Secas como a de São Paulo vão se espalhar, diz Jeffrey Sachs

Um dos arquitetos das Metas do Milênio, da ONU, o economista Jeffrey Sachs encabeça agora novos objetivos para promover o desenvolvimento sustentável
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Fabiane StefanoPublicado em 19/03/2015 às 06:00.

São Paulo - O economista americano Jeffrey Sachs tornou-se um nome conhecido no meio acadêmico na década de 80, quando foi aceito como professor na Universidade Harvard com apenas 28 anos, um dos mais jovens da história da instituição. Duas décadas depois, ganhou ares de celebridade ao andar pela África acompanhado da atriz Angelina Jolie, com quem fez trabalhos humanitários e estrelou um documentário produzido pela MTV.

Um dos arquitetos das Metas do Milênio, da ONU, conjunto de objetivos para redução da pobreza extrema que vão expirar em 2015, Sachs agora encabeça as Metas do Desenvolvimento Sustentável, que deverão guiar os países nos próximos 15 anos. “A ideia de desenvolvimento sustentável não deveria se basear apenas na luta contra a pobreza.

Temos de incluir também a segurança ambiental e a redução da desigualdade”, disse Sachs em entrevista a EXAME. Ele reconhece que a agenda de sustentabilidade ficou mais complicada porque os problemas se tornaram mais complexos. Segundo o assessor especial do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e diretor do Instituto da Terra, da Universidade Colúmbia, “2015 será um ano decisivo”.

Nessa cruzada, Sachs acaba de lançar o livro The Age of Sustainable Development (“A era do desenvolvimento sustentável”) que clama por ação dos governos para impedir a escalada do aquecimento global. Leia a seguir a entrevista de Sachs.

EXAME - Em 2015, novas metas de desenvolvimento sustentável devem ser assumidas pelos países, substituindo as Metas do Milênio. Por que criar novos objetivos?

Jeffrey Sachs - As Metas do Milênio estavam focadas na redução da pobreza extrema. E, nos últimos 15 anos, houve, sim, uma forte diminuição no número de miseráveis. Embora a quantidade de pessoas nessa condição tenha caído à metade em comparação com os dados de 1990, isso não foi suficiente para eliminar a pobreza extrema no mundo.

Programas como o Bolsa Família, no Brasil, e similares em outras partes do mundo são exemplos de ações que foram tomadas. Mas ainda há muito trabalho a ser feito. Na frente ambiental, o mundo assumiu o compromisso de estabilizar as emissões de carbono em 1992. Passaram-se 23 anos e isso não aconteceu. Agora o perigo é crescente. Por isso, tenho dito que 2015 é o ano de tomar decisões efetivas.

EXAME - Existe o consenso de que a ação humana está contribuindo para o aquecimento global. Quais serão as consequências se a emissão de gases de efeito estufa não forem controladas?

Jeffrey Sachs - A situação é muito perigosa. Se olharmos os estudos, veremos que o tipo de seca que a cidade de São Paulo enfrenta hoje vai se espalhar ao redor do mundo. A Califórnia está sob amea­ça, boa parte do Oriente Médio convive com secas. Isso vai gerar conflitos sociais. No início de março foi publicado um estudo que mostra que a seca na Síria contribuiu para a eclosão da guerra civil.

A Síria enfrenta um dos mais longos períodos de falta de chuvas de sua história, o que gerou o deslocamento de mais de 1 milhão de pessoas, o aumento do preço dos alimentos, a inquietação social, e acabou contribuindo para a guerra. O problema é que estamos fazendo os cálculos errados, imaginando que esse tipo de coisa simplesmente vai desaparecer.

EXAME - O que os países e as autoridades deveriam fazer agora?

Jeffrey Sachs - No caso do Brasil, espero que a presidente Dilma Rousseff diga ao mundo o que seu país está enfrentando e quão sé­rios são esses efeitos. Hoje temos muito mais conhecimento de como resolver os problemas climáticos do que há dez anos. Por outro lado, falta coordenação.

O Brasil diz que não adotará uma agenda mais sustentável porque não acredita que os Estados Unidos vão adotar também. Por sua vez, os Estados Unidos não fazem mais porque acham que a China não vai fazer. Precisamos superar a falta de ação coletiva.

EXAME - Em seu novo livro, o senhor diz que a tecnologia será um instrumento importante para vivermos num planeta melhor. Como?

