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A praga que avança na China e ameaça 100 milhões de bois

Transmissão da doença ocorre por meio da ingestão de alimentos que contêm o vírus e pode ser transmitida pelo vento em um raio de até 60 km

Exportação de carne: No acumulado entre janeiro e abril de 2026, o Brasil exportou 1,091 milhão de toneladas de carne bovina, crescimento de 14,6% em relação ao mesmo período de 2025. A UE ocupa o quinto lugar entre os compradores brasileiros deste ano (Freepik)

Exportação de carne: No acumulado entre janeiro e abril de 2026, o Brasil exportou 1,091 milhão de toneladas de carne bovina, crescimento de 14,6% em relação ao mesmo período de 2025. A UE ocupa o quinto lugar entre os compradores brasileiros deste ano (Freepik)

César H. S. Rezende
César H. S. Rezende

Repórter de agro e macroeconomia

Publicado em 16 de abril de 2026 às 16h25.

A doença da febre aftosa tem se espalhado pela China e, segundo dados oficiais do país, foram registrados casos em 12 das 23 províncias do país asiático.

A China possui atualmente um rebanho bovino de cerca de 100,4 milhões de animais. Juntas, as 12 províncias respondem por aproximadamente 52% da amostra nacional, com destaque para Mongólia Interior e Xinjiang, que juntas concentram quase 18% do rebanho chinês.

Segundo a mídia local, os casos de febre aftosa registrados são do tipo SAT1 (tipo 1 sul-africano), o qual possui uma taxa de mortalidade de até 50% em bezerros e ainda não conta com uma vacina eficiente — as vacinas contra a doença amplamente utilizadas na China visam sobretudo os sorotipos tradicionais, como O e A.

A febre aftosa é causada por um vírus de RNA, pertencente à família Picornaviridae, gênero Aphtovirus. Possui sete tipos imunologicamente distintos (A, O, C, SAT 1, 2, 3 e Ásia 1), dentre os quais foram identificados pelo menos 60 subtipos.

A vacinação contra um subtipo pode não proteger contra outro. O vírus é resistente a influências externas, incluindo desinfetantes comuns, e às práticas usuais de armazenamento de carne.

A transmissão ocorre por meio da ingestão de alimentos que contêm o vírus. Entretanto, a doença também pode ser transmitida pelo vento em um raio de até 60 km. Os hospedeiros do vírus incluem bovinos, búfalos, ovinos, caprinos, suínos, ruminantes e suídeos selvagens, além de camelos, dromedários e lhamas, mostra um estudo da Embrapa.

No final de março, o Ministério da Agricultura da China confirmou dois surtos da doença: um no condado de Yining, em Xinjiang, e outro no condado de Gulang, em Gansu. Na ocasião, 6.229 cabeças de gado foram abatidas e, desde então, Pequim reforçou o controle nas fronteiras para a entrada e saída de animais.

Os surtos ocorrem no mesmo momento em que a Rússia também enfrenta um avanço da doença na região siberiana de Novosibirsk, que faz fronteira com o Cazaquistão e pode ser o foco inicial da disseminação.

De acordo com a NTD Television, entre as 12 províncias que já detectaram casos estão: Xinjiang, Gansu, Mongólia Interior, Liaoning, Jilin, Heilongjiang, Shandong, Shanxi, Ningxia, Hebei, Guizhou e Anhui.

Exportação de carne

Diante desse cenário, a China tem ampliado suas compras de carne do Brasil. No primeiro trimestre deste ano, as exportações brasileiras para o país asiático cresceram 42% em relação ao mesmo período de 2025, somando 353 mil toneladas, segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).

A receita alcançou US$ 1,84 bilhão (+42,5%), respondendo por mais de 40% das vendas externas brasileiras.

Com isso, o preço do boi gordo tem disparado no país, puxado principalmente pelo avanço nos preços do dianteiro bovino, enquanto os cortes nobres registraram reajustes mais limitados.

No primeiro dia útil de janeiro, o boi gordo em São Paulo era negociado a R$ 318,42 por arroba, enquanto o traseiro bovino estava em R$ 25,40 e o dianteiro em R$ 17,85. Já em 14 de abril, os preços subiram para R$ 369,78 por arroba, no caso do boi, R$ 28 para o traseiro e R$ 23 para o dianteiro.

O movimento representa uma alta de 16% para o boi gordo, 10,24% para o traseiro bovino e expressivos 28,85% para o dianteiro, mostram dados da Safras & Mercados.

A movimentação no setor ocorre justamente por causa das cotas de exportação de carne da China, anunciadas no fim de 2025. Em dezembro, o país asiático impôs tarifas adicionais de 55% sobre as importações de carne bovina de países como Brasil, Austrália e Estados Unidos, caso os embarques ultrapassem as cotas estabelecidas.

Segundo o Ministério do Comércio da China (MOFCOM), a cota total para 2026 será de 2,7 milhões de toneladas. O Brasil, principal fornecedor da proteína ao país asiático, ficou com a maior fatia: 41,1%, o equivalente a 1,1 milhão de toneladas.

No ano passado, a China manteve a liderança como principal destino da carne bovina brasileira, com 1,7 milhão de toneladas importadas e US$ 8,90 bilhões movimentados — altas de 25,5% em volume e 48,3% em valor na comparação com 2024.

O volume embarcado pelo Brasil em 2025 ficou cerca de 600 mil toneladas acima do teto atualmente permitido.

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