Três evidências de que o Brasil atual não pode dar certo

Três evidências de como somos governados: a prisão do tesoureiro do PT, a busca de um cargo para um ex-ministro e a queda do Brasil no ranking de tecnologia

	 Vaccari: o segundo tesoureiro do PT preso
 (Ueslei Marcelino/Reuters)
Vaccari: o segundo tesoureiro do PT preso (Ueslei Marcelino/Reuters)
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J.R. GuzzoPublicado em 22/04/2015 às 18:08.

São Paulo — Flagrantes da vida pública no Brasil no mês de abril de 2015:

1. O tesoureiro

O tesoureiro nacional do partido que controla o governo há 12 anos acaba de ser preso por envolvimento serial com denúncias de corrupção. Trata-se, possivelmente, de um caso único no mundo — tesoureiros nacionais de partidos no poder não vão para a cadeia nunca, seja porque operam em ditaduras, onde por definição são eles que mandam prender os outros, seja porque simplesmente não roubam, no caso de países democráticos.

“Grande coisa”, poderia dizer o cidadão que acompanha o noticiário político. “Esperar o quê?” Entende-se perfeitamente esse tipo de fleuma, na tempestade contínua imposta pela corrupção à vida pública de hoje; episódios como as prisões por corrupção de gente ligada diretamente ao governo se tornaram o pão de cada dia no Brasil contemporâneo.

Mas, neste último caso, verifica-se que o personagem enviado à carceragem da Polícia Federal em Curitiba, onde se processam as investigações centrais sobre a ladroagem aparentemente ilimitada na Petrobras, é o segundo tesoureiro nacional do PT, em seguida, que tem de deixar o cargo porque foi para o xadrez.

Não pode ser normal. Ou o partido do governo, de caso pensado, escolhe seus tesoureiros pela capacidade que demonstram para enrolar-se com a Justiça, ou não presta a menor atenção no exame de seus antecedentes.

Conclusão: o país está sendo governado, há muito tempo, por forças que têm uma fé absoluta nas vantagens de agir contra a lei no exercício da função pública. Não existem níveis seguros para o consumo desse tipo de substância tóxica.

2. O ministro

Muito pouca gente neste país sabe quem é o cidadão que foi nomeado 13 meses atrás para o cargo de ministro do Turismo; não se pode dizer nem mesmo que seu nome caminha rapidamente para ser esquecido, já que nunca chegou a ser lembrado em sua curta e anônima passagem pela função.

Mas aí é que está: o homem tornou-se o centro involuntário de uma das questões decisivas ora em de­bate na capital da República. O presidente do Senado, Renan Calheiros, que o nomeou ministro do Turismo e hoje de­sempenha papel-chave na condução de nossos destinos, está empenhado em arrumar outro emprego para ele — e o senador Calheiros tem se mostrado particularmente difícil em aceitar as sucessivas ofertas que o Palácio do Planalto vem fazendo para resolver a vida de seu protegido.

O episódio é uma lição admirável a respeito de como se administra o serviço público no Brasil de hoje. Jamais se soube que mérito específico o correligionário de Calheiros teria para gerir o turismo nacional, mas, pela quantidade e variedade de propostas que lhe vêm sendo feitas, deve ser um verdadeiro gigante na ciência da administração.

Ele parece servir para tudo. Seu nome já foi sugerido para dirigir as obras contra a seca, cuidar de aeroportos na Infraero, gerir o desenvolvimento do Vale do São Francisco, administrar safras agrícolas na repartição encarregada do abastecimento nacional, ir para a diretoria de algum banco estatal e só Deus sabe o que mais; nada disso, até agora, satisfez as expectativas do presidente do Senado. É desse jeito, precisamente, que somos governados na vida real. Não há o menor risco de dar certo.

3. Os rankings

Uma espiada rápida nas informações mais recentes sobre a economia brasileira mostra, entre tantos outros, dois exemplos bem interessantes do que o desgoverno está fazendo com o país.

O Brasil, sétima ou oitava maior economia do mundo, caiu em 2014 para o 25º lugar na lista dos principais exportadores — conseguimos ficar atrás da Malásia ou da Tailândia, com o pior desempenho do ano entre os 30 países que mais exportam.

As realidades são ainda piores na área vital da tecnologia da informação: entre 140 países, o Brasil está em 84º lugar no aproveitamento e no acesso aos benefícios do computador. É aonde se chegou após 12 anos seguidos de falatório sobre “inclusão digital” e a entrada das massas brasileiras no paraíso cibernético antes restrito à elite branca etc.