Testar. Comparar. Aplicar o que dá certo

De pequena solução em pequena solução se resolvem os grandes problemas. Essa é a fórmula defendida pela mais jovem economista a ganhar o Prêmio Nobel

Há 11 anos, quando esteve no Brasil para uma conferência, o economista indiano Abhijit Banerjee, professor no Massachusetts Institute of Technology (MIT), pediu para conhecer uma favela. “Minha esposa o levou à Rocinha”, a maior favela do Rio de Janeiro, lembra o organizador do encontro, Aloisio Araujo, professor na Escola de Pós-Graduação de Economia da FGV e no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa).

Banerjee ficou um pouco desapontado. “Na Índia, isto aqui é um lugar de classe média”, afirmou. Reação semelhante teve o americano Michael Kremer, professor em Harvard, que também esteve no Brasil e também pediu para visitar uma comunidade pobre. Não é de espantar. Ambos estavam na vanguarda dos estudos sobre a pobreza, o que lhes valeu o Prêmio Nobel de Economia deste ano. A grande estrela da premiação, porém, foi a terceira escolhida, a francesa Esther Duflo, também do MIT.

Que Duflo era candidata ao Nobel, havia pouquíssima dúvida. Em 2010, ela ganhou a Medalha John Bates Clark, o segundo mais prestigioso prêmio do mundo para um economista (atrás apenas do Nobel), concedido a profissionais dos Estados Unidos com menos de 40 anos — entre os vencedores estão Paul Samuelson, Milton Friedman, Robert Solow, – Gary Becker, Joseph Stiglitz, James Heckman, Paul Krugman… todos depois vencedores do Nobel.

Duflo foi apenas a segunda mulher a obter a honraria. Um ano antes, ela havia ganhado uma bolsa da Fundação MacArthur, considerada a “bolsa para gênios”, e foi chamada para fazer uma apresentação à Assembleia-Geral das Nações Unidas. Também recebeu convite para proferir uma série de palestras no Collège de France, a academia de pesquisas fundada em 1530 em Paris — ela foi a pessoa mais jovem a ter essa distinção, e dois livros baseados em suas aulas são best-sellers na França.

Abhijit Banerjee (no alto) e Michael Kremer: testes controlados de políticas públicas no combate à pobreza | Fotos: Sanchit Khanna / Hindustan Times / Getty Images; Luke MacGregor / Bloomberg / Getty Images

No Nobel, também, Duflo foi a segunda mulher agraciada. E, aos 46 anos, foi novamente precoce: é a pessoa mais jovem a ganhar o prêmio. “Isso mostra que é possível para uma mulher ser bem-sucedida e reconhecida; espero que isso inspire muitas mulheres a continuar a trabalhar e muitos outros homens a dar a elas o respeito que merecem”, disse Duflo, depois de receber a notícia de que tinha sido escolhida. Se é um impulso para a valorização das mulheres no mundo do trabalho, o sucesso de Duflo é um marco simbólico em pelo menos outras três áreas.

Primeiro, o Nobel chamou a atenção para o combate à pobreza — e não à desigualdade, o debate que mais tem ocupado a atenção dos países ocidentais. Até duas semanas atrás, o economista francês mais incensado no mundo era Thomas Piketty, com sua formidável pesquisa sobre (má) distribuição de renda e riqueza.

Em segundo lugar, a premiação de Duflo é resultado de um esforço coletivo. De certa forma, todo sucesso é coletivo. Mas não se trata apenas de ela ter bebido na fonte de outras pessoas — duas das quais foram premiadas com ela. Trata-se da criação de um movimento, um exército de pesquisadores a aplicar seu método nas mais variadas áreas de estudo. O movimento tem até um nome: os randomistas.

A partir do MIT, já apoiaram mais de 800 estudos de uma centena e meia de pesquisadores do mundo inteiro, inclusive brasileiros. A Escola Nacional de Administração Pública oferece cursos para gestores públicos aprenderem a avaliar e a melhorar suas políticas.

Finalmente, o sucesso de Duflo é simbólico porque sua contribuição não é uma tese que se provou muito útil. É um método. Banerjee, que foi seu professor no MIT, disse certa vez que, ao vê-la trabalhar num experimento, teve a nítida sensação de estar testemunhando o nascimento de uma nova economia. Por sua vez, Duflo jamais havia ouvido falar de economia do desenvolvimento, mas, após um mês de aulas de Banerjee, ela “estava fisgada”. Em mais de um sentido.

