Linha de produção em Guarulhos, na Grande São Paulo: empresa vende mais de 100 milhões de panetones só no Brasil (Leandro Fonseca/Exame)
Repórter
Publicado em 30 de julho de 2026 às 06h00.
Zephyrhills, cidade no meio da Flórida a 40 quilômetros de Tampa, tem um peso no imaginário americano muito superior à sua população de apenas 20.000 habitantes. Em razão da abundância de água potável, a cidade leva o apelido de “City of Pure Water” (“cidade da água pura”, na tradução para o português). Uma marca de água mineral envasada ali com o nome da cidade é uma das mais vendidas dos Estados Unidos. (A engarrafadora dela, a Primo Brands, tem quase 20% de participação de mercado.) Desde o mês passado, Zephyrhills também tem um peso especial para a Bauducco, empresa brasileira responsável por vender 100 milhões de panetones por ano no Brasil, além de wafers, cookies, entre outros farináceos. A cidade da Flórida foi escolhida para acelerar a ambição global da Bauducco. Num terreno de 300.000 metros quadrados, a fábrica toda pintada de amarelo, a cor símbolo da Bauducco, chama atenção numa paisagem dominada por propriedades rurais e pelas colinas verdes que dão nome à cidade. A companhia investiu ali 200 milhões de dólares. Até agora, algo como 10% das vendas da Bauducco são para fora do Brasil. A maioria dos produtos tem como origem as duas fábricas de Guarulhos, na Grande São Paulo, sendo a primeira inaugurada nos anos 1960, e a de Extrema, no sul de Minas Gerais, aberta em 2000. Agora a meta é usar a base de Zephyrhills para vender mais a clientes americanos, num primeiro momento, e depois a asiáticos. “Essa fábrica foi desenhada para crescer durante muitos anos”, diz Stefano Mozzi, líder da operação internacional da Bauducco. “Já vendemos para mais de 70 países e queremos ser uma marca global.”
Linha de produção: fundada por imigrantes italianos em 1980, a empresa mantém o controle familiar (Bauducco/Divulgação)
Em meio a tensões comerciais em alta mundo afora, a Bauducco está dobrando a aposta na estratégia de virar uma love brand global. Fundada em 1952 pelo imigrante italiano Carlo Bauducco, como uma modesta doceria artesanal no bairro paulistano do Brás, a empresa está acostumada a vender panetones pelo mundo. O começo foi nos anos 1970, com a venda a mercadinhos da região de Nova York frequentados pela comunidade brasileira. De lá para cá, a empresa ampliou os canais de distribuição nos Estados Unidos. Desde 2011, os panetones e wafers da Bauducco estão nas prateleiras da varejista Walmart, a maior do país, com 4.614 lojas. Cinco anos mais tarde, a demanda garantida pelo Walmart motivou a abertura de um centro de distribuição nos arredores de Miami e, em 2018, de uma linha de produção de wafers, num investimento de 50 milhões de dólares. Hoje, a marca está em boa parte dos grandes varejistas americanos e tem posição dominante: oito em cada dez panetones vendidos por lá são da Bauducco.
Agora, em meio ao tarifaço de 25% imposto pelo governo americano às exportações brasileiras para lá, a aposta em Zephyrhills faz ainda mais sentido — panetones, pães e -cookies entraram na lista de produtos com taxação extra. Além de garantir a competitividade dos produtos, a marca tem investido em marketing para convencer o americano a comer mais panetones, uma iguaria ainda conectada com os hábitos alimentares do norte da Itália e da diáspora italiana pela América Latina. Recentemente, a Bauducco lançou uma linha de cookies em parceria com o gigante de chocolates Hershey’s e agora prepara um panetone recheado com a pasta de amendoim Skippy, uma das mais tradicionais do país. “Quando nos associamos a marcas que eles já conhecem, criamos uma ponte de confiança e facilitamos a experimentação”, diz Mozzi.
