Tecnologia

76% das redes brasileiras da DE-CIX já operam em alta capacidade para IA

Darwin da Costa, diretor regional da operadora alemã, diz que demanda por portas de 100 GE mostra avanço do Brasil em interconexão, nuvem e inteligência artificial

André Lopes
André Lopes

Editor de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 8 de junho de 2026 às 17h41.

O Brasil chegou a 76% das redes conectadas à DE-CIX operando com portas de 100 GE, padrão de alta capacidade usado para ampliar o tráfego de dados em larga escala. O dado faz parte do Relatório Anual 2025 da companhia, que atua como operadora de IXs, que são os pontos de troca de tráfego da internet, e indica uma aceleração da infraestrutura digital brasileira em meio à maior demanda por IA generativa e cloud computing, computação em nuvem.

A leitura da empresa é que o país deixou de ser apenas um mercado que acompanha tendências globais para adotar, em ritmo mais rápido, estruturas de ultra-alta capacidade.

"A DE-CIX descreve esse movimento como salto de etapa quando um mercado pula fases intermediárias de adoção tecnológica e passa diretamente para padrões mais avançados", afirma Darwin da Costa, diretor regional da DE-CIX.

Segundo o executivo, a demanda não se concentra em apenas um tipo de cliente. Operadoras de rede, que atendem milhares de usuários finais, tendem a consumir capacidade de forma contínua. Já empresas de setores como financeiro, automotivo e entretenimento buscam conexões flexíveis para projetos específicos, picos de audiência ou acesso a diferentes provedores de nuvem.

Em três meses, o país conectou 41 redes de alta performance à infraestrutura da empresa, ritmo que a DE-CIX diz superar sua média global. Para a companhia, esse avanço mostra que parte do mercado brasileiro tenta antecipar gargalos antes de uma nova onda de aplicações intensivas em dados.

“Isso demonstra que o Brasil não é só um mercado maduro do ponto de vista de interconexão e referência de internet mundial, mas também que está se preparando para muita coisa que vem aí, especialmente com workloads periódicos, treinamento e inteligência artificial”, diz Darwin.

Portas de 100 GE, sigla para 100 Gigabit Ethernet, permitem transportar volumes maiores de dados entre operadoras, provedores de conteúdo, plataformas digitais e serviços corporativos. Na prática, esse tipo de conexão ajuda a reduzir congestionamentos e melhora a resposta de serviços que dependem de baixa latência, tempo de resposta entre sistemas.

O avanço também está ligado ao crescimento do uso de nuvem por empresas brasileiras, especialmente em segmentos que dependem de estabilidade e resposta rápida. Darwin cita fintechs, empresas de tecnologia financeira, como um dos grupos que têm aumentado a contratação de múltiplas conexões de 10 GE, usadas para acessar diferentes ambientes de nuvem com maior flexibilidade.

São Paulo-Nova York reforça papel do Brasil como hub regional

Outro ponto destacado pela DE-CIX é a consolidação do corredor de dados entre São Paulo e Nova York. A rota conecta o maior mercado digital da América Latina a um dos principais centros financeiros e tecnológicos do mundo, o que pode reduzir a dependência de caminhos mais longos para aplicações consumidas em tempo real.

A empresa afirma que o Brasil já funciona como hub, centro regional de conexão, para parte relevante do tráfego digital da América Latina. Esse papel é reforçado pela presença de data centers, centros de processamento de dados, em diferentes localidades do país e pela existência de rotas redundantes entre redes.

A empresa também vê diferença entre capacidade instalada e uso efetivo dessa infraestrutura. Após a pandemia, parte das operadoras passou a trabalhar com folga de capacidade, o que pode ser negativo em termos de eficiência financeira, mas ajuda a absorver eventos com picos de audiência, como competições esportivas, transmissões ao vivo e grandes volumes de vídeo.

Darwin cita a parceria global da DE-CIX com a Google como exemplo de mudança na forma de distribuir conteúdo. Segundo ele, em períodos de alto consumo, como o Carnaval, parte relevante do tráfego do YouTube passou a ser entregue localmente, com foco em qualidade e latência para usuários brasileiros.

No cenário global, a DE-CIX reportou receita de € 70,9 milhões no ano fiscal de 2025. A companhia também registrou crescimento de 120% na adoção de portas de 400 GE e lançou a primeira porta de 800 GE em Frankfurt, na Alemanha, em um sinal da escalada internacional por redes de maior capacidade.

Para o Brasil, o avanço técnico ainda depende de fatores fora da camada de interconexão. O executivo cita regulação, investimentos em novos data centers, cabos submarinos e substituição de ativos próximos ao fim da vida útil como temas necessários para sustentar a expansão. A avaliação da empresa é que impasses regulatórios podem atrasar decisões de investimento e reduzir a velocidade de crescimento do setor.

A DE-CIX afirma que sua operação brasileira ainda está em fase inicial e, por isso, não detalha resultados financeiros por país. Mesmo assim, a companhia diz que o Brasil deve ganhar peso no desempenho internacional do grupo, hoje próximo de 30% da receita fora do mercado doméstico.

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