Animais Testes (Getty Images/Getty Images)
Da Redação
Publicado em 24 de abril de 2015 às 13h54.
Última atualização em 5 de abril de 2017 às 11h44.
De passagem pelo Brasil, onde participou do 3º Congresso Brasileiro de Bioética e Bem-Estar Animal, o neurocientista canadense Philip Low expõe um paradoxo cruel: do ponto de vista científico, sabemos que os cérebros de mamíferos possuem oscilações complexas, como dos humanos. Temos a prova de que eles são conscientes. Apesar disso, tratamos esses animais como objetos utilizados em testes de laboratório ineficazes que podem, na opinião de Low, ser substituídos por técnicas mais avançadas.
Além dos estudos com animais, uma das abordagens propostas pelo canadense é a de entender melhor o funcionamento do cérebro humano, e tratar doenças antes de os sintomas se manifestarem, quando ainda aparecem apenas como rotinas cerebrais problemáticas.
A empresa que fundou e atua como CEO, a NeuroVigil, tem Elon Musk entre os investidores e oferece essa solução para grandes laboratórios farmacêuticos, e até para Nasa, que planeja monitorar o cérebro de astronautas da Estação Espacial Internacional.
Low foi ainda responsável pelo desenvolvimento da interface cerebral que ajuda o renomado físico Stephen Hawking a se comunicar.
Confira a seguir a entrevista exclusiva que ele concedeu a INFO:
O texto foi editado por motivos de concisão e clareza.
Você esteve envolvido com pesquisa animal e agora explora o cérebro humano. O que conecta esses campos de pesquisa?
O iBrain. Ele é o menor monitor de ondas cerebrais do mundo. Temos 3 versões. A primeira, de 2009, está sendo utilizada pelas grandes empresas farmacêuticas. Temos a segunda, que foi desenvolvida para o Stephen Hawking. A terceira, ainda em protótipo, pode ser utilizada pela Nasa para monitorar astronautas em tempo real na Estação Espacial Internacional.
Qual o grande avanço desse dispositivo?
É a Matemática. Em minha tese eu desenvolvi um algoritmo capaz de ler e interpretar ondas cerebrais de forma muito sensível. Não é preciso que a pessoa vá até o hospital para que consigamos coletar toneladas de dados. Na eletroencefalografia, se você quiser dados de qualidade, enfrenta o problema de que o escalpo da cabeça suprime muitas frequências cerebrais. Meu algoritmo resolve esse problema trazendo essas frequências de volta ao espectro.
Como o iBrain e seu algoritmo funcionam no estudo da consciência animal?
Quando apliquei essa matemática aos animais, percebi que nós os tratamos de forma primitiva. Eles têm oscilações cerebrais muito avançadas, e eu não sou o único a dizer isso. Sou um viciado em dados. Não uso o julgamento de ninguém para me dizer o que é real ou não. Eu olho para os dados.
Você acha que essa abordagem mais técnica pode mudar a opinião das pessoas sobre o uso de animais em testes de laboratório?
Essa é uma pergunta complicada. Sei que houve a questão do Instituto Royal aqui no ano passado, e acho que é muito importante que se discuta isso. Mas, por outro lado, é importante que as pessoas não se acusem. Os ativistas costumam achar que cientistas são malignos, e os cientistas acham que os ativistas são estúpidos. E isso não é produtivo para ninguém. Nem para os animais nem para os humanos.
Eu vejo a questão da seguinte forma: se os cientistas usam financiamento público, como qualquer companhia, os investidores têm o direito de saber o que está acontecendo, como o dinheiro está sendo usado. Nesse caso, todos os cidadãos são investidores, afinal, o dinheiro é público. Então minha mensagem é: não ataque os cientistas, eles querem ajudar a sociedade. Se você não gosta do que eles fazem, não os pague para fazer isso. É necessário que os políticos respondam ao público e que haja leis que evitem que esse dinheiro seja usado em desacordo com sua opinião.
Também há o aspecto econômico das pesquisas com animais. Se eu chegasse e dissesse: Olá, tenho uma companhia que mata milhares de animais todo ano, gasto 40 bilhões de dólares nisso, e a chance de testar em humanos é menor que 6%. Você investiria? Não. Mas é isso o que estamos fazendo como sociedade.
Qual seria a alternativa a isso?
