Inteligência Artificial

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Para criador do Claude, único jeito de a IA convencer o público é 'curar o câncer'

Presidente-executivo da Anthropic admite que empresas do setor não entregaram o que prometeram. Rivais respondem que o problema é outro: preço, acesso e falta de transparência

Dario Amodei: fundador da Anthropic afirmou que 'espera obter resultados incríveis' com a IA (X/Reprodução)

Dario Amodei: fundador da Anthropic afirmou que 'espera obter resultados incríveis' com a IA (X/Reprodução)

Tamires Vitorio
Tamires Vitorio

Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia

Publicado em 17 de agosto de 2026 às 07h13.

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Para Dario Amodei, presidente-executivo da Anthropic, do Claude, a indústria de inteligência artificial (IA) só vai vencer a desconfiança do público quando conseguir entregar resultados científicos concretos — como, por exemplo, se curar o câncer.

"Neste momento, dizer que a IA vai curar o câncer é mais um clichê do que algo inspirador, e a maioria das pessoas acha que é enganoso. O que vai funcionar é de fato curar o câncer", escreveu Amodei em seu perfil no X (antigo Twitter) no sábado, 15.

Segundo Amodei, a crítica mais precisa às empresas de IA, incluindo a Anthropic, "é que ainda não entregaram as grandes promessas de beneficiar o mundo".

"Acho que, fundamentalmente, trata-se de uma crise de confiança. Acredito que as pessoas comuns não confiam em empresas, governos ou na indústria de tecnologia e sempre suspeitam que estamos tramando alguma nova maneira de enganá-las", afirmou Amodei.

Para o fundador do Claude, as causas disso remontam a décadas, "e a IA é apenas a mais recente manifestação desse problema". "Não creio que uma campanha de marketing chamativa com uma abordagem positiva (como alguns sugeriram que a Anthropic faça) seja a maneira de reconquistar essa confiança", continuou.

O tamanho da desconfiança

O setor enfrenta reação pública crescente enquanto constrói grandes data centers em comunidades pelos Estados Unidos, treina modelos com dados frequentemente protegidos por direitos autorais e altera a estrutura de trabalho em várias indústrias.

Estudo recente do Pew Research Center apontou que cerca de metade dos americanos se sente "mais preocupada do que animada" com a presença crescente da IA no cotidiano.

Amodei tem histórico de alertas duros sobre a própria tecnologia que vende.

Anthropic a US$ 2 trilhões: investidores apostam que IPO da dona do Claude será o maior da história

Em ensaio publicado em junho, escreveu que os novos modelos Mythos da empresa apresentam "riscos muito reais" para segurança cibernética, setor financeiro, infraestrutura crítica e segurança nacional. No ano passado, previu que a IA eliminaria metade das vagas de nível inicial.

Ele deixou a OpenAI em 2020 por "preocupações com a atenção da empresa à segurança".

'Não concordo que minha mensagem tenha sido negativa demais'

O tom catastrofista já foi criticado dentro do próprio setor. Demis Hassabis, do Google DeepMind, disse neste ano que colegas de mercado estavam "certos demais" sobre previsões sombrias e sugeriu moderação.

Com OpenAI e Anthropic preparando aberturas de capital, ambas vêm migrando do discurso de risco para o de entusiasmo. Amodei, porém, rejeita a leitura de que contribuiu para o clima de desconfiança.

"Não concordo que minha mensagem tenha sido desproporcionalmente negativa", escreveu. Ele citou o ensaio Machines of Loving Grace, de 2024, em que descreveu como a tecnologia poderia transformar o mundo para melhor. "Escrevi porque não sentia que a indústria de IA estivesse pintando um quadro inspirador o suficiente."

As respostas: o problema é o modelo fechado

A decisão da Anthropic de não abrir o código de nenhum de seus modelos de fronteira — justificada pela empresa como cautela — contribui, ao menos em parte, para a desconfiança do público.

No mês passado, a companhia foi a única grande desenvolvedora de IA a não assinar uma carta em defesa de modelos de pesos abertos, enquanto Washington avaliava restrições a alguns modelos chineses.

Yann LeCun, ex-cientista-chefe de IA da Meta, respondeu diretamente à publicação de Amodei. Para ele, o "único caminho possível" é que a IA seja "amplamente disponível, compartilhada e aberta".

"Precisamos de IAs diversas pelo mesmo motivo que precisamos de uma imprensa diversa", escreveu.

 Ninguém julga uma indústria só pelas descobertas'

A tese central de Amodei — de que um avanço científico grande viraria o jogo — também foi contestada.

Angel Brodin, arquiteta de IA aplicada na OpenAI, respondeu que a indústria farmacêutica entrega avanços em saúde pública com regularidade e segue sendo "uma das indústrias menos confiáveis" na percepção do público.

"As pessoas também não vão julgar empresas de IA apenas por suas descobertas", escreveu. "Vão julgá-las por preço, acesso, lobby, opacidade, como os ganhos econômicos são distribuídos, quem pode participar dos benefícios e quem detém o poder no fim das contas."

Amodei afirmou que a Anthropic está ampliando o trabalho nas áreas biológicas e médicas justamente para testar a própria tese.

"Estamos, no entanto, fazendo o possível para corrigir isso: a Anthropic está intensificando seus esforços rapidamente nas áreas de biologia e medicina, e esperamos obter resultados incríveis nos próximos anos e alguns primeiros indícios nos próximos meses. Quando tivermos conquistado algo concreto, o mundo inteiro saberá disso, em alto e bom som, podem ter certeza", escreveu.

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