O sucesso limitado do aplicativo da Apple e Google contra o coronavírus

Baseado em software da Apple e do Google, o aplicativo para smartphone do estado usa sinais Bluetooth para detectar usuários que têm contato próximo

Sarah Cavey, corretora de imóveis em Denver, ficou animada no fim do ano passado quando o estado do Colorado introduziu um aplicativo para alertar as pessoas sobre possíveis exposições ao coronavírus. Baseado em software da Apple e do Google, o aplicativo para smartphone do estado usa sinais Bluetooth para detectar usuários que têm contato próximo. Se um deles contrair o vírus, poderá notificar anonimamente outros usuários do aplicativo com os quais tenha cruzado em restaurantes, trens ou outros lugares.

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Cavey decidiu baixar o programa, chamado CO Exposure Notifications, mas disse que, depois que pegou o coronavírus em fevereiro, não conseguiu obter do estado o código de verificação especial necessário para avisar os outros, mesmo depois de ter ligado três vezes para o departamento de saúde do Colorado. "Anunciam o aplicativo para fazer as pessoas se sentirem bem, mas ele de fato não faz nada", comentou Cavey, acrescentando que desde então o havia excluído, frustrada.

O Departamento de Saúde do Colorado afirmou que melhorou o processo e que agora emite automaticamente os códigos de verificação para cada pessoa no estado que apresenta resultado positivo.

Quando a Apple e o Google anunciaram no ano passado que estavam trabalhando juntos para criar um sistema baseado em smartphones para ajudar a conter o vírus, sua colaboração parecia ser um divisor de águas. Os rastreadores de contato estavam tendo muita dificuldade para acompanhar os inúmeros casos do vírus, e as empresas rivais de trilhões de dólares – cujos sistemas rodam em 99 por cento dos smartphones do mundo – tinham o potencial de alertar rápida e automaticamente muito mais pessoas.

Logo, a Áustria, a Suíça e outras nações introduziram aplicativos de vírus baseados no software Apple/Google, assim como cerca de duas dúzias de estados americanos, incluindo o Alabama e a Virgínia. Até o momento, os aplicativos foram baixados mais de 90 milhões de vezes, de acordo com uma análise da Sensor Tower, empresa de pesquisa de aplicativos.

Mas alguns pesquisadores dizem que as escolhas de produtos e políticas das empresas limitaram a utilidade do sistema, levantando questões sobre o poder da Big Tech de estabelecer padrões globais para as ferramentas de saúde pública.

Cientistas da computação relataram problemas de precisão com a tecnologia Bluetooth usada para detectar a proximidade entre smartphones. Alguns usuários reclamaram de falhas nas notificações. E há pouca pesquisa rigorosa até o momento para descobrir se o potencial dos aplicativos para alertar as pessoas com precisão sobre exposições ao vírus supera possíveis desvantagens – como falsos alertas àquelas não expostas, testagem em excesso ou não detecção de usuários expostos ao vírus.

"Ainda é uma questão em aberto se esses aplicativos estão ou não ajudando no rastreamento de contato real, se são simplesmente uma distração ou se podem até causar problemas", escreveram Stephen Farrell e Doug Leith, pesquisadores de ciência da computação do Trinity College, em Dublin, em um relatório em abril sobre o aplicativo de alerta de vírus na Irlanda.

Nos Estados Unidos, algumas autoridades de saúde pública e pesquisadores apontaram que os aplicativos haviam demonstrado benefícios modestos, mas importantes. No Colorado, mais de 28 mil pessoas usaram a tecnologia para notificar seus contatos de possíveis exposições ao vírus. Na Califórnia, que introduziu um aplicativo de rastreamento chamado CA Notify em dezembro, cerca de 65 mil pessoas usaram o sistema para alertar outros usuários do aplicativo, segundo o estado. "A tecnologia de notificação de exposição mostrou sucesso. Se salvarmos vidas, isso é um grande negócio, independentemente de serem centenas, dezenas ou um punhado delas", disse o dr. Christopher Longhurst, diretor de informações da UC San Diego Health, que gerencia o aplicativo da Califórnia.

Em uma declaração conjunta, a Apple e o Google declararam: "Estamos orgulhosos de colaborar com as autoridades de saúde pública e fornecer um recurso – adotado por muitos milhões de pessoas em todo o mundo – que ajudou a proteger a população."

Baseado em parte em ideias desenvolvidas em Singapura e por acadêmicos, o sistema da Apple e do Google incorporou proteções de privacidade que deram às agências de saúde uma alternativa a aplicativos mais invasivos. Ao contrário dos aplicativos de rastreamento de vírus que monitoram continuamente o paradeiro dos usuários, o software da Apple e do Google conta com sinais Bluetooth, que podem estimar a distância entre os smartphones sem precisar saber a localização das pessoas. Além disso, usa códigos de identificação rotativos – não nomes reais – para registrar os usuários que entram em contato próximo por 15 minutos ou mais.

