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Um líder e seu tempo

O empresário Antônio Ermírio de Moraes, do Grupo Votorantim, líder inconteste do empresariado por décadas, marcou a história do país. Algumas de suas obsessões continuam na ordem do dia

São Paulo - O empresário Antônio Ermírio de Moraes, morto aos 86 anos, na noite de 24 de agosto, foi o maior expoente de uma era em que o Brasil crescia a passos largos.

Ele foi um dos últimos capitães da indústria, como eram chamados os homens que, durante boa parte do século 20, construíram impérios empresariais em uma economia brasileira alimentada pelo sonho de fazer tudo domesticamente. Seu perfil de empreendedor obstinado, espartano e focado na gestão o transformou na maior referência do empresariado.

Quando Antônio Ermírio falava, era como se representasse todos os empresários do país. Na esfera mais ampla, era reconhecido por seu papel de filantropo e por se expressar publicamente sobre questões nacionais.

“Foi crítico ao regime autoritário”, diz o consultor econômico Gesner Oliveira. “Seu posicionamento serviu, e ainda serve, de paradigma em um país em que os empresários quase nunca assumem posições políticas.” 

O Grupo Votorantim, liderado por ele desde 1962, foi um dos mais bem-sucedidos em surfar as ondas de crescimento do Brasil nas décadas de 50, 60 e 70. A Votorantim espalhou pelo país fábricas de cimento e metais para suprir um mercado que demandava insumos para a urbanização e a construção de estradas e hidrelétricas.

A batalha de Antônio Ermírio para trazer ao Brasil a produção de alumínio, no início dos anos 50, foi uma saga. Passou por entraves para a obtenção de tecnologia, pela montagem fracassada de uma primeira fábrica e pelo reerguimento à custa de dívidas que, ao ser cobradas duramente, fizeram dele por anos um inimigo visceral dos banqueiros.

O empreendedor venceu as dificuldades e multiplicou o tamanho da empresa iniciada em 1918 por seu avô com uma tecelagem no interior paulista. “

Ele despontou em um cenário em que o Brasil estava criando planos nacionais de desenvolvimento”, diz Paulo Rabello de Castro, sócio da RC Consultores. “Apesar da mão forte do Estado, havia espaço para a livre-iniciativa, e Antônio Ermírio soube fazer ­suas empresas crescer com os grandes projetos.” Nos anos 70, os investimentos em infraestrutura equivaliam a 5% do PIB ao ano — hoje estão em 2%.

A eficiência na gestão levou a Companhia Brasileira de Alumínio a despontar como Empresa do Ano na edição de 1983 de Melhores e Maiores, de EXAME. Anos depois, em 2000, o grupo seria novamente destacado com o prêmio de Empresa do Ano entregue à Votorantim Cimentos.

A morte de Antônio Ermírio coincide com um momento em que o setor industrial no Brasil estagnou nos níveis de sete anos atrás. O próprio Grupo Votorantim fechou 2013 com prejuízo de 50 milhões de dólares, para receitas de 27 bilhões, que o situam como o 17o do país na lista de Melhores e Maiores.

Ao mesmo tempo, a economia brasileira ganhou complexidade. A área de serviços responde agora por dois terços do PIB, e o agronegócio é nosso motor mais vigoroso. 

As mudanças pelas quais o Brasil passou explicam em parte por que hoje não há mais líderes como foi Antônio Ermírio em seu auge. “Hoje não cabe mais uma visão de país fechado”, diz Luiz Chrysostomo de Oliveira Filho, diretor do centro de estudos econômicos Casa das Garças.

“O Brasil tem de fazer parte das cadeias globais para aumentar a produtividade.” Ou seja, o ideal nacionalista soa hoje antiquado. Outra visão de Antônio Ermírio, porém, continua atualíssima. “Temos de estudar mais”, disse ele numa entrevista a EXAME.

“Acompanhar com mais atenção as novas técnicas de gestão e procurar ter índices de produtividade compatíveis aos que existem lá fora ou até melhores.” Servia para seu grupo. E serve para o país.

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