Fábrica em Zephyrhills, na Flórida: base de exportação para América do Norte, Europa e Ásia (Bauducco/Divulgação)
O apetite global da Bauducco vem num momento de conversas para a entrada de novos sócios. A marca faz parte da Pandurata Alimentos, holding onde também estão Visconti, dona de uma linha de entrada de panetones e de biscoitos como Maria e Maizena, além da Tommy, fabricante de bisnaguinhas, pães de forma e linhas específicas para padarias. Apesar de ter um CEO profissional desde 2017, a família fundadora ainda detém o controle acionário e está próxima do dia a dia da operação. Massimo, da terceira geração, preside o conselho de administração, onde também tem cadeira seu irmão mais novo, Carlo. Nas últimas semanas, a empresa contratou o banco de investimentos BR Partners, de Ricardo Lacerda, como assessor financeiro para a venda de uma participação de até 30% do negócio. Entre os interessados estariam o GIC, fundo soberano de Singapura, a holding Itaúsa e o gigante de alimentos Mondelēz, dono de marcas como Lacta, Oreo e Tang. A empresa não comenta, mas um movimento desses não é novidade por ali. Em 2012, a companhia tentou uma venda de 20% do negócio, numa negociação por volta de 500 milhões de reais, mas acabou desistindo. De lá para cá, bancos de investimento já tentaram levar a companhia à bolsa, mas sem sucesso. Mesmo com a ambição global, a visão dos sócios é de continuar sendo uma empresa de dono por um bom tempo. “Sempre surgem especulações sobre o tema, mas neste momento não estamos pensando em IPO”, diz Mozzi.
A busca de um sócio ocorre num timing coerente com a ambição global. A direção da Bauducco mantém sigilo sobre os indicadores financeiros, mas quem acompanha a empresa justifica o interesse do mercado. Em 12 meses até julho, a companhia faturou 5,8 bilhões de reais com uma geração de caixa (Ebitda) de 700 milhões de reais, segundo apuração do site Pipeline. É o dobro do patamar de 2020, último dado aberto pela empresa. Segundo fontes de mercado ouvidas pela EXAME, as vendas da Bauducco crescem de 10% a 20% todos os anos e devem chegar a 7 bilhões de reais em 2026. Tudo isso sem emitir dívidas- -significativas — a alavancagem está em torno de 0,5 vez o Ebitda. Isso posto, para virar uma love brand fora do Brasil, a empresa vai precisar de dinheiro. “Bancar a expansão com caixa próprio enquanto disputa o mercado de pães no Brasil, uma categoria de giro diário e margem apertada, é peso demais para um balanço só”, diz Michel Jasper, fundador da Web Jasper, empresa de tecnologia para o varejo alimentar.
Stefano Mozzi, CEO da Operação Internacional da Bauducco: presença em 70 países (Sheriff Will/ Moments Photo Art/Divulgação)
A aposta em novos mercados também ajuda a Bauducco a estar mais preparada para mudanças de hábitos alimentares com a proliferação de canetinhas emagrecedoras. Por ora, a companhia nega qualquer relação entre a ambição global e a necessidade de conquistar novos clientes em meio a um cliente com menos apetite para alimentos ricos em carboidratos como os panetones. Em 2026, a venda de pães fermentados deve movimentar um recorde de 85 bilhões de dólares no mundo, segundo a consultoria Euromonitor. A de bolos embalados, onde se enquadram os panetones, 54 bilhões de dólares. Daqui para a frente, as duas categorias devem sofrer em meio a gôndolas abarrotadas de barrinhas proteicas, shakes e demais alimentos com apelo evidente a ideais de saúde e bem-estar. No Brasil, o valor das vendas de bolos embalados deve cair 6,5% neste ano. “A categoria está perdendo espaço por causa de mudanças nas formulações, aumento na popularidade de outras opções de snacks, tendências de saudabilidade que fazem o consumidor diminuir a compra de opções mais indulgentes e também aumento na oferta de opções de bolos frescos, vendidos sem ser embalados”, diz Adriana Murasaki, analista sênior na Euromonitor International.
Casa Bauducco: meta de abrir 500 lojas no Brasil (Germano Lüders/Exame)
OTIMISMO COM O FUTURO
A fábrica de Zephyrhills deve ser ampliada por fases até 2030, quando o plano da -Bauducco é transformar a unidade numa base para vender a clientes em outros países, a começar pelos vizinhos da América do Norte, depois Europa e Ásia. Há desafios para o plano sair do papel. A começar pelos atritos entre os Estados Unidos e o mundo — assim como o Brasil, outros países taxados pelo governo Trump querem aumentar as taxas cobradas de produtos americanos. Uma eventual demora nas negociações para um sócio minoritário pode comprometer a capacidade financeira da empresa justamente no momento de investir pesado em marketing. Há ainda o desafio de provar lá fora que está longe de ser uma empresa sazonal — grande parte das vendas fora do Brasil é de panetones consumidos no Natal.
