Vittorio Danesi, CEO da Simpress: empresa administra 850.000 equipamentos de TI para locação (Leandro Fonseca/Exame)
Repórter de Negócios
Publicado em 27 de maio de 2026 às 06h00.
Para o administrador de empresas Vittorio Danesi, o futuro é um lugar onde quase nada terá dono. Carros, computadores, ferramentas: tudo vai deixar de ser comprado para ser alugado, contratado, assinado. Ele não poderia estar mais animado com isso.
A lógica de um serviço no lugar da posse já reorganizou setores inteiros. O filme saiu do DVD para o streaming, o software deixou a caixa para virar mensalidade, o data center virou nuvem.
O ensaio do Fórum Econômico Mundial de 2016 profetizando que “você não terá nada, e será feliz” virou realidade e hoje movimenta 1,5 trilhão de dólares. Agora, chegou a vez dos equipamentos corporativos: do celular ao computador do funcionário. E Danesi já estruturou uma empresa inteira para atender a essa demanda.
Ele é fundador e CEO da Simpress, hoje o melhor exemplo brasileiro dessa tese. Fundada em 2001, a companhia paulista faz outsourcing. Em bom português, aluga aos clientes a infraestrutura de tecnologia, como notebooks e tablets, embrulhada numa camada de serviços, da manutenção à logística reversa. Nesse modelo, o cliente não compra a máquina nem se preocupa com ela.
Só paga uma mensalidade e deixa a gestão (e os problemas) com a empresa de Danesi. Não há proposta mais sedutora para as empresas, ainda mais falando de um dos setores que mais geram dor de cabeça no dia a dia. A prova está nos números. Nos últimos seis anos, a Simpress praticamente triplicou de tamanho: saiu de uma receita de 600 milhões de reais em 2019 para 1,8 bilhão de reais em 2025, com mais de 850.000 equipamentos sob gestão e 3.200 clientes, como as varejistas Cobasi e Havan e a indústria de alumínio Alcoa. A meta agora é cruzar a marca dos 2 bilhões de reais até 2027.
Os bons números dos últimos anos vieram de uma virada de página. Em 2013, com a empresa ainda dedicada exclusivamente a impressoras, Danesi enxergou um problema no horizonte: a transformação digital reduziria o volume de páginas impressas, e o negócio principal seria atacado pela própria evolução do mercado.
A primeira resposta foi tratar a Simpress como uma “empresa de documentos” e testar serviços ao redor dessa ideia, da digitalização à gestão eletrônica dos papéis. “O mercado achava tudo interessante, mas não comprava quase nada”, diz.
A virada de verdade veio em 2019, quando a companhia abandonou o conceito e se redefiniu: não era uma empresa de documentos, era uma empresa de gestão de dispositivos de TI. Se já fazia outsourcing de impressoras, poderia fazer também de computadores, notebooks e celulares. As primeiras ofertas das novas verticais saíram em outubro de 2019. Em março de 2020, veio a pandemia. Com os escritórios vazios, ninguém imprimia. A demanda por equipar funcionários em home office, na contramão, explodiu na mesma proporção. O timing não poderia ter sido melhor.
Perceber a hora de agir, ou de recuar, não é uma habilidade recente na vida de Danesi. Filho de italianos, ele cresceu dentro da indústria de tecnologia antes mesmo de ela existir como a conhecemos. O pai era executivo da Olivetti, um gigante italiano de tecnologia conhecido no Brasil pelas máquinas de escrever. A família passou por México, França e Itália antes de aportar no Brasil, em 1975 — logo quando o governo fechou o mercado de informática à concorrência estrangeira. A Olivetti precisou recuar. A família decidiu fincar raízes por aqui.
Já formado, Danesi ingressou na área comercial de uma das primeiras fabricantes nacionais de microcomputadores e viu um setor inteiro nascer no país. Empreendeu na sequência: abriu a TCE, indústria de monitores com fábrica em Manaus. O negócio escalou rápido ao fechar um contrato para fornecer as telas dos computadores da americana Compaq. Esmoreceu na mesma velocidade quando a parceira trocou a TCE pelas recém-chegadas Samsung e LG.
“O contrato com a Compaq representava 60% do meu faturamento. Foi quando entendi que não podia depender tanto de um único cliente”, diz. Danesi liquidou o negócio antes da falência. A lição sobre concentração — e sobre a hora de agir — ficou. Em 2001, com o mercado aberto e as impressoras multifuncionais ganhando escala pelo mundo, fundou a Simpress, hoje líder de mercado.
