Chinamaxxing: tendência de valorizar a cultura chinesa faz MTC se popularizar entre jovens norte-americanos (Reprodução/TikTok)
Colaboradora
Publicado em 7 de março de 2026 às 20h03.
Se você é usuário assíduo do TikTok e gosta de acompanhar as tendências de bem-estar por lá, provavelmente já deve ter visto alguém trocando a salada fria por caldos quentes ou bebendo água morna todos os dias de manhã, certo de que isso será o diferencial para o intestino funcionar ao longo do dia.
Esses e outros hábitos cada vez mais populares entre criadores de conteúdo — principalmente nos Estados Unidos — não são exatamente uma novidade. Eles fazem parte da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), um sistema de saúde com cerca de cinco mil anos que propõe uma abordagem holística do corpo humano, ou seja, que considera o organismo de forma integrada e não foca no tratamento de doenças isoladas.
A influenciadora Sherry Xiiruii, de 23 anos, faz parte da turma de influenciadores que viu na MTC uma forma de criar conteúdo. Nas redes, ela adota um tom brincalhão, mas autoritário, em que dá dicas para suas seguidoras que chama de amigas e, segundo ela, também estão "virando chinesas".
"Amanhã, você vai virar chinesa. Eu sei que dá medo, mas não adianta lutar contra isso agora — você foi escolhida", brinca a criadora sino-americana, em um vídeo com 1,4 milhão de visualizações. Os seguidores engajam na brincadeira: "primeira vez sendo chinesa por aqui. Estou um pouco nervosa", comentou uma. Outro respondeu: "Nunca fui chinês antes, tenha paciência comigo!".
Em outras publicações, criadoras — sem ascendência asiática — compartilham suas rotinas de autocuidado inspiradas na tradição, brincando que estão passando por "uma fase muito chinesa" em suas vidas, com sua rotina de skin care com gua-sha enquanto preparam maçãs cozidas com canela e gengibre para o café da manhã.
O interesse faz parte de um fenômeno digital apelidado de "Chinamaxxing", em que jovens compartilham memes e experiências exaltando a cultura chinesa. O movimento ganhou força após a escalada na tensão entre Estados Unidos e China, quando Donald Trump ameaçou banir o TikTok e anunciou o tarifaço.
Em vez de distanciar, o contexto político acabou estimulando uma curiosidade dos jovens americanos sobre a cultura chinesa e abriu margem para que os descendentes do país asiático crescessem seus perfis. É o caso, por exemplo, de influenciadores como Sherry, além de iShowSpeed e Hasan Piker, que viajaram ao país para produzir conteúdo.
Paralelamente, produtos culturais chineses ganharam espaço nos EUA, como os bonecos colecionáveis Labubu, da Pop Mart, e o videogame Black Myth: Wukong.
"Quando os americanos não confiam em suas próprias instituições, na mídia ou na classe política, eles se tornam mais propensos a buscar pontos de referência alternativos", escreveu Shaoyu Yuan, especialista em relações internacionais e professor da Universidade de Nova York , ao Business of Fashion. "Os debates públicos sobre o TikTok, as sanções, os controles de exportação e o ‘desacoplamento’ sinalizam para muitos jovens que a China é fundamental para o futuro, quer eles gostem ou não", completou.
Existe mais um componente político nessa história. Em 2016, o governo de Xi Jinping passou a incentivar a expansão internacional da MTC como parte da estratégia de soft power do país. Durante a pandemia, em 2020, terapias chinesas foram recomendadas no tratamento da Covid-19 e enviadas a outros países. Em 2022, o mercado global da MTC atingiu US$ 400 bilhões - e deve atingir US$ 551 bi até 2035, segundo o Business Research Insights.
Nos Estados Unidos, o interesse ganhou tração nas redes sociais a partir de 2021, com a popularização de ferramentas como o gua sha e o aumento da procura por acupuntura entre pessoas com Covid longa. Mais recentemente, e paralelo ao "Chinamaxxing", o TikTok transformou essas práticas em conteúdo de rotina.
"Quando alguém adota o qigong , a acupuntura, a ventosaterapia, os fitoterápicos [ou] o gua sha … não está consumindo uma exportação cultural pontual. Em vez disso, está criando um hábito, e os hábitos mudam silenciosamente a forma como a estranheza é percebida", disse Yuan. "Isso não significa, porém, que estejam 'mudando de lado'. … As pessoas podem ser céticas em relação às políticas estatais chinesas e ainda assim achar as práticas de bem-estar chinesas úteis ou interessantes", completa.
De fato, a MTC passou anos sendo alvo de desconfiança entre os norte-americanos, parte disso devido à rivalidade histórica e cultural entre China e EUA. Mas o hype das práticas milenares nas redes sociais fez com que elas virassem, inclusive, inspiração — e uma espécie de trampolim — para diversas marcas do setor de bem-estar.
Uma dessas marcas é a Elix, que produz suplementos à base de ervas tradicionais chinesas. Desde que a trend da MTC começou, as redes sociais da empresa registraram aumento de 250% nas impressões orgânicas, enquanto o tráfego do site passou a crescer cerca de 40% por semana.
Segundo Lulu Ge, fundadora da marca, parte do interesse vem da frustração de consumidores com a fragmentação do sistema de saúde americano. "A medicina chinesa realmente funciona melhor para condições crônicas, pois abrange vários sistemas de saúde diferentes", afirmou ao BoF. Até o momento, a ciência vê as terapias da MTC como um complemento na prevenção e no tratamento de algumas doenças, sem a capacidade de substituir tratamentos convencionais.
Nem todos veem a tendência como algo positivo: alguns criadores asiático-americanos afirmam que o fenômeno pode ser hipócrita e perturbador, especialmente pela discriminação sofrida por pessoas asiáticas durante a pandemia. Há também críticas a influenciadores que reproduzem práticas sem contexto ou se apresentam como autoridades sobre as tradições.
Ainda assim, profissionais da área afirmam que a visibilidade pode trazer benefícios. A acupunturista Felice Chan, cofundadora da marca Moonbow, afirmou ao BoF que o interesse nas redes pode ampliar o acesso a terapias tradicionais — desde que as práticas não sejam reduzidas a simplificações virais.
"Se isso gera empregos para acupunturistas, se dá visibilidade a outras marcas de medicina chinesa, por que não?", questionou. No entanto, ela reconhece a problemática de existirem conteúdos que simplificam demais a MTC, uma sabedoria que, segundo ela, deveria ser transmitida de geração em geração, e não por algoritmos.
"Existe um motivo para sua mãe ter dito para você usar chinelos dentro de casa. … Se nossos pés estão frios, nosso útero também está frio, e temos cólicas menstruais fortes, certo?", disse Chan. "Existe um remédio relacionado a isso, mas quase há uma falha na comunicação ou na compreensão do porquê nossos pais nos disseram isso", diz.