Um olhar para dentro de casa: mudanças no estilo e decoração do lar

Depois do isolamento, a decoração de casa virou cada vez mais um espelho da personalidade de seus moradores, com a presença de peças antigas garimpadas ou obras de arte digitais
Sofia Oliveira: com a pandemia, ela viu crescer a procura por cursos de cerâmica e criou uma escola (Leandro Fonseca/Exame)
Sofia Oliveira: com a pandemia, ela viu crescer a procura por cursos de cerâmica e criou uma escola (Leandro Fonseca/Exame)
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Julia StorchPublicado em 13/10/2022 às 06:00.

É curioso entrar na casa de um vizinho de prédio e perceber que, embora os ambientes do apartamento sejam idênticos ao seu, a decoração é capaz de transformar totalmente os espaços.

Assim como escolher roupas define o estilo de cada pessoa, decorar a casa também é um jeito de expressar a personalidade dos que habitam o espaço. Pode ser garimpando peças de outras décadas, construindo os próprios objetos ou comprando uma arte digital única.

“Todo mundo quer se autoexpressar e mostrar suas características como ser individual”, comenta Liliah Angelini, gerente e especialista de tendências da WGSN Brasil.

Os dois últimos anos também foram significativos na relação com o lar, muitas vezes com adaptações feitas às pressas para reconfigurar os cômodos em escritório, sala de aula, restaurante e bar. A fuga dos ambientes sociais para dentro de casa acelerou tendências e criou hábitos. “O ‘do it yourself(DIY), por exemplo, é um comportamento que foi muito alavancado pela pandemia como um todo.

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Afinal, fazer você mesmo acaba sendo um recurso muito interessante, porque é uma forma de o consumidor se autoempoderar em relação à sua própria casa e ao seu próprio espaço”, diz Angelini. Confira a seguir algumas tendências em morar bem.


Faça você mesmo

Como uma forma de escape, momentos lúdicos e estimulantes se tornaram frequentes nas rotinas. Seja modelando com as próprias mãos um simples vaso, seja modelando um elegante jogo de louças para sushi para receber os amigos em um jantar em casa.

­Essas são algumas das possibilidades de cursos disponíveis no ateliê Olive Cerâmica, criado pela publicitária e ceramista Sofia Oliveira, que com a pandemia viu um boom de encomendas por peças e na curiosidade por aulas.

Em março deste ano, após a mudança para um ateliê maior, Oliveira decidiu expandir seu conhecimento e criar uma escola de cerâmica. “Sinto que as pessoas estavam com ansiedade por fazer coisas novas e manuais”, comenta a ceramista.

No espaço no bairro da Pompeia, em São Paulo, é possível fazer cursos de modelagem temáticos, que não precisam do torno elétrico, como louças para café da manhã e sushi, ou então cursos mais longos, com torno, para quem deseja se especializar na área. “A maioria das pessoas procura as aulas para ter um hobby ou experimentar possibilidades”, diz a ceramista que viu crescer a procura por louças de cerâmica.


Decoração com algoritmo

Espaço Zero: bolinhas de gude, garrafas e vasos são algumas das peças que os alunos podem criar com vidro (Leandro Fonseca/Exame)

As redes sociais têm um papel cada vez maior na transformação dos interiores. Quem nunca se deparou com vídeos de obras que transformam um cômodo apagado em um showroom espetacular em poucos segundos e se sentiu atiçado a pelo menos pintar uma parede?

Segundo Angelini, a tendência do “faça você mesmo” atravessa diferentes gerações, das reformas complexas à criação de pequenos objetos. “É interessante, porque isso chega também para as gerações mais novas, que começam a olhar para peças que podem ser feitas por elas mesmas para decorar sua casa”, comenta.

No TikTok, por exemplo, a hashtag #tufting, uma técnica de tapeçaria feita com uma pistola que crava pontos de lã, conta com mais de 2,9 bilhões de menções na rede social. “O foco realmente está em transformações e atualizações estéticas mais rápidas, com materiais simples e de forma fácil e descomplicada”, pontua a especialista.

Além das redes sociais, o streaming também teve uma forte influência nos cursos do ­Espaço Zero, em São Paulo. Após o lançamento em 2019 do reality show americano Vidrados, na Netflix, em que competidores são desafiados a desenvolver peças de vidro, o espaço de Elvira Schuartz passou de cinco alunos por ano para cinco alunos por mês matriculados no curso que ensina a técnica de sopro em cana.

No quintal da casa, que também é escola, ateliê e galeria, no bairro do Pacaembu, estão fornos que atingem mais de 1.000 graus Celcius e que, com o sopro certo na cana, transformam caquinhos em peças de vidro. Por lá, é possível criar de bolinhas de gude, garrafas e vasos ao que os alunos desejarem. A artista conta que, recentemente, para o casamento da filha, uma mãe decidiu criar porta-guardanapos e copos como lembrancinhas da festa. “Todo mundo é criativo”, diz a artista no espaço decorado com diferentes esculturas e peças de vidro.


