para uma possível abertura de mercado.
O resultado, segundo o USDA, é uma pressão negativa sobre as exportações americanas e maior oferta no mercado doméstico.
Enquanto exporta menos, os EUA devem importar mais. A projeção do USDA para 2026 é de 5,5 milhões de toneladas em importações, alta de 2,9% em relação a 2025. Parte desse movimento é explicada pela menor oferta da proteína e pela entrada mais competitiva de carne bovina de outros países.
“As mudanças na política comercial global estão redesenhando tanto as exportações quanto as importações de carne bovina dos Estados Unidos em um momento de oferta interna historicamente apertada”, afirmam Knight e Brooks.