Eu prefiro trabalhar analisando o cérebro humano, buscando sintomas antes de eles se manifestarem, poupando os animais e todo o dinheiro gasto com isso. O cérebro tem muitos mecanismos redundantes. Antes do aparecimento de um sintoma, esses sistemas falharam em algum momento. Quando há um sintoma, o dano já é enorme. Então temos duas opções: recriar esses danos em animais e tentar curá-los. Ou podemos interagir antes com o cérebro, usar baixas dosagens e efeito colateral mínimo para os testes.
No caso da esquizofrenia, por exemplo, podemos usar o sono como um mapa dinâmico. Há uma fase do sono em que os esquizofrênicos apresentam falta de um tipo de atividade cerebral. Nós trabalhamos com a Marinha americana nesse campo. Quando soldados voltam do Iraque e do Afeganistão, olhamos para esses marcadores. Se encontramos essa ausência, a pessoa pode estar em risco. Então eu prefiro começar a estudar a pessoa imediatamente, em vez de esperar que ela tenha um ataque. É uma abordagem mais pró-ativa.
Além de problemas psíquicos, podemos usar essa abordagem contra doenças infecciosas?
Não posso dizer com certezas. Mas o sistema imunológico pode ser mal regulado se você estiver muito estressado, por exemplo. Você passa dias de estresse e pega uma gripe em seguida. Isso acontece porque você suprimiu seu sistema imunológico. Seus padrões mudaram. Claro, pode haver muitas razões para isso. Mas o ponto é dar às pessoas um modelo probabilístico. Se você souber que tem uma chance de 70% de ter um ataque epiléptico nos próximos 15 minutos, pode tomar um remédio e evitá-lo a tempo. É como um sistema de alarme. Seria mais eficiente. Temos que decidir se queremos, como sociedade, aceitar que estamos machucando outras espécies, e esperando até as pessoas estarem quebradas. Ou investir em outra abordagem, que pode começar devagar, mas que depois trará um retorno no investimento.
Você é a favor de que as pessoas acompanhem os resultados de suas análises cerebrais?
Nos Estados Unidos há esse grande movimento do eu quantificado, e todos querem seus próprios dados. Mas eu não concordo com isso. O que acontece quando alguém sem o conhecimento necessário vê que possui propensão ao Alzheimer? A pessoa pode querer pular pela janela! É preciso cautela. Quero trabalhar de uma forma que as pessoas tenham os seus dados, mas que a análise seja feita de uma forma mais sofisticada.
Como você conheceu Stephen Hawking?
Estava num congresso em Nova York em 2010. Fui convidado e me encontrar com ele e, para minha surpresa, havia apenas cinco pessoas. Fomos ao museu Metropolitan e então sua filha se aproximou e disse ei pai, você conheceu o Philip? Ele é o único cara que tem uma tese de pHD mais curta que a sua. Ele ficou interessado, me fez um monte de perguntas e me convidou para um almoço. Eu lia os livros dele quando adolescente e lá estávamos, só o Stephen e eu, falando sobre as coisas. Foi ótimo.
Como começou o trabalho em sua interface cerebral?
Um ano depois, eu ia dar uma palestra em Londres e vi uma mensagem de Stephen pedindo que eu fosse visitá-lo. Era um dia chuvoso e fui vê-lo. Não sabia o que ele queria. Quando cheguei, estávamos na cozinha e ele tentava dizer algo, por meia-hora, e não saía. Então a família dele me disse: "temos medo que a ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica) seja forte ao ponto de nós o perdermos". Foi muito triste. Eles me perguntaram se eu podia ajudá-lo. Falei que não sabia, mas que poderia tentar. Mas para isso haveria três condições: 1) Que o estudo fosse um teste clínico para todos que têm ELA, e não apenas para Stephen. 2) Eu precisaria de comunicação direta já que caras famosos sempre têm pessoas em volta bloqueando seu acesso. 3) Ele teria que me dar seu feedback direto e fosse conselheiro no projeto.
Começamos os testes imediatamente, pedindo que ele imaginasse o movimento de seus membros para tentar captar os sinais cerebrais. Quando enviei as informações para os Estados Unidos e rodamos meu algoritmo, enxergamos algo. Em maio de 2013, ele soletrou sua primeira palavra comunicar. Depois, comida. É uma grande honra trabalhar com esses indivíduos. Não apenas com Hawking, mas a comunidade de ELA. Quando você vê como é difícil para eles, isso faz todos nossos problemas parecerem pequenos.