Tecnologia

Como usar o Starlink no celular: o que mudou com a conectividade via satélite direto ao smartphone

A tecnologia Direct to Cell conecta smartphones 4G LTE diretamente a satélites em órbita baixa, sem antena externa — mas o serviço ainda depende de acordos com operadoras e aprovação regulatória em cada país

Starlink Direct to Cell: satélites da SpaceX transformam celulares comuns em aparelhos com cobertura global (Getty Images)

Starlink Direct to Cell: satélites da SpaceX transformam celulares comuns em aparelhos com cobertura global (Getty Images)

Marina Semensato
Marina Semensato

Colaboradora

Publicado em 22 de abril de 2026 às 10h54.

A ideia de nunca mais ficar sem sinal parecia ficção até pouco tempo atrás. Com o Starlink Direct to Cell, satélites da SpaceX passaram a funcionar como torres de celular no espaço e agora transmitem sinal diretamente para os celulares, sem precisar de antena parabólica, chip especial ou aplicativo.

O serviço já opera em países como Estados Unidos, Chile e Nova Zelândia, e mais de 650 satélites com capacidade Direct to Cell estão em órbita. No Brasil, a tecnologia ainda não tem data de lançamento.

O Direct to Cell usa frequências 4G LTE compatíveis com os modems que já existem dentro de celulares atuais. Quando o aparelho perde o sinal da operadora terrestre, ele busca o satélite Starlink de forma automática. O usuário não precisa fazer nada além de manter o sistema operacional atualizado e as configurações de rede emergencial ativadas.

O que é o Starlink Direct to Cell e como funciona?

O Starlink Direct to Cell (também chamado de Starlink Mobile) é um sistema em que satélites de órbita baixa, a poucas centenas de quilômetros da Terra, emitem sinais nas mesmas frequências usadas pelas redes móveis terrestres. O smartphone reconhece esse sinal como se viesse de uma torre convencional.

A conexão depende de dois elementos: um celular compatível com LTE e uma operadora local que tenha acordo comercial com a SpaceX. Sem essa parceria, o aparelho até detecta o satélite, mas não ativa a conexão. Nos Estados Unidos, a T-Mobile foi a primeira parceira. No Chile, o serviço opera com a Entel. Japão (KDDI), Austrália (Optus) e Canadá (Rogers) estão em fases de teste ou lançamento.

Quais celulares são compatíveis com o Starlink Direct to Cell?

Mais de 60 modelos já funcionam com o serviço. A compatibilidade exige hardware com suporte a bandas LTE específicas e firmware atualizado. Os principais aparelhos confirmados incluem:

  • Samsung Galaxy: linha S21 em diante (incluindo S22, S23, S24, S25 e variantes Ultra, Plus e FE), Galaxy Z Flip3 a Flip6, Galaxy Z Fold3 a Fold6, Galaxy A14, A15, A16, A35, A53, A54.
  • Apple iPhone: do iPhone 14 ao iPhone 17, incluindo versões Plus, Pro e Pro Max.
  • Outras marcas: Google Pixel 9 Pro Fold, Motorola Razr 2024, Moto G Stylus 5G 2024.

A SpaceX afirma que trabalha com fabricantes para expandir a lista e otimizar modelos mais antigos.

Como ativar o Starlink no celular?

O processo varia conforme o sistema operacional, mas segue um caminho semelhante em todos os aparelhos.

No iPhone (iOS):

  • Acesse Ajustes > Geral > Atualização de Software e instale a versão mais recente do iOS;
  • Vá em Ajustes > Telefone > SOS por satélite (ou Mensagens de emergência via satélite);
  • Ative a função e siga as instruções de posicionamento, se solicitadas.

No Android (Samsung, Pixel, Motorola):

  • Acesse Configurações > Sistema > Atualização de software e atualize o sistema;
  • Vá em Configurações > Conexões > Redes móveis;
  • Procure a opção de conexão emergencial via satélite ou acesso a redes de emergência;
  • Ative o toggle correspondente.

