O "grindslop" traduz a cultura de documentar o próprio esgotamento: quando o sofrimento no trabalho vira produto. (Imagem gerada por IA/Reprodução)
Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 20 de agosto de 2026 às 15h50.
Tem um tipo de post que você já deve ter visto passar no LinkedIn: o fundador de startup contando, com orgulho, que dorme quatro horas por noite, trabalha sete dias por semana e "sacrifica tudo pela missão". No Vale do Silício, esse tipo de publicação ganhou um apelido novo: grindslop.
A palavra junta duas ideias. Grind é a labuta, o trabalho braçal e repetitivo. Slop é o mesmo termo usado para chamar aquele conteúdo genérico e em massa que a inteligência artificial produz, texto sem substância, feito só para preencher o feed. Junte as duas coisas e "grindslop" vira uma acusação: gente que fabrica conteúdo sobre o próprio sofrimento no trabalho, em série.
O termo foi registrado numa reportagem do site americano Business Insider, que ouviu tanto quem já foi acusado de fazer grindslop quanto quem critica a prática. A pergunta que a reportagem faz, e que resume o fenômeno, é simples: para quem essas pessoas estão realmente postando?
Han Wang, cofundador de 25 anos da startup Mintlify, publicou um ensaio chamado "Lembre-se de não sorrir" ("Remember to not smile"), pregando desconforto e autocobrança como caminho para o sucesso. A repercussão foi o oposto do esperado: foi lido como manual de como ser performático no trabalho, e amigos e fundadores que ele admirava criticaram o texto publicamente. "Por duas semanas, eu virei o recipiente daquele desprezo todo", disse Wang à reportagem.
O termo pegou. Segundo a empresa de monitoramento de redes Sprout Social, as menções a "grindslop" no X ganhou corpo na bolha de investidores e empreendedores do setor de tecnologia.
O fenômeno nasce de um ambiente específico: jornadas de trabalho cada vez mais extremas em startups de tecnologia, especialmente as de inteligência artificial, com rotina inspirada no modelo chinês "996" — trabalhar das 9h às 21h, seis dias por semana —, noites viradas a energético e a cultura do "vibe coding" ininterrupto.
O regime não é exclusividade americana: a própria China já precisou alertar formalmente contra a prática, depois de anos em que bilionários como o fundador do Alibaba, Jack Ma, tratavam o 996 quase como orgulho.
A diferença do grindslop para o esgotamento comum é a encenação. Não basta trabalhar demais: é preciso documentar, publicamente, o sofrimento. Will Manidis, autor do ensaio que popularizou o termo, resumiu assim: nessas empresas, "a documentação dessas horas e a performance do sofrimento é o próprio produto".
Para Justin Banusing, cofundador da startup Clouted, o grindslop é a reação a um extremo anterior: o "remote slop" da pandemia, quando o conteúdo em alta era o profissional trabalhando à beira da piscina ou viajando de laptop aberto. Agora o pêndulo foi para o lado oposto, todo mundo dentro do escritório, o tempo todo, sem exceção.
Ruby Justice Thelot, professor de teoria de design e mídia na Universidade de Nova York, enxerga um padrão histórico: primeiro veio o "consumo conspícuo" (a riqueza ostentando o lazer que o dinheiro comprou), depois a "criação conspícua" (o próprio ato de criar virando o lazer, como quem faz cookie caseiro para postar), e agora a "produção conspícua", em que não sobra lazer nenhum, só trabalho, tratado como virtude em si mesma.