Executivo em tecnologia e consumo em empresas como Neogrid, Linx, TOTVS e Oracle. Hoje é conselheiro, advisor e investidor
Publicado em 29 de agosto de 2026 às 10h25.
Segunda-feira, oito da manhã. Você abre o painel de gestão da sua empresa esperando encontrar faturamento, margem e pipeline. Em vez disso, três frases: "Empresas do seu segmento e do seu porte cresceram 8% mais que você nas últimas quatro semanas." "Sua operação logística caiu do percentil 67 para o 52." "As que recuperaram essa distância adotaram duas mudanças nos últimos sessenta dias — quer conhecê-las?" Nenhum concorrente foi exposto. Nenhum dado confidencial circulou. Mas algo essencial mudou: pela primeira vez, você deixou de administrar olhando apenas para dentro.
Falo por experiência — e me incluo na comunidade que descrevo. Passei mais de vinte anos no software de gestão, numa multinacional europeia, numa gigante americana e, sobretudo, em companhias brasileiras de capital aberto. Na venda dos projetos, fazíamos um trabalho quase de alfaiataria: montávamos à mão um comparativo com os líderes do setor para provocar o empresário sobre o retorno do investimento — o máximo que a tecnologia da época permitia.
Sem como normalizar dados em escala, o que se entregava depois do contrato era um espelho — um sistema que devolve à empresa, organizado e colorido, o reflexo do que ela já vive. O limite nunca foi de ambição; era de tecnologia. Automatizamos o registro do passado e chamamos isso de transformação.
A ciência econômica sugere que esse espelho custa caro. O World Management Survey, conduzido por Stanford, Harvard, MIT e LSE, com cerca de 20 mil entrevistas em 35 países, chegou a duas conclusões. A primeira: aproximadamente um terço das diferenças de produtividade entre empresas e entre países é explicado pela qualidade das práticas de gestão — e o Brasil aparece no fundo desse ranking, ao lado de Índia e China. A segunda é mais incômoda.
A maioria dos gestores superestima a qualidade da própria gestão.
Ao final de cada entrevista, o gestor dá uma nota de um a dez às práticas do próprio negócio. As notas não guardam relação com a realidade medida. O gestor não sabe onde está na fila — porque nunca ninguém mostrou a fila para ele. Num experimento randomizado na Índia, os mesmos pesquisadores levaram práticas modernas de gestão a fábricas têxteis: a produtividade subiu 17% já no primeiro ano. E a razão mais citada para não terem melhorado antes não foi falta de capital nem de vontade. Foi falta de conhecimento sobre o que os melhores fazem.
O próximo diferencial competitivo do software de gestão não será produzir mais dashboards. Será produzir desconforto produtivo.
Praticamente todo software responde hoje a duas perguntas: o que aconteceu e como evoluí em relação a mim mesmo. É o nível do histórico e o nível do espelho.
Existem três degraus acima: comparar com pares equivalentes — mesmo setor, porte, região e momento —, inferir as causas da diferença e, no topo, influenciar: apontar as duas ou três ações que mais aumentam a probabilidade de alcançar o quartil superior. A tecnologia finalmente derrubou aquele limite. A inteligência artificial permite repensar processo, valor e a própria construção do software para que a comparação deixe de ser alfaiataria e vire produto: dinâmica, interativa, transação a transação, minuto a minuto, junto da execução do negócio.
Os melhores softwares vão deixar de responder "o que aconteceu?" para responder "o que os melhores estão fazendo agora — e como chego lá?" Como indústria, ainda estamos majoritariamente estacionados no segundo degrau.
A prova de que comparação muda comportamento vem da economia comportamental. A americana Opower enviava a milhões de residências um relatório comparando o consumo de cada casa com o dos vizinhos semelhantes — só isso. Experimentos randomizados em diferentes regiões documentaram reduções persistentes próximas de 2% no consumo; em escala, o programa chegou a 15 milhões de residências, e a Oracle comprou a empresa por mais de meio bilhão de dólares. A Opower não gerava um único elétron: vendia comparação.
