Tecnologia

O ChatGPT vai ganhar um 'corpo'; e por isso a Apple está processando a OpenAI

Empresa de Sam Altman teria contratado mais de 400 profissionais da fabricante do iPhone; aparelho sem tela deve combinar câmera, sensores e uma nova versão do modo de voz do ChatGPT

André Lopes
André Lopes

Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 15 de julho de 2026 às 13h31.

Última atualização em 15 de julho de 2026 às 13h34.

A OpenAI prepara sua primeira incursão relevante fora do software, programas e sistemas digitais, com um aparelho doméstico sem tela projetado para funcionar como uma central de inteligência artificial. O dispositivo terá câmera, sensores ambientais e capacidade de controlar equipamentos da casa, reproduzir música, responder mensagens e executar funções hoje disponíveis no ChatGPT.

Dentro da empresa, o produto não seria tratado apenas como uma caixa de som inteligente, mas como um computador para a era da inteligência artificial. A proposta é que o equipamento permaneça no ambiente doméstico, interprete o que acontece ao redor e mantenha interações mais contínuas com o usuário.

O projeto incluiria bateria recarregável e uma versão mais avançada do modo de voz, chamada GPT-Live. O sistema seria capaz de ouvir e falar simultaneamente, reduzindo as pausas típicas das interfaces atuais. Componentes mecânicos móveis também estariam sendo testados para transmitir a impressão de que o objeto reage ao ambiente.

O lançamento é previsto para 2026, com vendas a partir de 2027, embora o cronograma ainda possa ser alterado. A principal ameaça ao calendário agora não está apenas nos desafios de engenharia: a Apple tenta impedir judicialmente que o produto chegue ao mercado.

A disputa expõe o aumento da concorrência entre empresas que buscam desenvolver uma nova categoria de aparelhos pessoais depois do smartphone, telefone celular com recursos computacionais avançados. Também revela como a movimentação de engenheiros e executivos entre companhias rivais passou a ocupar o centro dessa corrida.

A estratégia da OpenAI para entrar no mercado de hardware, componentes físicos de computadores e dispositivos, foi buscar profissionais que participaram da criação de produtos da Apple. Em 2025, a empresa anunciou a compra da io Products, startup, empresa jovem voltada à inovação, fundada pelo designer britânico Jony Ive, por US$ 6,5 bilhões.

Ive comandou por décadas o desenvolvimento visual e industrial de produtos como o iPhone. Seu estúdio, a LoveFrom, também participa do projeto. Segundo o relato, mais de 400 profissionais vindos da Apple já teriam sido contratados pela OpenAI.

Entre eles está Evans Hankey, ex-chefe de design industrial da Apple e atual responsável pelo desenvolvimento do aparelho. Paul Meade, executivo que trabalhou no Vision Pro, headset, dispositivo usado na cabeça para experiências digitais imersivas, também teria migrado para a companhia de Sam Altman.

A divisão de equipamentos é comandada por Tang Tan, ex-vice-presidente de design de produto do iPhone e do Apple Watch. Ele trabalhou por 24 anos na Apple antes de deixar a empresa.

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Processo acusa OpenAI de obter informações confidenciais

A contratação desses profissionais está no centro da ação apresentada pela Apple em 10 de julho à Justiça Federal do Distrito Norte da Califórnia. O processo, de 41 páginas, acusa a OpenAI, a io Products e dois antigos funcionários da fabricante do iPhone de apropriação indevida de segredos comerciais.

A Apple afirma que integrantes da OpenAI teriam montado uma operação coordenada para obter informações confidenciais sobre tecnologias e produtos ainda não lançados.

Uma das acusações envolve Tang Tan. De acordo com a ação, o executivo teria orientado candidatos que ainda trabalhavam na Apple a levar componentes físicos da empresa, como baterias e placas lógicas, para entrevistas de emprego em sessões de show and tell, apresentação prática de objetos ou projetos.

A fabricante também diz que Tan teria mencionado nomes de código internos durante as entrevistas para estimular os candidatos a revelar detalhes adicionais. As alegações ainda dependem de análise judicial, e a apresentação da ação não significa que as acusações tenham sido comprovadas.

Outro funcionário citado é Chang Liu, ex-engenheiro sênior de sistemas elétricos da Apple. A empresa afirma que ele manteve um notebook, computador portátil, corporativo depois de deixar o emprego, em janeiro de 2026.

Segundo a petição, Liu teria explorado uma falha de segurança para continuar acessando arquivos armazenados nos sistemas da Apple mesmo depois de começar a trabalhar para a OpenAI. A ação também menciona uma mensagem na qual ele teria comemorado o acesso com uma antiga colega.

A Apple acusa ainda a OpenAI de orientar profissionais em processo de desligamento sobre maneiras de contornar os protocolos internos usados para proteger dados confidenciais.

A OpenAI negou ter interesse em segredos de outras companhias e afirmou que desenvolve tecnologia própria. A Apple, por sua vez, declarou no processo que o nascente negócio de equipamentos da rival estaria “podre desde a raiz”.

A empresa de Cupertino pede uma liminar para impedir a comercialização do dispositivo, medida que, caso aceita pela Justiça, poderá atrasar ou bloquear o primeiro produto físico da OpenAI.

Aliança entre Apple e OpenAI deu lugar à concorrência

O processo representa o ponto mais crítico de uma relação que começou como parceria. Em 2024, a Apple anunciou a integração do ChatGPT aos sistemas do iPhone, permitindo que usuários recorressem ao modelo da OpenAI em determinadas consultas feitas à Siri.

A aproximação perdeu força quando a OpenAI anunciou sua entrada no mercado de dispositivos. A relação teria se deteriorado ainda mais em janeiro de 2026, quando a Apple informou que uma nova geração da Siri utilizaria modelos de inteligência artificial do Google.

Com isso, as empresas passaram de parceiras circunstanciais a concorrentes diretas. Além de disputarem espaço nos sistemas de inteligência artificial, elas competem pelos mesmos engenheiros, designers e especialistas em desenvolvimento de produtos.

O timing, momento escolhido para uma decisão, é especialmente sensível para a OpenAI. A empresa tenta concluir um aparelho que já teria enfrentado adiamentos internos e, ao mesmo tempo, prepara-se para uma possível oferta pública inicial de ações.

Um processo com acusações de espionagem corporativa, mensagens privadas e quebra de protocolos de segurança cria riscos jurídicos e de reputação. Esses fatores podem ganhar peso em avaliações de investidores, fornecedores e potenciais parceiros comerciais.

A Apple também enfrenta dificuldades próprias. A saída de profissionais experientes ocorre enquanto a companhia desenvolve uma família de aparelhos domésticos com inteligência artificial.

Entre os projetos estaria o J490, um hub, central que conecta e controla diferentes aparelhos, equipado com tela e reconhecimento facial. A empresa também avaliaria uma versão com o visor instalado sobre um braço robótico capaz de acompanhar a movimentação do usuário.

Apple e OpenAI tentam definir qual será a principal interface de computação depois do celular, mas agora levam essa disputa também aos tribunais.
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