Acordo UE-Mercosul: tratado integrará dois dos maiores blocos econômicos do mundo, reunindo cerca de 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) conjunto de mais de US$ 22 trilhões (Ricardo Stuckert/PR/Flickr)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 17 de janeiro de 2026 às 07h01.
O acordo da União Europeia com o Mercosul, assinado neste sábado, 17, deve gerar um ganho anual de até US$ 3,8 bilhões (R$ 20 bilhões) para o Brasil nas exportações para a UE, após 10 anos de implementação do tratado. A projeção é de um estudo do Insper Agro.
Segundo a pesquisa, o aumento decorre principalmente de cotas tarifárias (TRQs) para produtos agrícolas, mecanismo que impõe um limite de volume para entrada com tarifa reduzida.
Produtos como carne bovina, açúcar, etanol e arroz estão entre os mais beneficiados, mas a TRQ “limita a expansão para além do volume pré-definido”, diz o estudo.
Em 2025, a União Europeia foi o terceiro maior destino da carne bovina brasileira. No período, o bloco importou 129 mil toneladas, movimentando US$ 1,06 bilhão — um crescimento de 56,6% em volume e de 75,5% em receita.
No caso da proteína, o tratado estabelece uma cota adicional de 99 mil toneladas por ano para o Mercosul, além das 200 mil toneladas já exportadas atualmente para o bloco europeu. Do novo volume, 42,5% (ou 42.075 toneladas) caberão ao Brasil.
A implementação das cotas será gradual, ao longo de cinco anos. O volume adicional equivale a cerca de 1,2% do consumo anual de carne bovina na União Europeia, estimado em 8 milhões de toneladas.
"Os benefícios mais expressivos não virão da eliminação direta de tarifas, mas do uso estratégico das cotas comerciais estabelecidas no tratado", afirmam os autores Cinthia Cabral da Costa e Leandro Gilio.
Segundo o governo brasileiro, o tratado integrará dois dos maiores blocos econômicos do mundo, reunindo cerca de 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) conjunto de mais de US$ 22 trilhões.
Embora o acordo envolva diferentes setores da economia, o agronegócio foi o ponto mais sensível ao longo das negociações, especialmente nos últimos dias, com protestos de agricultores em diversas cidades europeias contrários à medida.
Hoje, os produtos agrícolas representam cerca de 40% das exportações brasileiras para a UE. No entanto, aproximadamente 77% desse volume já ingressa com tarifa zero.
O potencial de crescimento via redução tarifária direta é limitado a apenas 14% do total, concentrando-se em itens com alta proteção tarifária.
Já os produtos com barreiras mais significativas — como carnes, açúcar e etanol — só poderão expandir suas vendas com o uso das cotas tarifárias negociadas, uma vez que não houve eliminação total das tarifas para esses segmentos.
“A escalada tarifária, que impõe tarifas mais altas a produtos processados do que às matérias-primas, será gradualmente eliminada em até 10 anos para itens como café e soja”, diz a pesquisa.
O acordo, apesar de limitado em algumas áreas, deve favorecer principalmente o agronegócio brasileiro com foco estratégico nas cotas comerciais.
O impacto estimado nas importações brasileiras de produtos da União Europeia varia entre US$ 5 bilhões e US$ 9 bilhões ao ano. O crescimento, diz a pesquisa, será impulsionado principalmente por produtos industriais e insumos agrícolas.
Estimativas da Comissão Europeia indicam que as exportações agroalimentares do bloco para os países sul-americanos devem crescer 50% com o acordo, impulsionadas pela redução de tarifas sobre produtos como vinhos e bebidas alcoólicas (até 35%), chocolate (20%) e azeite (10%).
O estudo mostra que o Brasil adotou uma postura mais cautelosa e protecionista no processo de liberalização. Algumas tarifas serão eliminadas em até 15 anos, com exceções no setor de veículos, onde o prazo se estende até 30 anos — e com previsão de salvaguardas.
No setor agrícola, 87% do valor atualmente importado da UE terá tarifa zero ao final do cronograma de implementação. Produtos como iogurtes, chocolates, trigo e vinho, entretanto, continuarão enfrentando barreiras, mesmo após o acordo.
"A proposta brasileira prioriza a proteção de setores estratégicos e sensíveis ao impacto da abertura comercial", diz.
Apesar de o acordo representar ganhos para ambos os lados, os impactos estimados apontam que a UE tende a se beneficiar mais no curto prazo, com acesso mais amplo ao mercado brasileiro.
O estudo considera, porém, que isso pode ser revertido ao longo do tempo, com oportunidades estratégicas para o Brasil no agronegócio e na exportação de produtos com maior valor agregado.