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IA: como a tecnologia vai chegar no El Niño
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 21 de julho de 2026 às 15h01.
Última atualização em 21 de julho de 2026 às 17h10.
O Rio de Janeiro tem dois radares meteorológicos e 164 sirenes. São Paulo monitora a capital a partir de dois centros de emergência diferentes.
Nas demais capitais, a camada mais visível de proteção é o alerta que chega pelo celular. É com essa infraestrutura desigual que o país enfrenta o El Niño 2026, confirmado em 30 de junho e com mais de 90% de chance de seguir ativo até o início de 2027.
O fenômeno tem alta probabilidade de ser classificado como muito forte, segundo o primeiro boletim do Painel El Niño 2026-2027. Na prática, isso significa seca no Norte e Nordeste e chuva acima da média no Sul.
O Rio de Janeiro foi a primeira cidade brasileira a ter um sistema de alerta, segundo Raquel Franco, meteorologista-chefe do Alerta Rio, órgão da prefeitura responsável pelas previsões.
Também foi pioneiro no primeiro radar meteorológico municipal do país, instalado em 2010 no Morro do Sumaré, na Zona Norte. O equipamento envia imagens a cada dois minutos, o que permite acompanhar localização, deslocamento e intensidade da chuva. Em 2024, um segundo radar entrou em operação no Morro do Mendanha, na Zona Oeste.
No mesmo ano do primeiro radar, a prefeitura criou o Centro de Operações e Resiliência (COR). Hoje a estrutura reúne 116 pluviômetros próprios, 16 estações meteorológicas, os dois radares e um sistema de raios, com meteorologistas monitorando núcleos de chuva 24 horas por dia.
A camada seguinte é sonora: 165 sirenes em 103 comunidades. O monitoramento de risco de deslizamento em tempo real é feito em parceria com a Nasa.
A prefeitura apresentou em 13 de julho seu plano de mobilização. Segundo a NOAA, agência americana de oceanos e atmosfera, há 81% de probabilidade de o fenômeno ser classificado como muito forte no trimestre de outubro a dezembro.
Dois motivos tornam a cidade sensível — o relevo, com montanhas próximas ao mar, favorece chuvas intensas; a concentração de áreas urbanizadas forma ilhas de calor. Cerca de 40% do território tem impacto alto de calor.
Só em 2026, a Defesa Civil fez 8.841 vistorias e mantém 225 pontos de apoio. A tecnologia Cell Broadcast, que envia alertas geolocalizados a celulares, foi acionada três vezes desde a implantação, em 2025.
Para o calor, a cidade criou em 2024 um protocolo com cinco níveis. A partir do nível 4 — índice entre 40°C e 44°C por ao menos três dias consecutivos —, abrem-se pontos de resfriamento em 270 locais e eventos podem ser suspensos.
Em São Paulo, a estrutura nasceu de um desastre. Em 1º de março de 1999, o túnel do Anhangabaú foi inundado e dezenas de carros ficaram submersos.
O episódio levou à criação do Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE) da prefeitura, inspirado em sistemas americanos de monitoramento de tornados.
Dois equipamentos sustentam o trabalho desde então — o radar meteorológico da barragem de Ponte Nova, em Salesópolis, e o radar do Cindacta I.
'Inteligência Ambiental': como a IA ajuda no combate às mudanças climáticasÉ o CGE municipal que decreta os estados de atenção e emergência para alagamentos na capital, com base em rede própria de estações e em banco de dados de precipitação que permite comparar o volume registrado com a média histórica de cada mês.
Em fevereiro de 2025, o governo estadual inaugurou um novo CGE da Defesa Civil e o Centro Paulista de Radares e Alertas Meteorológicos (Cepram), no Palácio dos Bandeirantes, com investimento de R$ 47 milhões.
A estrutura integra dados de sete radares, estações meteorológicas de secretarias estaduais e outros sensores em um único centro.
A camada final é comum a todas as capitais. Desde 2025, o país opera o Defesa Civil Alerta, que usa a tecnologia Cell Broadcast para enviar mensagens diretamente aos celulares de quem está em área de risco, substituindo o envio por SMS usado desde 2014.
O fluxo é padronizado: o centro de emergências local monitora e prevê o evento, os órgãos de defesa civil cadastram a ocorrência na Interface de Divulgação de Alertas Públicos (Idap), e o disparo sai pelo Cell Broadcast.
No nível "Alerta Extremo", o mais alto, a mensagem aciona vibração e som semelhante ao de uma sirene mesmo com o aparelho no silencioso, e congela a tela.
Os avisos funcionam em nowcast, o monitoramento de curtíssimo prazo. Costumam sair pouco antes da chuva justamente para ganhar precisão.
Em junho, a ferramenta mostrou sua fragilidade. Na madrugada do dia 20, cerca de 30 milhões de pessoas em oito estados e no Distrito Federal receberam um alerta falso, disparado após acesso indevido às credenciais de agentes da Defesa Civil do Pará.
Foram atingidos moradores de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Campo Grande, Rio Branco e Salvador.
Segundo Wolnei Wolff, secretário nacional de Proteção e Defesa Civil, foram emitidas dez notificações — nove pelo Cell Broadcast e uma por SMS.
O governo federal afirmou não haver evidências de danos estruturais e informou que o serviço foi reabilitado gradualmente, com reforço de segurança.
Toda essa cadeia depende de uma camada nacional. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) inaugurou o Jaci, supercomputador seis vezes mais potente que o antecessor, o Tupã, que passou a processar dados meteorológicos quatro vezes por dia, contra duas anteriormente.
"No Tupã, o processamento dos dados era feito duas vezes por dia. Agora são quatro vezes por dia", disse Ivan Barbosa, coordenador de infraestrutura de dados e supercomputação do Inpe, à Folha de S.Paulo.
Para José Antonio Aravéquia, coordenador-geral de Ciências da Terra do instituto, o ganho está na variedade de simulações. "Com isso, conseguimos apontar a possibilidade de algum cenário extremo", afirmou.
O que é alerta extremo da Defesa Civil? Veja quando avisos aparecem no celularNo caso específico do El Niño, o dado primário vem de boias instaladas na linha do Equador, no Pacífico, sob responsabilidade da agência americana NOAA. No Brasil, o monitoramento fica a cargo do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), do Inpe.
Nenhum radar resolve o problema seguinte. Segundo análise publicada no Jornal da Unesp, o país avançou de forma consistente em monitoramento hidrometeorológico e sistemas de alerta — hoje é possível acompanhar secas e enchentes com detalhe muito superior ao de vinte ou trinta anos atrás.
Mas conhecimento científico, sozinho, não reduz risco: a expansão urbana seguiu ocorrendo em áreas suscetíveis a enchentes e deslizamentos.
O diagnóstico ecoa o que a pesquisadora Dora Kaufman, da PUC-SP, apontou à EXAME no ano passado sobre o uso de inteligência artificial (IA) no clima — o desafio não está na falta de inovação, mas na ausência de políticas públicas capazes de transformar as soluções em ação.
"Precisamos de políticas, e não apenas de experiências isoladas, geralmente lideradas pelo setor privado. As soluções existem, mas falta vontade governamental para integrá-las", disse.