EXAME Agro

El Niño chega ao pãozinho: fenômeno pode derrubar produção de trigo em 20%

Rentabilidade apertada, menor área plantada e risco climático elevam as preocupações para a safra 2026/27, diz Itaú BBA

Colheita de trigo no Brasil: A Conab estima redução de 13,4% na área plantada e queda de 7,6% na produtividade, segundo o Itaú BBA. (Andre Borges/EFE)

Colheita de trigo no Brasil: A Conab estima redução de 13,4% na área plantada e queda de 7,6% na produtividade, segundo o Itaú BBA. (Andre Borges/EFE)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 17 de junho de 2026 às 06h00.

A safra brasileira de trigo 2026/27 começou sob um cenário de atenção redobrada. Além da rentabilidade pressionada enfrentada pelos produtores, a confirmação de um El Niño forte pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) adiciona um novo fator de risco para a cultura, especialmente sobre a qualidade dos grãos na reta final do ciclo.

A produção nacional deve recuar cerca de 20% em relação à temporada anterior, refletindo uma combinação de menor área plantada e produtividade mais baixa. A projeção é de uma colheita de 6,2 milhões de toneladas, segundo estimativa do Itaú BBA.

O plantio já alcança 45,3% da área prevista no país, segundo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Até o momento, as condições são consideradas favoráveis, principalmente no Sul, principal região produtora, beneficiada pelas chuvas recentes.

No entanto, a rentabilidade reduzida tem levado produtores a diminuir investimentos e a reduzir a área destinada ao cereal. “A Conab estima redução de 13,4% na área plantada e queda de 7,6% na produtividade, o que deve resultar em uma produção 20% menor nesta safra”, afirma o banco.

Na semana passada, a NOAA confirmou a formação do El Niño para este ano, com 63% de probabilidade de um evento muito forte entre novembro e janeiro.

O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, alterando padrões de vento e a circulação atmosférica. No Brasil, seus efeitos variam segundo a região e a cultura agrícola.

Se, por um lado, o fenômeno pode favorecer a disponibilidade de água no início do ciclo, especialmente no Sul, por outro aumenta a preocupação com o excesso de chuvas durante o desenvolvimento da cultura.

Para o Itaú BBA, o principal risco está concentrado na fase final da safra. “O excesso de chuvas ao longo do ciclo eleva o risco de doenças e pode comprometer a qualidade do grão na fase final”, diz o relatório.

O fenômeno climático chega em um momento em que o mercado já enfrenta uma oferta mais ajustada. A combinação entre menor produção doméstica e dependência crescente das importações tende a sustentar os preços ao longo da entressafra.

Preço do trigo

Apesar da expectativa de um mercado global ainda abastecido, o Itaú BBA não vê espaço para quedas expressivas nos preços internos. Isso porque o Brasil continuará dependente das importações, principalmente da Argentina, principal fornecedora do cereal.

“A expectativa é de preços mais firmes nesta entressafra, com o Brasil elevando sua dependência de importação e sustentando a paridade como referência de preço”, afirma o banco.

Nesse cenário, o comportamento do câmbio e a competitividade do trigo argentino devem ser os principais fatores de formação de preços no mercado brasileiro nos próximos meses.

Acompanhe tudo sobre:El NiñoTrigoSafra 2025/2026Preço dos alimentos

Mais de EXAME Agro

Governo deve substituir PL das dívidas rurais por MP, diz deputado

Brasil endurece regras para uso de antimicrobianos na pecuária para mercados mais exigentes

Na Câmara e nos EUA: por que esta semana deve ser decisiva para o agro

A queda de braço no setor de leite: por que os preços não devem cair tão cedo