A guerra a monopólios de tecnologia da China pode fortalecer o governo

Briga para acabar com monopólios tecnológicos no país pode terminar com um vencedor bem claro: o governo local

Por Li Yuan c. 2021 The New York Times Company

Horas depois que o governo chinês impôs uma multa recorde de 2,8 bilhões de dólares ao Alibaba, um empresário veterano da internet pediu aos reguladores que fizessem algo semelhante com o maior concorrente de sua empresa.

O Douyin, serviço irmão chinês do TikTok, está processando a Tencent, a maior empresa de internet da China, para permitir que os usuários compartilhem vídeos no onipresente serviço de mensagens WeChat, propriedade desta última.

O Alibaba, por sua vez, tentou criar aplicativos próprios dentro do WeChat, essencialmente obrigando a Tencent a dizer não.

Os processos são muitos e os ânimos estão quentes na internet chinesa, lar do maior grupo único de usuários do mundo. No fim do ano passado, Pequim deixou bem clara sua seriedade em restringir o poder de um punhado de empresas que dominam a vida online na China. Agora, as empresas de internet do país estão se curvando a Pequim e tentando fazer com que seus rivais pareçam ruins, em vez de corrigir o próprio comportamento anticoncorrencial.

Se a campanha do governo chinês para extinguir monopólios funcionar, os consumidores do país se beneficiarão. Mas a batalha real entre as empresas pode acabar fortalecendo ainda mais o governo chinês, que já mantém forte controle sobre o conteúdo online. Isso poderia fazer do Partido Comunista, que controla o governo e o sistema judicial, o árbitro final em relação à indústria. Não seria a competição que decidiria os vencedores, mas Pequim.

A Big Tech americana tem rixas próprias, como a que se intensifica entre o Facebook e a Apple. Às vezes, essas disputas envolvem o governo, como a disputa da Microsoft e do Google no Congresso dos Estados Unidos. Mas nenhuma dessas empresas tenta fazer do governo americano o árbitro final do futuro de sua indústria.

O governo chinês tem boas razões para controlar o poder das empresas de tecnologia. Estas desenvolveram a infraestrutura digital que se tornou essencial para o dia a dia chinês, incluindo compras, bancos, restaurantes e entretenimento. Não alcançaram seus resultados só por inovar — construíram também muros altos e fossos largos.

Durante anos, o Alibaba impediu que os comerciantes que usassem seus serviços, como o bazar online Taobao, vendessem seus produtos em outras plataformas de compras. O aplicativo WeChat da Tencent, que tem 1 bilhão de contas ativas, não permite que os usuários compartilhem links de mercadorias do Taobao ou vídeos curtos do Douyin. O Meituan, aplicativo dominante de entrega de refeições da China, elevou as taxas de comissão para restaurantes que se recusaram a assinar acordos de exclusividade. A primeira página de resultados do mecanismo de busca Baidu é muitas vezes preenchida com links para sites controlados por... Bem, adivinha quem.

As mesmas limitações podem ser encontradas entre as startups. Uma vez que seus fundadores aceitam o investimento da Tencent, têm geralmente de concordar em não buscar investimentos do Alibaba. E vice-versa.

A indústria da internet também está bastante concentrada nos Estados Unidos, mas não como na China. Imagine um mundo em que, se você está vendendo um produto na Amazon, só pode anunciá-lo na Amazon, não no Google.

"Quando as plataformas acumulavam um grande número de usuários e tráfego online, podiam fazer as próprias regras. Os usuários lutaram em vão no início. No fim, acostumaram-se com a situação, assim como uma rã sendo fervida viva lentamente", disse um comentário no jornal oficial Diário Econômico.

As empresas de internet da China também se acostumaram a recorrer a Pequim. Seus dados e suas redes ajudam o governo a vigiar a população; seguem diligentemente as diretrizes oficiais de censura e ajudam a mídia estatal na divulgação de propaganda. Tornaram-se parte integrante da máquina de controle social do Partido Comunista. A Tencent e o Baidu não quiseram comentar, e o Alibaba não respondeu a um pedido de comentário.

Com o aceno do movimento antitruste do governo, elas poderiam se tornar ainda mais servis. Em abril, a Tencent anunciou um fundo de 7,7 bilhões de dólares dedicado ao que chamou de "inovações sustentáveis de valor social". Esse montante financiaria projetos envolvendo educação, neutralidade de carbono e revitalização de aldeias rurais, alguns dos temas favoritos do partido. Online, comentaristas elogiaram a Tencent por sua política hábil. No Weibo, um deles brincou que a Tencent estava pagando sua multa antitruste antecipadamente.

O Alibaba costumava ser o mais desafiador nas negociações com os reguladores, que antes faziam vista grossa quando o gigante do comércio eletrônico intimidava seus concorrentes e fornecedores menores. Em outubro, Jack Ma, cofundador do Alibaba, acusou publicamente os reguladores chineses de ser obcecados demais pela contenção de riscos financeiros. Dias depois, as autoridades cancelaram a oferta pública inicial do Ant Group, afiliado financeiro do Alibaba.

A atitude do Alibaba agora não poderia ser mais diferente. Depois que o regulador impôs a multa antitruste de US$ 2,8 bilhões, a empresa divulgou que "sinceramente aceita a penalidade e garantirá o cumprimento da determinação". Ma desapareceu dos holofotes desde outubro.

Ainda assim, falar é barato, e as plataformas pouco fizeram para mostrar que estão se abrindo. A Tencent e o Alibaba, por exemplo, podem começar permitindo os aplicativos de pagamento um do outro em seus serviços. Essa atitude beneficiaria os consumidores e mostraria que as empresas são sérias na obediência à lei, além de também amenizar as atitudes do governo.

No entanto, até agora, nenhuma dessas empresas anunciou movimentos substanciais para corrigir práticas anticoncorrenciais. Em vez disso, elas estão manobrando pelos corredores do poder.

Yao Jingbo — fundador e executivo-chefe da 58.com, um tipo de serviço de vendas pessoais associado à Tencent, que exibe anúncios de empregos e imóveis — pediu aos reguladores que multassem seu maior concorrente da mesma forma que multaram o Alibaba. Os críticos atacaram, alegando que o 58.com prosperou comprando a concorrência ou se unindo a ela, e que não é melhor que seu rival.

Um comentário no Weibo: "É o roto falando do esfarrapado."

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