Algumas agências de saúde previram no ano passado que a tecnologia seria capaz de notificar as exposições ao vírus mais rapidamente do que os rastreadores de contato humano. Outras afirmaram esperar que os aplicativos pudessem alertar os passageiros que se sentavam ao lado de um estranho infectado em um ônibus, trem ou avião – pessoas em risco que os indivíduos rastreadores de contato normalmente não conseguiriam identificar.

"Todos que usam o aplicativo estão ajudando a manter o vírus sob controle", disse a chanceler Angela Merkel da Alemanha no ano passado em um vídeo que promovia o sistema de alerta do país, chamado Corona-Warn-App.

Contudo, os aplicativos nunca foram testados em larga escala, algo normalmente feito antes que os governos introduzam intervenções em saúde pública, como vacinas. E os recursos de privacidade do software – que impedem as agências governamentais de identificar usuários de aplicativos – tornaram difícil para os pesquisadores determinar se as notificações ajudaram a brecar a transmissão do vírus, segundo Michael T. Osterholm, diretor do Centro de Pesquisa e Política de Doenças Infecciosas da Universidade de Minnesota. "Os aplicativos não desempenharam praticamente nenhum papel em nossa capacidade de investigar os surtos que ocorreram aqui."

Algumas limitações surgiram antes mesmo do lançamento dos aplicativos. Por um lado, observam alguns pesquisadores, o software de notificação de exposição exclui inerentemente certas populações vulneráveis, como os idosos que não têm smartphone. Além disso, podem enviar alarmes falsos, porque o sistema não está configurado para incorporar fatores de mitigação, como o fato de os usuários estarem vacinados, usando máscara ou sentados em espaços ao ar livre.

A detecção de proximidade em aplicativos de alerta de vírus também pode ser inconsistente. No ano passado, um estudo sobre o sistema do Google para celulares Android realizado em um bonde em Dublin relatou que as paredes, o piso e o teto metálicos distorciam a força do sinal Bluetooth a tal ponto que a chance de detecção precisa de proximidade seria como enviar notificações a uma seleção aleatória de passageiros.

Tais falhas irritaram os primeiros usuários como Kimbley Craig, prefeita de Salinas, na Califórnia. Ela contou que, em dezembro passado, quando as taxas de infecção estavam subindo, baixou o aplicativo de notificação de exposição do estado em seu telefone Android e logo depois contraiu a Covid-19. Mas disse que, depois de ter digitado o código de verificação, o sistema falhou em enviar um alerta para seu parceiro, com quem ela mora e que também havia baixado o aplicativo. "Se não detecta uma pessoa na mesma casa, não sei o que dizer", comentou Craig.

Em um comunicado, Steph Hannon, diretor sênior de gerenciamento de produtos de notificação de exposição do Google, declarou que havia "desafios conhecidos no uso da tecnologia Bluetooth para calcular a distância precisa entre os dispositivos" e que a empresa estava continuamente trabalhando para melhorar a precisão.

Alguns especialistas em saúde pública reconheceram que o sistema de alerta de exposição era um experimento para o qual eles, e os gigantes da tecnologia, estavam descobrindo e incorporando melhorias à medida que avançavam.

Um problema que acharam logo no início: para evitar alarmes falsos, os estados verificam resultados positivos de testes antes que uma pessoa possa enviar uma notificação de exposição. Contudo, os laboratórios locais às vezes podem levar dias para enviar resultados de testes a agências de saúde, limitando a capacidade dos usuários de aplicativos de alertar rapidamente os outros.

No Alabama, por exemplo, o aplicativo de alerta de vírus GuideSafe do estado foi baixado cerca de 250 mil vezes, de acordo com a Sensor Tower. Só foi possível, porém, confirmar o resultado positivo dos testes de 1.300 usuários. As autoridades de saúde divulgaram que esse é um número muito menor do que esperavam, dado que mais de dez por cento da população do estado foram infectados. "O aplicativo seria muito mais eficiente se esses processos fossem menos manuais e mais automatizados", sugeriu o dr. Scott Harris, que supervisiona o Departamento de Saúde Pública do Alabama.

O Colorado, que automaticamente emite os códigos de verificação para pessoas com resultado positivo, relatou taxas de uso mais altas. E, na Califórnia, a UC San Diego Health criou uma linha telefônica dedicada para a qual os usuários podem ligar se não receberem seu código de verificação.

Longhurst, o diretor de informações do centro médico, afirmou que o aplicativo da Califórnia se mostrou útil como parte de um projeto maior de saúde pública em todo o estado, que também envolveu o uso de máscara e o teste de vírus. "Não é uma panaceia, mas pode ser uma parte eficaz da resposta à pandemia."

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