A Microsoft sai às compras: até onde vai o apetite de Satya Nadella?

A desenvolvedora do Windows e o pacote Office se transformou num titã do mercado de computação em nuvem nos últimos anos. E não quer parar por aí

Nadella

Num negócio de quase 20 bilhões de dólares, a Microsoft anunciou nesta segunda-feira, 12, a aquisição da Nuance Communications, empresa que utiliza tecnologias de inteligência artificial para transformar áudio em texto. Mais do que a cifra alta, o negócio chama a atenção por confirmar o novo foco da empresa que desenvolveu o Windows e programas como o pacote Office: ser cada vez mais uma empresa de serviços e dominar o mercado de computação em nuvem.

O negócio vai ajudar a Microsoft a intensificar seus negócios segmentados em diferentes indústrias que necessitam de serviços de nuvem. Neste caso em específico, o alvo são empresas do setor de saúde. Com 6.000 funcionários espalhados em operações em 27 países, a Nuance atende mais de 10.000 clientes na área, como AthenaHealth, Johns Hopkins, Mass General Brigham e Cleveland Clinic. A companhia teve receita de 352,9 milhões de dólares 4º trimestre de 2020 – queda de 9% ante 2019.

“A aquisição de hoje representa o mais recente passo da Microsoft em sua estratégia de nuvem para indústrias específicas”, informou a Microsoft em nota. Para auxiliar neste processo, o executivo Mark Benjamin, que liderava a Nuance, permanecerá na operação, mas tendo que se reportar a Scott Guthrie, executivo responsável pelo grupo de nuvem e IA.

A Nuance é uma empresa de capital aberto desde 2000, quando realizou seu IPO na Nasdaq. Por este motivo, a Microsoft informou que realizou o pagamento de 56 dólares por cada ação da empresa, 23% a mais do que o valor de cada papel no fechamento da última sexta-feira, 9. O valor total gira em torno de 19,7 bilhões de dólares, de acordo com a empresa.

A compra da Nuance foi a segunda mais alta feita pela Microsoft. O valor é inferior apenas ao desembolsado para garantir o controle do LinkedIn, a rede social focada em contatos profissionais. Em 2016, a Microsoft pagou 26,2 bilhões de dólares pela aquisição da empresa fundada por Reid Hoffman, Konstantin Guericke, Allen Blue, Jean-Luc Vaillant e Eric Ly e que ganha dinheiro com anúncios e com assinaturas premium, que garantem funcionalidades extras aos usuários.

Gigante... dos serviços

Os três casos guardam uma semelhança: a transformação da Microsoft numa empresa de serviços. E isso se deve principalmente ao diretor executivo Satya Nadella, que assumiu o comando da empresa em 2014. Funcionário da Microsoft desde 1992, ele ocupou diversos cargos até ser promovido para vice-presidente dos serviços nuvem da Microsoft – uma iniciativa que mostrava ser promissora, mas que a empresa ainda mantinha certo receio em apostar suas fichas.

O temor era compreensível. Durante anos, a Microsoft se destacou por ser uma empresa de produtos, não de serviços. Além do sistema operacional mais utilizado no planeta, a Microsoft também foi a responsável por lançar no mercado softwares do pacote Office, mensageiros como o Windows Live Messenger e até produtos físicos, como os videogames da linha Xbox. A empresa também chegou a flertar com o mercado de smartphones com a aquisição da Nokia em 2013 por 7,2 bilhões de dólares, mas fracassou de forma quase vexatória.

Mas o fato é que, em seu primeiro dia como presidente, o engenheiro de origem indiana enviou um e-mail para toda a companhia com discurso forte. “A indústria não respeita a tradição – apenas a inovação”, dizia a mensagem. Era um alerta de que as coisas iriam mudar na gigante de Redmond. Ou então a Microsoft se tornaria uma coadjuvante do acirrado mercado de tecnologia, que já contava com gigantes que ou eram mais modernas, como Google e Facebook, ou se reinventaram, caso da Apple.

O negócio cresceu de forma devastadora desde então. A companhia que valia pouco mais de 300 bilhões de dólares em 2014, agora é uma gigante de quase 2 trilhões de dólares. A receita anual que era de 77,8 bilhões de dólares em 2013 – o último ano fiscal antes de Nadella assumir o comando da empresa – dobrou. No ano fiscal de 2020, encerrado em junho do ano passado, a companhia registrou faturamento de 143 bilhões de dólares.

Mais do que um aumento de mais de 100% em relação a 2013 e de 13,6% em relação ao ano fiscal de 2019, o balanço traz outro dado interessante. Mais da metade da receita da Microsoft – 74,9 bilhões de dólares – foi obtida com serviços de nuvem, ante um valor gerado pela venda de produtos de 68 bilhões de dólares.

Mas isso não significa que a Microsoft está desistindo dos produtos, principalmente daqueles de hardware. Pelo contrário. É justamente com a venda de serviços que a companhia consegue ganhar fôlego para investir numa área cada vez mais difícil de inovar. Ao lago de rivais como Amazon, Apple e Google, a Microsoft continua projetando os seus próprios chips de processamento, por exemplo.

Fazer isso custa dinheiro. E se o caminho mais fácil para obter o combustível financeiro para a operação é com serviços, a Microsoft se mostra ainda mais disposta a apostar mais fichas na diversificação dos negócios.

De olho no mercado

Rumores no mercado ventilam a possibilidade que a Microsoft compre a startup Discord, que fornece um serviço de comunicação por voz homônimo bastante popular na comunidade gamer. Fundada em 2012 no Vale do Silício por Mikołaj Roszak e Stanislav Vishnevskiy, a companhia já recebeu quase 480 milhões de dólares em 10 rodadas de captação de investimentos.

Os aportes, feitos por investidores como Index Ventures, Greylock, Spark Capital, Tencent e Greenoaks Capital, fez com que a Discord atingisse valor de mercado especulado em 7 bilhões de dólares. Para comprar o controle da empresa, porém, a Microsoft iria precisar pagar um prêmio aos acionistas. Fontes ouvidas pela Bloomberg relatam que o negócio deve girar em torno de 10 bilhões de dólares, caso seja concretizado.

Ao que tudo indica, o Discord se tornou um alvo da Microsoft após a companhia perceber que não iria conseguir comprar as redes sociais Pinterest, de fotos e muito utilizada por aficionados com decoração, culinária e outros hobbys; e o TikTok, rival do Instagram e do Snapchat e que se tornou imensamente popular durante o último ano. As empresas estão avaliadas em 51 e 75 bilhões de dólares respectivamente, o que faria com que a Microsoft precisasse bater recordes no valor pago por suas aquisições.

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