Logitech: empresa quer crescer em três frentes no Brasil (Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter
Publicado em 6 de julho de 2026 às 05h01.
A mesma empresa que fabrica o mouse ultraleve usado por um jogador profissional de e-sports também vende a câmera com inteligência artificial (IA) instalada na sala de reunião de uma multinacional.
Essa dualidade — o gamer de um lado, o executivo de outro — é o centro da estratégia da Logitech no Brasil, e o desafio de mantê-la em equilíbrio recai sobre Jairo Rozenblit, head da companhia no país e no México.
"Há 15 anos, eles decidiram que o Brasil seria uma prioridade para a empresa e aí me contrataram para montar a operação do zero", diz Rozenblit em entrevista exclusiva à EXAME.
Hoje, a companhia se apoia em três pilares de negócio no país — acessórios de informática, games e o mercado corporativo, o chamado B2B —, e a aposta é que eles se reforcem, em vez de competir entre si.
O pilar mais forte da Logitech no Brasil é o de games.
Segundo Rozenblit, a empresa tem quase cinco vezes mais participação de mercado do que o segundo colocado na categoria de acessórios, com presença em mais de 20 mil pontos de venda, entre varejo físico e comércio eletrônico.
A força nesse segmento se explica pelo perfil do consumidor.
Para o executivo, o público gamer é o mais exigente da empresa, o que acaba beneficiando as demais áreas. "Ele sabe absolutamente do começo ao fim do produto, tudo o que o produto pode entregar", afirma.
Jairo Rozenblit: a aposta da Logitech para crescer além dos games (Logitech/Reprodução)
É nesse pilar que a companhia costuma lançar primeiro tecnologias que depois migram para as outras linhas, sobretudo em áudio.
Se games é a área consolidada, a de videoconferência é a de maior aposta de crescimento.
Rozenblit afirma que menos de 10% das salas de reunião no Brasil têm equipamento de videoconferência adequado, um espaço que a empresa quer ocupar com produtos voltados a fechar negócios, fazer entrevistas ou integrar funcionários a distância.
A divisão corporativa opera de forma completamente separada da de games, com equipe de vendas dedicada e canais divididos por porte de cliente — do setor público às 500 maiores empresas do país, além de milhões de pequenas e médias empresas atendidas por distribuidores.
Para atrair os grandes clientes, a companhia montou um showroom no escritório, onde convida executivos como o diretor de tecnologia (CIO) e o presidente-executivo (CEO) a testar as soluções.
A fronteira entre os dois mundos, no entanto, começou a se dissolver.
Rozenblit aponta que a pandemia mudou o comportamento de compra: o consumidor passou a investir mais em produtos de maior qualidade, depois de decepções com itens de entrada, e o trabalho híbrido borrou a linha entre o equipamento de lazer e o de trabalho.
"Vou comprar um produto gamer e eu trabalho, também utilizo ele para a parte profissional", afirma o executivo, ao descrever o novo perfil de consumo.
Para atender a essa mistura, a empresa criou uma estratégia batizada de Anywhere Office, com diferentes configurações de produto para diferentes públicos — do desenvolvedor de software ao usuário que prioriza design ou ergonomia.
Segundo uma pesquisa interna da companhia, quase 30% das pessoas sentem algum tipo de dor ou desconforto no trabalho, o que sustenta a aposta em uma linha ergonômica.
A decisão de manter os três pilares fortes ao mesmo tempo é, segundo Rozenblit, uma estratégia deliberada para diluir risco. "A gente não criar uma dependência de um negócio", afirmou. A lógica é que, quando um pilar desacelera, outro pode estar em alta, o que dá estabilidade à operação.
Essa diversificação se reflete nos números globais da companhia suíça, listada nas bolsas dos Estados Unidos e da Suíça. A receita da Logitech nos 12 meses até junho deste ano alcançou US$ 4,76 bilhões, e a ação, que já foi negociada a cerca de US$ 7 quando Rozenblit entrou na empresa, passou a ser cotada na casa dos US$ 90.
O maior desafio de operar no Brasil, para o executivo, é a diversidade de perfis de consumo. Ele costuma descrever o mercado brasileiro como "vários países dentro de um país", com consumidores de altíssimo poder aquisitivo convivendo com outros de renda muito baixa, e comportamentos de compra que variam de região para região.
Agora, o alcance de Rozenblit cresceu para além do Brasil. Após reestruturar a operação do México, ele assumiu o comando da Logitech para a América Latina, uma região que, segundo a empresa, reúne 34 mercados.
A meta, segundo ele, é explorar as sinergias entre os países — sem abrir mão da dualidade que, no Brasil, transformou a marca em líder tanto na cadeira do gamer quanto na mesa de reunião do executivo.