Com empresas, o efeito é ainda maior. Um experimento publicado no Quarterly Journal of Economics randomizou 2.820 empresas chinesas em grupos cujos donos se reuniam mensalmente para trocar experiências. Resultado: receita 8,1% maior, com efeitos persistentes um ano após o fim do programa — e as empresas sorteadas para grupos com pares melhores cresceram mais. Se uma reunião mensal com meia dúzia de pares gera 8% de receita, o que gera um software que faz essa comparação todos os dias, para milhares de empresas, de forma normalizada e anônima?
A comunidade é o motor que torna essa transformação possível. Uma empresa de software não administra apenas um produto — administra um ecossistema: milhares de empresas que, juntas, sabem mais do que qualquer uma delas isoladamente. Hoje, comunidade em software significa evento anual, fórum e grupo de WhatsApp. Proponho outra coisa: a comunidade dentro do produto, operando como o Waze — que não sabe qual é o melhor caminho, mas o descobre porque milhares de motoristas dirigem ao mesmo tempo, cada um contribuindo anonimamente. Um ERP, um CRM ou um sistema de RH pode operar sob a mesma lógica: cada cliente conta com anonimização, confidencialidade e regras claras de governança, e o software compara qualquer empresa com a média do mercado e com o líder — sem jamais revelar quem é o líder —, mostrando o ritmo de crescimento de cada indicador — o seu, o da média e o dos melhores.
A comunidade nunca aparece na tela. Mas está presente em cada recomendação.
E ela não precisa começar fora da empresa. O degrau mais fácil é interno: comparar filiais equivalentes. A loja de Florianópolis não compete com a de shopping em São Paulo; compete com Joinville, Blumenau e Londrina. O software que descobre automaticamente quem são os pares de cada unidade e publica — "a filial Curitiba entrou no top 5% da companhia em retenção" — cria competição saudável, reconhecimento e desejo de evoluir. É gamificação para adultos: não medalhas e pontos, mas posição na fila. E a mesma lógica vale para qualquer negócio recorrente e comparável — de clínicas a escritórios profissionais e software houses — desde que alguém normalize os comparáveis.
E existe um motivo econômico para dar esse salto: quem normaliza, monetiza. A pesquisa do MIT (CISR) com 349 executivos mostra que organizações de alto desempenho já atribuem 11% da receita à monetização de dados — mais de cinco vezes os 2% das demais. A holandesa Wolters Kluwer dá uma pista do tamanho da oportunidade: suas "expert solutions" — software, conteúdo especializado e inteligência incorporada ao fluxo de trabalho — já são 59% da receita total. Nenhum desses números prova sozinho a tese da comunidade comparativa — mas mostram que clientes já pagam por uma camada de inteligência acima da funcionalidade.
Alguém dirá que dados são o novo petróleo. Não são — e é por isso que a tese se sustenta. Dado parado é estoque: custa para manter, envelhece e, isoladamente, raramente muda uma decisão. Defensável é o fluxo de aprendizado: a comparação que se renova todos os dias, em que cada cliente novo torna o benchmark mais preciso para todos os outros. Funcionalidade, qualquer concorrente copia em meses; modelos de inteligência artificial se difundem; uma comunidade que aprende junta, não. O software já evoluiu de sistema de registro para sistema de engajamento e, depois, de inteligência. Arrisco uma classificação pessoal para o quarto estágio: o sistema de influência — o que não se limita a registrar o passado, mas muda o comportamento de quem gerencia o presente. E assumo o exagero da aposta: a próxima empresa de software de US$ 100 bilhões não será a que tiver a melhor IA — será a que transformar sua base de clientes na comunidade mais inteligente do seu mercado.
Primeira: quais três indicadores os nossos clientes pagariam para ver comparados com pares equivalentes — e por que ainda não oferecemos nenhum deles?
Segunda: o que precisa mudar em contratos, arquitetura e governança para normalizar dados com anonimização e governança à prova de questionamento, transformando uma base de clientes em uma comunidade de inteligência?
Terceira: se o nosso software ficasse gratuito amanhã, o que sobraria para cobrar — e, se a resposta for "nada", o problema não é de preço, é de tese?
Espelho não cobra prêmio. Quem cobra prêmio é quem mostra onde você está na fila — e como andar nela.