Jeffrey Sachs - As pessoas devem levar em conta como a vida delas mudou nos últimos dez anos por causa da tecnologia. Quase todo mundo tem um telefone celular hoje. Por meio de um smart­phone, muita gente está conectada o tempo todo às redes sociais. Mas não é só isso. A tecnologia pode tornar nossas cidades mais inteligentes, limpas e seguras. Ela pode fazer com que os sistemas de energia sejam mais eficientes, com menos desperdício e menos emissões de carbono.

EXAME - A Europa caminha para uma recessão e os Estados Unidos ainda se recuperam da crise financeira. Esse cenário não retarda a adoção de uma agenda de sustentabilidade?

Jeffrey Sachs - Não é fácil adotar essa agenda porque há interesses que guiam a manutenção dos investimentos tradicionais. Veja o exemplo do Brasil. O país realmente conseguiu ganhar poder no cenário global com o debate de energias renováveis, mas a Petrobras, que tem um imenso poder político, mira o desenvolvimento do petróleo do pré-sal. Infelizmente, esse tipo de inclinação à energia fóssil tem sido um erro no mundo todo.

EXAME - Mas o senhor não acha que, com o petróleo custando cerca de 50 dólares o barril, fica difícil incentivar o uso de combustíveis considerados verdes?

Jeffrey Sachs - É claro que petróleo barato acaba estimulando o consumo, porém todos esses projetos supermodernos de exploração de petróleo em águas profundas também não se mostram mais economicamente viáveis. Existem ainda os problemas de governança nessa área.

Os escândalos na Petrobras, por exemplo, exigem uma faxina considerável na empresa. Ou seja, chegou a hora de dar um tempo no setor de petróleo, que há muitos anos domina a cena política.

EXAME - O senhor tem acompanhado a gestão da economia no Brasil?

Jeffrey Sachs - Definitivamente, o Brasil precisa fazer melhor do que tem feito. O país precisa de uma estratégia de longo prazo melhor do que tem agora. Os resultados dos últimos dois anos demonstram isso. Um país como o Brasil tem vastos recursos naturais renováveis.

O país tem sido pioneiro em combustíveis renováveis e é uma potência em energia limpa com as usinas hidrelétricas. O Brasil, certamente, poderia fazer a transição para uma economia de baixo consumo de carbono. No entanto, isso exige decisões políticas, que não costumam ser fáceis.

EXAME - No livro, o senhor defende o financiamento público como a principal fonte de recursos na transição para uma economia sustentável. Como fazer isso sem ampliar excessivamente a participação do Estado?

Jeffrey Sachs - Acredito na intervenção do Estado na economia. Também acredito que um setor privado forte seja capaz de liderar o desenvolvimento tecnológico. Mas é importante que haja transparência dentro do governo. Se as pessoas não confiam na honestidade do governo, é perfeitamente justificável que elas exijam menos Estado em sua vida. Mas não acho que essa seja a resposta certa.

O Brasil precisa de governos efetivos — e não menos governo. O Brasil precisa de investimento de longo prazo, de desenvolvimento tecnológico e cidades mais bem planejadas. E tudo isso exige um papel ativo do Estado, mas o governo brasileiro está envolvido em tantos escândalos que reduz a confiança da população. Um governo transparente, bom e inteligente é vital para as sociedades.

EXAME - Que lições podemos tirar da crise hídrica de São Paulo? 

Jeffrey Sachs - O que vemos são eventos que nunca aconteceram antes. A principal razão é que as mudanças climáticas criaram novos padrões que precisam ser entendidos.

Outro motivo é o aumento populacional. Em 1950, a cidade de São Paulo tinha uma população de 2,4 milhões de pessoas — hoje, já são aproximadamente 11 milhões. A precipitação de chuvas caiu, mas a população cresceu mais de cinco vezes. Se não houver um planejamento urbano que leve em conta a dinâmica populacional e as mudanças climáticas, as crises serão inevitáveis.

EXAME - Que tipo de plano para as cidades o senhor defende?

Jeffrey Sachs - A cidade de Nova York enfrentou em 2012 o furacão Sandy, que causou 60 bilhões de dólares em prejuízo porque a cidade não estava preparada. O prefeito de Nova York na época, Michael Bloomberg, juntou todas as secretarias e os departamentos da cidade para desenvolver um plano de sustentabilidade — projeto do qual eu faço parte.

Criamos um plano com alvos bem específicos para os próximos dez, 20 e 30 anos. Esse tipo de exercício é importante, porque exige uma visão de longo prazo. O que obviamente não é simples.