A economia da Argentina só piora com intervencionismo

A entrada de um novo secretário de Comércio prova que a Argentina consegue se superar — na intervenção da economia, no protecionismo e na perseguição aos empresários

São Paulo – Poucos nomes são tão associados à crise econômica vivida pela Argentina quanto o do ex-secretário de Comércio Guillermo Moreno. De 2005 a 2013, Moreno participou ativamente de uma extensa lista de medidas que resultaram em rotundo fracasso. Ele foi um dos protagonistas da manipulação do índice de inflação e das restrições à exportação de carne.

Sua influência no governo da presidente Cristina Kirchner era tamanha que sua saída, em dezembro, foi interpretada como uma mudança na condução da política econômica. A esperança, no entanto, durou pouco. A chegada do jovem economista Augusto Costa, de 39 anos, conseguiu piorar a situação. 

O principal feito de seus quatro primeiros meses no posto é uma nova tentativa de controlar os preços. Em fevereiro, oito grandes redes de supermercados foram autuadas pelo governo por não cumprir o programa Precios Cuidados, que controla os preços de um grupo de 194 produtos básicos pelo prazo de um ano.

A rede francesa de varejo Carrefour foi multada em 166 000 dólares, e o grupo americano Walmart foi autuado em 80 000 dólares. O motivo em ambos os casos foi não contar com um estoque mínimo de produtos a preços controlados. O mais recente ato de intervenção aconteceu em março.

Pela nova resolução, indústrias e distribuidoras de grande porte são obrigadas a informar seu custo mensal de operação — algo inédito em termos de detalhamento e extensão. A medida é retroativa ao início de 2013. A justificativa do governo é o combate a preços abusivos, mas, na prática, funciona como uma tentativa de controlar as margens de lucro.

A União das Indústrias Argentinas tem reclamado, até agora em vão, que o governo exige a abertura de informações sigilosas e não garante a segurança em relação a vazamento de dados. 

Na comparação com Moreno, conhecido como El Furia, Costa é quase um gentleman. Descrito como uma figura apagada, mantém a política de poucas palavras. Mas tem tido uma atuação bem mais radical. Moreno também tentou controlar os preços — mas de maneira mais pontual e informal.

“Costa é mais educado, mas Moreno tinha um conhecimento melhor da realidade das empresas”, diz Dante Sica, ex-secretário de Indústria da Argentina e um destacado crítico do governo Kirchner.

A chegada de Costa ao posto de secretário de Comércio é obra de Axel Kicillof, ministro da Economia, aquele que arquitetou a estatização da petrolífera YPF e já declarou que segurança jurídica é uma expressão sem importância.

O maior problema para a dupla Kicillof-Costa é o círculo vicioso que se formou na economia argentina. Com os preços de energia ainda subsidiados, o governo tem financiado o déficit fiscal com a emissão de moeda. O maior volume de pesos em circulação está levando a inflação para a casa dos 35% ao ano. 

Não por acaso, as principais centrais sindicais argentinas pararam as maiores cidades do país no começo de abril justamente para protestar contra o aumento de preços e pedir a recuperação dos salários (a terceira demanda foi o reforço da segurança pública). Além de causar inflação, a impressão indiscriminada de pesos tem desvalorizado a moeda argentina em relação ao dólar.


Para tentar controlar o câmbio, o governo vem criando todo tipo de mecanismo que evite a saída da moeda americana, o que inclui o aumento da burocracia para as importações — manobra que afeta diretamente o Brasil. A Argentina é o mercado que mais compra produtos industrializados brasileiros.

Muy amigos

Como acontece em vários países, as cargas que chegam à alfândega argentina ficam à espera da emissão de licença para entrada. Desde a posse de Costa, porém, o tempo tem sido maior. Há produtos que ficaram semanas aguardando liberação. O banco central (BC) argentino também está restringindo a liberação de dólares para pagar os bens importados.

A indústria automobilística brasileira, que responde por 40% do comércio bilateral, é o setor que tem sido mais afetado. Prejudicadas pelas barreiras argentinas, as exportações totais de veículos do Brasil recuaram 33% no primeiro trimestre.

Além da burocracia e da ação do BC local, o setor tem enfrentado a imposição de cotas. “O governo argentino está sacrificando o comércio bilateral”, diz Welber Barral, ex-secretário de Comércio brasileiro e sócio da consultoria Barral M Jorge Consultores Associados. 

O efeito Kicillof-Costa já se faz sentir na balança comercial brasileira. No primeiro trimestre de 2014, o Brasil exportou 3,5 bilhões de dólares para o país vizinho — uma redução de 14% em relação ao mesmo período do ano passado. A participação da Argentina nas exportações brasileiras no primeiro trimestre foi a menor em 11 anos, encerrando o período com uma fatia de 7,2%.

Na negociação para a assinatura de um acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, a Argentina também tem sido fonte de dor de cabeça. Nos últimos meses, o governo brasileiro se viu obrigado a aumentar a pressão para que os argentinos melhorem a oferta que será apresentada aos europeus.

Uma resposta definitiva é esperada até o fim do mês, mas, nos bastidores, há muitas dúvidas sobre a real disposição argentina na negociação com a União Europeia.

Na Argentina, é comum ouvir que o empresariado está haciendo la plancha. Literalmente, quer dizer que está à deriva — ou seja, não luta contra a maré. A impressão geral é que não vale a pena gastar energia com o governo atual. Essa sensação aumentou em meados de abril, quando Kicillof anunciou a inflação de março, que ficou em 2,6%.

O índice veio bem abaixo do esperado pelo mercado. A explicação de Kicillof, porém, foi o que realmente alarmou os investidores: o “sucesso” inflacionário teria sido resultado direto do controle de preços imposto pelo governo. Em vez de acalmar os empresários, a declaração reavivou o temor de mais intervenção e heterodoxia.

“A esperança de renovação está nas eleições presidenciais, que acontecerão no segundo semestre de 2015”, diz Alberto Alzueta, presidente da Câmara de Comércio Brasil-Argentina. Até agora o nome mais forte para suceder Cristina é o do candidato de oposição Sergio Massa.

Para Orlando Ferreres, ex-secretário de Planejamento da Argentina e dono da consultoria OJF, o caos argentino traz lições valiosas aos empresários brasileiros. “É melhor fazer negócios com países em que prevaleça a economia de mercado.” Não é, obviamente, o caso de seu país.

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