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Trump mira carne da Argentina para baixar preço nos EUA

É a segunda vez, em menos de uma semana, que Trump sinaliza algo a respeito dos preços da carne bovina nos EUA

Carne bovina: o abate de bovinos aumentou 3,3% na comparação anual, enquanto o volume acumulado em 12 meses alcançou um recorde de 43,3 milhões de cabeças. (AAron Ontiveroz/MediaNews Group/The Denver Post/Getty Images)

Carne bovina: o abate de bovinos aumentou 3,3% na comparação anual, enquanto o volume acumulado em 12 meses alcançou um recorde de 43,3 milhões de cabeças. (AAron Ontiveroz/MediaNews Group/The Denver Post/Getty Images)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 20 de outubro de 2025 às 16h19.

Última atualização em 20 de outubro de 2025 às 17h11.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que pretende comprar carne bovina da Argentina para reduzir os preços da proteína no país. A declaração foi feita neste domingo, 19, a repórteres a bordo do Air Force One, durante um voo da Flórida para Washington.

"Compraríamos carne bovina da Argentina. Se fizermos isso, os preços da nossa carne cairão", disse o republicano.

Os EUA já importam carne da Argentina. De janeiro a agosto de 2025, foram adquiridas 25 mil toneladas, um aumento de 5,6% em relação ao mesmo período do ano passado.

Esta é a segunda vez em menos de uma semana que Trump sinaliza medidas para reduzir os preços da carne bovina.

Entre janeiro e julho, o preço da carne moída — um dos principais cortes para hambúrgueres — subiu 15,3%, atingindo US$ 6,34 a libra (cerca de R$ 75/kg). Nos últimos dois anos, os preços da carne moída aumentaram 23%, segundo o Bureau of Labor Statistics (BLS), e 80% do consumo desse corte nos EUA é destinado à produção de hambúrgueres.

O aumento dos preços da carne bovina nos EUA é resultado de fatores como clima, redução do rebanho e a tarifa de 50% imposta por Trump sobre produtos brasileiros, principal fornecedor de carne para os EUA.

Desde 2019, o número de gado de corte caiu para 27,9 milhões, redução de 13% — o nível mais baixo desde 1952, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA). O último levantamento do USDA estima uma produção de 25,9 bilhões de libras de carne bovina em 2025, 4% abaixo da previsão inicial.

A menor oferta de gado, aliada à seca que afetou o oeste do país, aumentou os custos para os pecuaristas, que precisaram adquirir mais ração e reduziram seus efetivos. Em maio, os EUA também suspenderam as importações de gado mexicano para evitar a disseminação da praga New World Screwworm (NWS), conhecida como "bicheira do Novo Mundo".

A sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros, incluindo carne bovina, fez com que os EUA caíssem para o quarto lugar como importador da carne brasileira em setembro, com 9,9 mil toneladas. No acumulado de janeiro a setembro, porém, o país segue como o segundo principal destino das exportações brasileiras, com 219 mil toneladas — 65% acima do registrado no mesmo período de 2024.

Mesmo com a sinalização de Trump para a Argentina, Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, afirma que o Brasil continua sendo o fornecedor mais competitivo. "Não há produtor rural mais competitivo do que o Brasil. Nosso custo de produção é menor e os preços são relativamente baixos", diz.

O preço do arroba do boi no Brasil está em média US$ 55, enquanto na Argentina e no Uruguai varia entre US$ 70 e US$ 80. Na União Europeia, o valor chega a US$ 130.

Agro dos EUA

Agricultores americanos reagiram de forma negativa à sinalização de Trump em relação à Argentina.

Para esses produtores, o presidente deveria priorizar medidas para apoiar o setor local, especialmente em um momento em que a venda de soja, milho e sorgo para a China está paralisada devido à guerra comercial com o país asiático.

"A frustração é avassaladora. Os preços da soja nos EUA estão caindo, a colheita está em andamento e os agricultores leem manchetes não sobre um acordo comercial com a China, mas sobre a concessão de US$ 20 bilhões em apoio econômico à Argentina", afirmou Caleb Ragland, presidente da Associação Americana de Soja, na semana passada.

Além dos produtores, deputados americanos também têm criticado a gestão de Trump em relação ao setor agropecuário.

Chuck Grassley, senador de Iowa — estado historicamente agrícola e que ajudou a eleger Trump — afirmou que os agricultores familiares devem ser a principal prioridade dos representantes dos EUA nas negociações com outros países.

"Por que os EUA ajudariam a socorrer a Argentina enquanto tomam o maior mercado dos produtores de soja americanos?", disse o parlamentar.

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