Depois da ativação, o celular conecta-se ao satélite de forma automática quando perde o sinal terrestre. Na barra de status, aparece um identificador como "T-Mobile SpaceX" ou "T-Sat+Starlink".

O que o Starlink Direct to Cell permite fazer hoje?

O serviço evoluiu em fases desde o lançamento dos primeiros satélites em janeiro de 2024 e já concentra várias funcionalidades:

  • Mensagens de texto e SMS: disponível desde o fim de 2024, a latência fica abaixo de 10 segundos na maioria dos casos — mais lenta que o SMS terrestre, mas funcional;
  • Compartilhamento de localização e alertas de emergência: o sistema permite enviar coordenadas GPS e acionar serviços de socorro em áreas sem cobertura;
  • Chamadas de voz e uso de apps: a partir de meados de 2025, o WhatsApp passou a funcionar sobre a conexão satelital, permitindo mensagens de voz e videochamadas;
  • Chamadas de voz nativas via rede celular: entraram em fase beta no fim de 2025;
  • Dados móveis: ainda em desenvolvimento. As velocidades atuais ficam entre 2 e 10 Mbps de download e abaixo de 1 Mbps de upload, suficiente para apps de mensagem e mapas, mas não para streaming de vídeo.

O que muda com os satélites V3 e a próxima geração?

A SpaceX planeja lançar os satélites V3 a partir de maio de 2027, usando o foguete Starship. Esses satélites pesam cerca de 2 toneladas (contra cerca de 800 kg dos V2 Mini atuais) e carregam antenas com capacidade de upload de 160 Gbps, contra 6,7 Gbps da geração atual.

A meta declarada pela SpaceX no MWC é implantar cerca de 1.200 satélites V3 em seis meses após o início dos lançamentos, o que permitiria cobertura global contínua. Com a geração V3, a expectativa é que o Direct to Cell atinja velocidades de até 150 Mbps, usando a banda S de espectro que a SpaceX adquiriu com a compra da EchoStar por US$ 17 bilhões.

A aquisição do espectro próprio reduz a dependência da Starlink em relação às operadoras parceiras — um movimento que pode redesenhar o modelo de negócio do serviço.

Quando o Starlink Direct to Cell chega ao Brasil?

Até abril de 2026, o Direct to Cell não opera comercialmente no Brasil. A Anatel já autorizou 7.500 satélites da Starlink a sobrevoar o território nacional, mas a ativação do serviço no celular esbarra em duas frentes que ainda não se resolveram.

A primeira é comercial. Nenhuma operadora brasileira — Vivo, Claro ou TIM — assinou contrato com a SpaceX para o Direct to Cell. Claro e TIM conduzem testes com concorrentes do sistema, como AST SpaceMobile e Lynk, o que indica que a disputa pelo mercado D2D no país ainda está aberta.

A segunda é regulatória. A Anatel criou um sandbox para facilitar experimentos com tecnologia direct-to-device (D2D), e novas regras do Regulamento Geral de Telecomunicações, em vigor desde outubro de 2025, abriram um atalho: a Starlink pode solicitar uma outorga de Serviço Móvel Pessoal (SMP) e operar sem depender de parceria com operadoras locais, mas nenhuma empresa fez o pedido formal até agora.

O Brasil já é o segundo maior mercado da Starlink no mundo, com mais de 1 milhão de acessos de banda larga fixa via satélite. Em fevereiro de 2026, o presidente da Anatel, Carlos Baigorri, afirmou que o país reúne condições para liderar o mercado D2D na América Latina. A expectativa do setor é que as negociações avancem ao longo d ano, mas sem data confirmada.

Starlink no celular substitui a internet da operadora?

Por enquanto, não. O Direct to Cell foi criado para cobrir áreas onde torres de celular não alcançam: zonas rurais, estradas, trilhas, alto-mar, regiões ribeirinhas. Em ambientes urbanos, o sinal de satélite não atravessa bem edifícios e estruturas de concreto.

O próprio nome do serviço nos EUA, T-Satellite, sugere que é um complemento à rede terrestre. A conexão ativa quando o sinal da operadora cai, e o celular volta à rede convencional assim que encontra uma torre terrestre.

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