Projeção de panetone na Times Square, em Nova York: aposta em produtos para atender o consumidor americano (Bauducco/Divulgação)
Mesmo com isso tudo na mesa, a liderança da Bauducco olha para o futuro com um otimismo de quem já atravessou outros momentos de incerteza no passado. Um exemplo é a guinada para o varejo. Em 2012, às voltas com a necessidade de ampliar os canais de venda para além de supermercados e distribuidores, a marca criou a Casa Bauducco, uma rede de cafeterias inspirada na confeitaria do Brás, onde tudo começou nos anos 1950. Hoje, são mais de 200 lojas no Brasil, e a meta é chegar a 500 no médio prazo. Em Zephyrhills também há planos de abrir uma loja até o fim do ano. Agora, por ali, a ordem é tirar do forno a expansão planejada. “Antes de me aposentar, quero vender 100 milhões de panetones apenas nos Estados Unidos”, diz Massimo -Bauducco, presidente do conselho, com um ar confiante de quem quer fazer Zephyrhills conhecida não só por águas puras como também pelos seus panetones.
Com incentivos fiscais, abundância de mão de obra e boa infraestrutura, a Flórida já sedia 30.000 empresas brasileiras — e quer atrair mais
Vista aérea de Tampa, na Flórida: tapete estendido para empreendedores brasileiros (Aerial Views/Getty Images)
A escolha da Bauducco por Zephyrhills levou em conta a proximidade cultural com a influente comunidade latina local, a boa logística (o Porto de Everglades, no sul do estado, é um dos mais conectados dos Estados Unidos) e também o tapete vermelho estendido pelas autoridades locais às empresas de fora. A começar pelas isenções fiscais: a Bauducco garantiu isenção parcial dos impostos de produção por dez anos. Pessoas físicas têm isenção do Imposto de Renda no estado. Além disso, a empresa contou com apoio da prefeitura local no recrutamento dos funcionários (mais de 1.000 candidatos concorreram a 160 vagas) e no treinamento da mão de obra local.
Na Flórida, os executivos da Bauducco não vão ter dificuldade em falar português com outros expatriados por lá. O número de empresas brasileiras instaladas no estado saltou de 6.500 em 2012 para mais de 30.000 em 2025, de acordo com um levantamento do consultor Eduardo Morita, brasileiro que trabalha com a atração de empresas para a Flórida há três décadas. “Hoje, aproximadamente 70% das empresas brasileiras presentes nos Estados Unidos estão concentradas na Flórida”, diz Morita. “O primeiro passo do brasileiro é conhecer o estado como turista. Depois, percebe a segurança, a infraestrutura, a qualidade da educação e a facilidade para fazer negócios. Quando vê, está avaliando abrir uma empresa.” Somada a tudo isso, há a sensação de estar em casa. Hoje, há 590.000 brasileiros residentes legais no estado. E, a despeito das tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos, o comércio bilateral continua aquecido. Em 2025, aproximadamente 27,5 bilhões de dólares circularam entre o Brasil e a Flórida, segundo a SelectFlorida, agência de atração de investimentos ao estado. É uma expansão de 21% em quatro anos. “A Flórida é a principal porta de entrada para o mercado americano”, diz Vinícius Bicalho, advogado de imigração licenciado nos Estados Unidos e radicado em Orlando há 12 anos.
Um apelo evidente é o de varejistas brasileiras dispostas a colocar um pé nos Estados Unidos a partir dali. Entre os exemplos está a rede de milk shakes Milky Moo, sediada em Goiânia. No fim de 2025, a empresa abriu sua primeira loja no estado e agora já tem quatro operações e mais uma prevista até o fim do ano. A Chilli Beans, de óculos, pretende chegar a 15 operações na Flórida até o fim de 2026. O plano é usar o estado como ponta de lança de uma expansão mais robusta pelos Estados Unidos adentro: a meta é ter 60 lojas até 2030.
Um indício da influência da Flórida nas relações bilaterais entre Estados Unidos e Brasil é a indicação do deputado estadual Daniel Perez, segunda geração de uma família de cubanos exilados na Flórida, pelo governo de Donald Trump como futuro embaixador dos Estados Unidos em Brasília. A indicação de Perez segue em análise pelo Congresso americano, mas o nome dele é visto pelo mercado como o de um facilitador dos negócios entre os dois países. “As portas dos Estados Unidos estão, mais do que nunca, abertas para o capital brasileiro”, diz Kevin Murakami, cônsul-geral dos Estados Unidos em São Paulo. “Uma das prioridades do presidente Trump é atrair investimento estrangeiro.” E, ao que tudo indica, a Flórida vai abocanhar cada vez mais esses recursos.
Layane Serrano, de Zephyrhills (Estados Unidos), a jornalista viajou a convite da Bauducco