Oficina de reparo de equipamentos da Simpress em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo: 3.000 computadores seminovos por mês (Leandro Fonseca/Exame)
Administrar esse negócio, porém, é caro e exige fôlego permanente. Só para 2026, a Simpress prevê investir 750 milhões de reais, quase tudo na compra de dispositivos, com a entrada de novos grandes clientes. É um modelo dificílimo e, se mal gerido, devora o caixa. “A empresa paga o equipamento à vista e o recebe de volta diluído na mensalidade ao longo de contratos de, em média, 60 meses”, diz Reinaldo Sakis, da consultoria de tecnologia IDC no Brasil.
Sem uma retaguarda robusta — saber onde está cada uma das 850.000 máquinas, faturá-las, mandar peças, recolher, repor —, a margem apertada vira prejuízo. Para se blindar, a Simpress conta com a força de um gigante. Em 2015, foi comprada pela -Samsung e, desde 2017, pertence ao grupo HP. Hoje, praticamente todos os computadores e impressoras geridos pela Simpress são da marca, num arranjo curioso: quando a HP comprou a divisão de impressoras da Samsung, herdou junto a Simpress. O negócio já era tão consolidado no Brasil que acabou incorporando o braço de outsourcing da própria dona, e não o contrário.
Ter uma companhia de 55 bilhões de dólares por trás dá lastro em um mercado ainda em formação. E o mercado, segundo a IDC, vive um momento decisivo. “No pós-pandemia, surgiram centenas de empresas oferecendo outsourcing de computador e celular”, diz Sakis, da IDC. “Mas a gestão de custo é muito complexa. Quem não tem esse know-how apurado não se sustenta”, afirma. O mar azul aberto na pandemia já secou. Hoje, o jogo se concentra em seis nomes, como a Simpress, a Voke e a Positivo Tecnologia, cuja operação de locação de notebooks cresce a 58,1% ao ano, em média.
Streaming de música Spotify: setores como audiovisual, musical e automotivo já passaram pela transformação que prioriza a assinatura em vez da posse de um bem (Spencer Platt/Getty Images)
Para equilibrar investimento e custo, a Simpress busca ganhar dinheiro além da locação. A estratégia central é agregar camadas de serviço sobre o contrato básico — são mais de 30 disponíveis, da sanitização de dados, apagando tudo quando um computador é devolvido, à geolocalização dos equipamentos. Há também um programa de neutralização de carbono, contratado por mais de 90% dos clientes. No médio prazo, a principal aposta está na sobrevida dos equipamentos. Um computador usado por quatro anos numa empresa pode voltar, ser restaurado e seguir para outra companhia que não tenha necessidade de uma máquina tão potente.
A Simpress mantém em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo, um centro de remanufatura com capacidade para recuperar 3.000 equipamentos por mês, e acaba de abrir uma loja online para vender aparelhos seminovos ao consumidor final. Um notebook zerado de 5.000 reais pode custar metade disso. O projeto ainda responde por uma fração pequena do faturamento, mas Danesi prevê um salto nos próximos quatro anos, quando os contratos hoje em vigor começarem a girar e a devolver máquinas em escala.
Fábrica de impressoras da HP: gigante americano é dono da Simpress desde 2017 e fornece computadores e impressoras à empresa (HP/Divulgação)
O desafio do próximo capítulo, porém, é outro: levar esse modelo para fora do Brasil. O outsourcing brasileiro de equipamentos de TI, com seu cardápio largo de serviços, é praticamente um produto local, moldado pelas peculiaridades da economia do país. Com a taxa Selic em 14,5%, tomar crédito para a compra de máquinas custa caro, e as peças importadas pesam no custo final. Em mercados como o americano, a equação se inverte. A taxa básica de juros nos Estados Unidos está entre 3,5% e 3,75%, e o financiamento de equipamentos é uma indústria consolidada — quase qualquer empresa consegue parcelar a compra a um custo baixo no modelo chamado leasing. Por ali, bancos das próprias indústrias financiam a compra, e o cliente escolhe se vai ficar com o equipamento no final das prestações, ou trocar por um novo. “Na América do Norte e na Europa, o leasing é muito forte. Na Ásia, a cultura de ter o próprio equipamento é predominante”, diz Sakis, da IDC. “O modelo desenvolvido aqui tem força na América Latina, e tem mostrado excelentes resultados, principalmente no Brasil.” A boa notícia: há muito mercado local a ser ganho. Dos 3,5 milhões de computadores vendidos ao mercado corporativo todos os anos, apenas 12% são contratados no modelo de outsourcing — o restante ainda é compra tradicional. “Dá para chegar a 30% do mercado. A oportunidade é enorme”, diz Danesi. É ali que está o futuro da Simpress e do empresário. Ele não poderia estar mais animado.