A força do antigo

Jardin Velharia: peças do antigo café no centro de São Paulo começaram a ser vendidas online, dando origem a uma nova marca (Divulgação/Divulgação)

De uma peça que acaba de sair do forno ao garimpo. Outra tendência crescente no mercado de decoração são os móveis de segunda mão. “Essa tendência já estava crescendo antes da pandemia, mas agora o consumidor começa a olhar mais para o consumo hiperlocal, principalmente em relação à sustentabilidade e à autenticidade das peças”, diz Angelini.

Entre os maiores consumidores de móveis de segunda mão estão os millennnials, que procuram por peças mais acessíveis, mas que, ainda assim, tenham alta qualidade e representem também o seu estilo pessoal.

O garimpo sempre esteve presente na vida de Mariana Wakim, que já na infância procurava por roupas nos armários dos avós, até trabalhar no Enjoei, site de revenda de peças de segunda mão. Ao passar mais tempo em casa durante a pandemia, Wakim começou um novo hobby: comprar tapetes e ocupar todos os cômodos da casa com as tapeçarias.

“Conversando com meu marido, decidimos fazer um Instagram com curadoria das peças, mostrar os estilos que existem e revender os achados”, conta, sobre o surgimento da marca de tapetes second hand Tapilogie. Todas as peças são garimpadas no Brasil, mas têm origem de outros países, como Irã, Afeganistão, Índia e Turquia.

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Para Mariana, a pandemia transformou a casa em um lugar em que muitas coisas podem acontecer. “E as pes­so­as quiseram construir um lugar novo”, diz. A curadora vê no garimpo de móveis a oportunidade de montar um espaço com muita personalidade e história.

“A maioria dos clientes compra pela internet. Gosto dessa espontaneidade de garimpar e montar a decoração aos poucos”, diz. Recentemente, com o sucesso da novela da Globo, o tema pantaneiro chegou ao site, que agora revende tapetes com estampa de onça. Às quartas-feiras são divulgados os garimpos da semana no perfil do Instagram da marca.

Tapilogie: a curadoria de tapetes foi criada a partir de peças garimpadas por Mariana Wakim durante a pandemia (Mariana Wakim/Divulgação)

“A categoria de móveis para revenda online tem uma projeção de crescimento de mais de 50% nos próximos três anos, inclusive com a perspectiva de crescer mais rápido do que o varejo físico”, comenta a especialista da WGSN Brasil.

O investimento em mobiliário second hand também foi uma alternativa nos negócios de Jean Manuel e Ina Amorozo, que mantinham no bairro de Santa Cecília, em São Paulo, a cafeteria e floricultura Jardin do Centro. A decoração do ambiente era voltada para o passado, com móveis de fórmica e armarinhos de ferro, “uma proposta de casa de vó”, como define Manuel.

Com o fechamento do espaço, em maio de 2020, a alternativa foi reforçar o garimpo das peças e revendê-las online com o novo empreendimento Jardin Velharia. “Nosso consumidor pertence à classe A, tem entre 25 e 45 anos e carrega alguma memória afetiva da casa dos pais ou dos avós. A nossa curadoria é muito focada nessas peças, que são reflexos das memórias”, comenta.

Entre mesas, cadeiras, bufês, namoradeiras e estantes, atualmente o site conta com 200 peças disponíveis e 100 em restauração. “Ainda que móveis novos façam parte de um movimento muito bacana do design nacional, muitas vezes não são produzidos em larga escala, o que acaba sendo um investimento muito alto para os consumidores. Já os móveis antigos estão preenchendo uma lacuna do design assinado, que proporciona uma oportunidade interessante para o consumo de peças mais populares de décadas passadas”, comenta Manuel. “A tendência do new retrô é uma forma de celebrar não só a individualidade mas também a singularidade entre as peças”, diz Angelini.

O mercado de revenda online também é uma forma de democratizar o acesso a peças que possivelmente seriam difíceis de ser encontradas em algumas regiões do país, seja garimpando no showroom físico, seja no Instagram.


A decoração no metaverso

Mesa Time Table na versão digital criada pelo designer argentino Andrés Reisinger (Divulgação/Divulgação)

Da casa dos avós para a casa do futuro, o mercado de decoração também tem um pé no metaverso, que até 2030 vai representar mais de 10% do mercado de bens de luxo. “Esse tipo de tendência vai se desdobrar de uma forma muito fechada, obviamente focando o mercado de luxo. Não há como isso ser massificado, principalmente nos próximos cinco anos”, comenta Angelini.

Entre as peças, a especialista cita quadros com interações por gestos. “Como se você visse uma arte ou um quadro que possibilita a interação da pessoa com ele”, diz. No curto prazo, o desdobramento digital estará presente nas cores, no material e nos acabamentos e depois em objetos para uma casa conectada.

Além do garimpo e da criação de peças DIY, a exclusividade também transita entre os ambientes digital e físico, sendo possível decorar ambos os espaços com o mesmo móvel. É o caso das criações feitas pelo designer argentino Andrés Reisinger, que leiloou por 450.000 dólares dez peças NFTs para decorar espaços virtuais, sendo o móvel digital mais caro arrematado por 70.000 dólares.

A exclusividade foi além, com a materialização de cinco peças virtuais em móveis físicos, incluindo a cadeira com rodinhas Abba e a mesa minimalista cor-de-rosa Time Table. Dessa forma, parece cada vez mais difícil ter um apartamento parecido com o do vizinho.