Tecnologia

Como a 'terceira via' da IA tenta quebrar o duopólio de EUA e China

Discussões com Índia e França ganharam destaque no VivaTech, em Paris. O debate foi acompanhado por mais de 20 C-levels brasileiros liderados pelo Grupo Publicis

Narendra Modi, primeiro-ministro indiano, é recebido por Maurice Lévy, um dos executivos mais importantes do Publicis Groupe (Crédito: Viva Tech)

Narendra Modi, primeiro-ministro indiano, é recebido por Maurice Lévy, um dos executivos mais importantes do Publicis Groupe (Crédito: Viva Tech)

Luiz Gustavo Pacete
Luiz Gustavo Pacete

Consultor de Projetos Especiais

Publicado em 22 de junho de 2026 às 08h12.

Última atualização em 22 de junho de 2026 às 08h16.

A presença do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, no complexo de exposições Paris Expo Porte de Versailles, na última semana, na capital francesa, deixou clara a importância para a Europa de um gigante oriental. Modi foi recebido pelo presidente francês Emmanuel Macron no VivaTech, um dos maiores festivais de tecnologia e inovação da Europa que, nesta edição, marcou a discussão da "terceira via da IA” e contou a presença de nomes como Jeff Bezos, da Amazon e Blue Origin.

O conceito posiciona o uso ético da inteligência artificial, a regulação e a sustentabilidade não como barreiras ao crescimento, mas como vantagens competitivas para o ambiente corporativo e a proteção da sociedade. A discussão ocorre em um momento crucial, onde Estados Unidos e China optam por uma corrida puramente focada no domínio comercial e em investimentos trilionários na tecnologia. Além de ser a parceira de IA do evento neste ano, a Índia participou ativamente dos debates sobre o AI Act, a legislação europeia pioneira que estabelece obrigações severas baseadas em níveis de risco.

Essa busca por visões divergentes e alternativas em relação ao mainstream é a própria marca registrada do VivaTech, evento criado há dez anos pelo Grupo Publicis e pelo jornal financeiro Les Echos (agora do Grupo LVMH). “É um espaço que mistura empresas, governos e sociedade civil, e isso transforma tanto os painéis quanto a feira em um grande ponto de troca, onde surgem ideias e soluções para temas que impactam todo mundo", explica Gabriela Onofre, presidente do Publicis Groupe Brasil.

O Brasil e a discussão regulatória

A executiva reforça a importância desse movimento para o mercado nacional. “Como brasileira líder de um grupo francês, vejo essa movimentação como muito positiva, até porque o Brasil costuma se inspirar na regulação europeia e no seu olhar mais responsável. Não por acaso, a Europa saiu na frente com o AI Act. Nosso país pode sim se aproximar desse modelo, mas precisa construir seu próprio caminho, considerando suas particularidades", explica Gabriela, que liderou a comitiva de 20 lideranças de marketing, negócios e tecnologia no festival.

Andrea Janér, fundadora e CEO da Oxygen, empresa responsável pela curadoria dos temas acompanhados pelo grupo, explica que o VivaTech reflete uma visão muito particular da Europa sobre o avanço tecnológico, historicamente mais focado no equilíbrio de forças do que o modelo norte-americano.

“O avanço da IA não pode acontecer a qualquer preço. É preciso ponderar os impactos que sua utilização em escala terão sobre o uso de energia, sobre a eliminação dos empregos, sobre a amplificação da desinformação e sobre a essência do que é ser humano. Não é à toa que o primeiro corpo de regras para proteger dados nasceu aqui, e até hoje a Comissão Europeia mantém uma mão forte sobre esse mercado", explica Andrea.

Segundo ela, o evento tornou-se obrigatório para o Brasil diante da necessidade de líderes e empresas em descobrir novos ecossistemas de inovação. “Pela proximidade maior com o mercado americano, acabamos subestimando o potencial da Europa, que já provou sua capacidade de escala global ao originar gigantes de tecnologia como Spotify, Klarna e Lovable”, pondera a executiva.

As reflexões para o marketing

Sob a perspectiva de quem atua em uma corporação de matriz europeia, Ionah Kochen, CMO da Nestlé e integrante da delegação, reforça o papel social das marcas nessa nova era.

"Temos a responsabilidade de liderar a conversa sobre IA sob a ótica da responsabilidade, combinando inovação com regulação, ética e confiança. Ao mesmo tempo, ganhou força no evento a agenda de democratização da tecnologia, reforçada pelo discurso do primeiro-ministro da Índia ao mostrar o impacto de soluções que já alcançam centenas de milhões de pessoas no país asiático. No fim, a mensagem que fica para as lideranças de marketing e negócios é simples: a inteligência artificial só ganha relevância real quando consegue escalar com impacto social positivo e mensurável.'

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