Os dois começaram a trabalhar juntos na década de 90, fundaram o Laboratório de Ação sobre a Pobreza (J-Pal), em 2003, escreveram um livro juntos em 2011 (A Economia dos Pobres, na edição de Portugal), tiveram um casal de filhos e finalmente se casaram, em 2015, um ano depois do nascimento do menino. Em novembro, devem lançar um segundo livro, Good Economics for Hard Times (“Boa economia para tempos difíceis”, numa tradução livre).

Pobreza na Índia: os desafios vão desde purificar a água até redes antimosquitos | Daniel Berehulak/Getty Images)

Em linhas gerais, a grande revolução comandada por Duflo é a aplicação de testes controlados com populações escolhidas aleatoriamente (daí o apelido de randomistas). “É uma técnica estatística que começou nos anos 20, 30 do século passado”, diz Araujo, do Impa. “Foi muito usada em agricultura, por exemplo. Você coloca determinado inseticida em parte das plantas, e na outra parte não. Aí compara os resultados.” A técnica logo se espalhou para testes de drogas, em que um grupo toma um remédio enquanto um grupo de controle toma um placebo.

Duflo não foi a pioneira na aplicação de testes controlados para políticas públicas. Um dos primeiros a fazê-lo foi Kremer (seu copremiado) em meados dos anos 90. Ele dividiu as grandes questões sobre políticas econômicas até chegar a propostas concretas que podia medir. Kremer queria entender quais intervenções seriam mais eficientes para melhorar a educação em escolas pobres do Quênia: refeições gratuitas, livros-textos, incentivo financeiro a professores.

Quando tomou conhecimento desses experimentos, Duflo decidiu que seguiria esse caminho. Foi o que fez assim que se tornou professora do MIT — quebrando a longa tradição do departamento de não contratar ex-alunos. Testou por que agricultores no Quênia resistiam a usar fertilizantes mesmo sabendo que teriam uma colheita melhor, como fazer com que as pessoas usem redes de proteção contra mosquitos na Índia, como promover o uso de cloro para purificar a água onde não há água encanada (também na Índia).

Ao completar 30 anos, Duflo recebeu ofertas para se tornar professora titular em Princeton e Yale. Usou as propostas para conseguir não apenas o mesmo posto no MIT como também para convencer a universidade a doar 300.000 dólares para a montagem do laboratório de pobreza. Logo Duflo e Banerjee começaram a organizar a rede de pesquisadores para testar soluções para pobreza, educação, saúde. Sem se agarrar a dogmas. “Uma das minhas vantagens é não ter muitas opiniões no início”, afirmou Duflo em uma reportagem antiga da revista New Yorker. “Eu tenho uma convicção: de que as ações devem ser avaliadas. Nunca fico chateada com os resultados.” Ela descobriu, por exemplo, que o microcrédito podia ser um dos instrumentos de combate à pobreza, mas não produzia a transformação radical que seus proponentes diziam ocorrer.

Escola no Quênia: estudo pioneiro sobre ações para melhorar a educação | Fotosearch/Agb Phoyo

Não faltam objeções aos randomistas dentro da comunidade econômica. Uma das vozes contrárias mais fortes vem do economista Angus Deaton, prêmio Nobel de 2015. Segundo ele, a randomização não é capaz de equalizar todas as variáveis além daquela que se está medindo e não fornece uma estimativa precisa do efeito do tratamento. Podem estar ocorrendo muitas coisas que o pesquisador não está ciente. Além disso, nada garante que um teste que funcionou em um lugar seja transferível para outro. Mas não é esse exatamente o ponto, segundo Duflo. Não se trata de testar qualquer coisa. Trata-se de encontrar modos de testar ações. Explorar teorias. Não é um substituto do raciocínio, mas um modo de verificar se a realidade se comporta como imaginado.

Duflo e seus companheiros randomistas estão a meio caminho entre os “senhores da oferta”, como ela definiu em seu livro, e os “senhores da demanda”. Os primeiros, representados pelo também prêmio Nobel Jeffrey Sachs, defendem que a extrema pobreza pode ser erradicada com massiva ajuda humanitária. Do outro lado do espectro está o economista William Easterly, da Universidade de Nova York, para quem a única maneira de acabar com a miséria é dando liberdade para os países acharem os próprios caminhos (sua posição ficou mais forte, por exemplo, com o fracasso americano em construir uma democracia no Iraque).

Há ainda a acusação de que esse é um método pouco ambicioso, que busca pequenas melhorias em vez de grandes transformações — seja para a pobreza, seja para a educação, seja para a saúde. Mas, como escreveram Duflo e Banerjee, “pelo menos nós podemos parar de fingir que há alguma grande solução à mão e juntar-nos com milhões de pessoas bem-intencionadas no mundo em busca de muitas ideias, grandes e pequenas, que vão no final das contas nos levar ao mundo em que ninguém tenha de viver com apenas 99 centavos por dia.” 

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