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Opinião: Depois do Pix, Brasil pode liderar pagamentos por agentes de IA

Para liderar os pagamentos agênticos, o país precisa ir além de Pix e Open Finance: deve construir uma infraestrutura capaz de provar o que um agente pode fazer — e por quê

Pix e Open Finance dão ao Brasil uma base para pagamentos agênticos, mas confiança dependerá de mandato, auditoria e regras explicáveis (Pixabay/Shutterstock)

Pix e Open Finance dão ao Brasil uma base para pagamentos agênticos, mas confiança dependerá de mandato, auditoria e regras explicáveis (Pixabay/Shutterstock)

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Publicado em 20 de agosto de 2026 às 15h00.

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Por José Guilherme Costa*

O debate sobre pagamentos agênticos costuma começar pela pergunta errada: quando a inteligência artificial vai pagar nossas contas? A resposta é: ela já começa a fazer isso.

A questão relevante não é se um agente será capaz de pesquisar, escolher e concluir uma compra. É quem vai garantir que ele agiu dentro do que foi autorizado, sob qual regra, com base em que informação — e quem responderá quando algo der errado. Nesse ponto, o Brasil tem uma oportunidade incomum.

Construímos, em poucos anos, dois ativos que a maior parte do mundo ainda persegue: uma infraestrutura de liquidação instantânea, barata e disponível 24 horas por dia, e uma estrutura de consentimento padronizado, com escopo, prazo, revogação e participantes autenticados.

Pix e Open Finance não resolvem todo o problema, mas formam uma base muito mais sólida do que parece à primeira vista.

O Pix resolve a circulação do dinheiro. O Open Finance oferece o esqueleto da autorização. Para pagamentos agênticos em escala, porém, falta construir a camada entre os dois: o mandato.

Hoje, uma pessoa autentica um pagamento no mesmo instante em que manifesta sua intenção. Ela vê o valor, confere o destinatário e confirma a operação.

Com um agente, esses momentos se separam. O usuário deixa de autorizar uma transação específica e passa a autorizar uma política: até quanto o agente pode gastar, em quais categorias, com quais estabelecimentos, em qual período e em que situações deve pedir uma nova confirmação.

É mais parecido com conceder uma procuração de escopo limitado do que apertar um botão de pagar.

Esse deslocamento muda também a pergunta que bancos e instituições financeiras precisam responder. Hoje, o foco é saber se foi realmente o titular quem realizou a operação.

Amanhã, será preciso saber se aquela ação estava dentro do mandato concedido pelo titular. E essa resposta precisa ser dada em tempo real, milhões de vezes, com prova suficiente para uma auditoria ou uma contestação.

É aí que o desafio brasileiro deixa de ser apenas regulatório ou tecnológico.

A instituição precisa conseguir explicar a própria regra. Quando um mandato diz que um agente pode gastar até determinado valor em insumos, por exemplo, alguém precisa definir o que conta como insumo, qual limite se aplica àquele cliente, qual exceção vale para aquele produto e se há algum fator de risco que bloqueia a operação.

Essas regras raramente estão em um documento atualizado.

Elas vivem distribuídas em décadas de sistemas críticos, integrações, políticas internas e código que continua rodando — muitas vezes sem que a organização consiga descrevê-lo por completo.

O trilho resolve a liquidação. Mas quem responde “isso pode?” é o núcleo do banco.

Essa é a diferença entre executar um pagamento agêntico e governar um pagamento agêntico. O primeiro pode acontecer com uma integração bem desenhada.

O segundo exige identidade verificável do agente, vínculo claro com o titular, mandato legível por máquina, revogação instantânea, trilha auditável e uma instituição capaz de aplicar suas próprias regras de forma explicável.

Sem isso, o risco não é apenas técnico. É econômico e jurídico

Quando um agente compra fora do escopo autorizado, quem responde?

Se o agente atuou dentro do mandato e o produto não foi entregue, a relação de consumo segue valendo.

Se operou fora dos limites, a responsabilidade deve recair sobre quem desenvolve e opera o agente — desde que a instituição tenha aplicado corretamente o mandato.

Se o banco ignora uma restrição válida, a falha é do detentor da conta. Se o comércio manipula preço, estoque ou instruções para induzir o software, trata-se de uma nova forma de fraude.

Não existe um único responsável. Existe uma cadeia de responsabilidades e essa cadeia só funciona se houver evidência: qual mandato autorizou a ação, qual regra foi aplicada, qual sistema a executou e qual informação fundamentou a decisão.

Não se julga aquilo que não se consegue explicar.

O modelo brasileiro pode ser uma vantagem justamente porque o país já sabe coordenar infraestrutura pública e inovação privada.

O Pix reorganizou a circulação do dinheiro.

O Open Finance leva a mesma visão de infraestrutura compartilhada para dados e consentimento, criando regras comuns para que pessoas autorizem, controlem e revoguem o uso de suas informações financeiras.

A próxima etapa deveria usar o mesmo método: um padrão de mandato para agentes, um diretório de identidade e revogação, custos baixos na base e implementação progressiva.

Isso não significa fechar o país para protocolos globais. A postura mais inteligente é ser rígido no mandato e neutro no trilho. Protocolos estrangeiros podem operar aqui, desde que respeitem a regra brasileira de autorização, responsabilidade e auditoria.

A janela é curta. Plataformas de IA, bandeiras e grandes marketplaces já disputam os protocolos que vão definir como os agentes compram.

Se o Brasil apenas adaptar padrões construídos fora, será um mercado de implementação. Se construir a camada que permite autorizar, limitar, revogar e explicar decisões, poderá oferecer algo mais valioso: um método.

O legado brasileiro não é apenas um passivo a ser trocado. Ele contém décadas de regras de negócio reais, testadas em produção e sob regulação.

O desafio é traduzi-las para uma linguagem que pessoas, auditores e agentes consigam entender.

O Brasil já tem o trilho. Agora precisa construir a camada de significado. É nela que a confiança será decidida — e é ela que pode transformar o país de adotante rápido em protagonista global dos pagamentos agênticos.

*José Guilherme Costa é empreendedor, fundador da Pagô e especialista em tecnologia, inovação e mercado financeiro.

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