Revista Exame

Os jovens dos sonhos das grandes empresas

Um número recorde de brasileiros com menos de 30 anos sonha em empreender. É possível atraí-los para as grandes empresas. Mas, para isso, é preciso repensar os processos de seleção

Estagiários da Pepsico: a empresa foi em busca de perfis empreendedores, como Thomas da Luz (à frente)   (Germano Lüders/EXAME.com)

Estagiários da Pepsico: a empresa foi em busca de perfis empreendedores, como Thomas da Luz (à frente) (Germano Lüders/EXAME.com)

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Da Redação

Publicado em 1 de abril de 2013 às 11h45.

São Paulo - O estudante Thomas da Luz, de 23 anos, que cursa o último ano de administração de empresas na Fundação Getulio Vargas, em São Paulo, é inquieto por natureza. Na adolescência, fez intercâmbio na África do Sul e na República Tcheca. Na faculdade, conciliou os estudos com a diretoria de uma empresa júnior, a monitoria de uma turma e a elaboração de um plano de negócios para uma cooperativa de catadores de lixo.

Em meio a tudo isso, sonhava em criar um negócio para aproveitar os investimentos na Copa do Mundo e na Olimpíada. Ter um emprego tradicional nunca esteve nos planos. Até que, em junho de 2012, ele foi abordado na saída da aula por um jovem de sua idade.

Quando perguntado sobre o que o faria trabalhar para uma grande empresa, disse que gostaria de empreender lá dentro, criando produtos e serviços. Após 1 hora de conversa, o pesquisador revelou que, na verdade, era recrutador da fabricante de refrigerantes e salgadinhos Pepsico. “Quer estagiar lá? A vaga é para fazer o que você deseja.” Ele topou.

Luz e outros jovens recrutados pela Pepsico em 2012 fazem parte de uma geração que anda desencantada com as grandes empresas. Até pouco tempo atrás, trabalhar em um grande grupo, com um plano de carreira estável, era o sonho de dez entre dez jovens brasileiros. Mas um time cada vez maior começa a romper com essa lógica.

Uma pesquisa inédita da Endeavor, organização global de apoio ao empreendedorismo, mostra que seis em cada dez jovens brasileiros querem ter seu próprio negócio.

É um dos índices mais altos do mundo. As universidades brasileiras também oferecem mais cursos de empreendedorismo do que a média mundial.

A edição 2012 da pesquisa Empresa dos Sonhos dos Jovens, feita pela consultoria de recursos humanos Cia de Talentos, revela que, logo abaixo de Petrobras, Google e Vale, a empresa considerada como dos sonhos foi “a minha própria empresa”. “Essa geração cresceu em um ambiente econômico mais estável.

Eles não têm medo de arriscar, e veem muitas oportunidades pela frente”, diz Clara Linhares, professora de gestão de pessoas da escola de negócios Fundação Dom Cabral. São jovens como o administrador Marcio Furtado, de 28 anos. Em 2008, ele saiu do banco de investimento Itaú BBA frustrado pela falta de oportunidades.

No mesmo ano, abriu a empresa de serviços financeiros Cash Monitor, que atende 40 clientes, como Avianca e Azul Trip. Atualmente, Furtado analisa propostas de 12 fundos de investimento. “Sempre quis ter meu negócio para aproveitar as oportunidades no mercado financeiro”, diz. 

Esse desejo de empreender é uma ótima notícia para o país, mas representa um desafio para as grandes empresas. Os jovens que sonham em ter seu negócio podem até nunca tirar os planos do papel. Mas eles relutam em aceitar ofertas de emprego tradicionais.

“Os jovens empreendedores querem ganhar dinheiro, claro. Mas, para eles, autonomia é mais importante. Poucas empresas brasileiras perceberam isso e estão preparadas para atraí-los”, diz Amisha Miller, autora do estudo da Endeavor. 

Um dos sinais dessa mudança de mentalidade é a perda de força dos programas de estágio e trainee tradicionais. Um estudo da Cia de Talentos revela que o número de inscritos nos cerca de 300 programas de trainee no Brasil caiu 30% em 2012. Para reverter o quadro, o alto escalão das empresas passou a conversar com os candidatos. João Castro Neves, presidente da fabricante de bebidas Ambev, participa de fóruns na internet e liga para convencer alguns jovens a virar trainee. 


As seleções em massa costumam ter pouco efeito com essa turma. Por isso, cada vez mais empresas seguem o caminho da Pepsico — vão até as universidades e recrutam os estudantes a dedo. A prática virou até negócio. A empresa de pesquisa paulistana Box 1824, especializada no público jovem, lançou no fim de 2011 um braço de recrutamento que levou até agora 200 jovens para grandes empresas.

Hoje, há 50 recrutadores disfarçados de estudantes em faculdades de ponta, como o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, em São José dos Campos, o Instituto Militar de Engenharia, no Rio de Janeiro, e a Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

A ideia é descobrir, no dia a dia, quem de fato tem perfil empreendedor, o que não é fácil de perceber em uma conversa de alguns minutos em um processo de seleção tradicional. Pepsico, Ambev, Itaú e Fiat estão entre os clientes da Box 1824. 

Uma das vantagens de contratar empreendedores é sua criatividade. São pessoas que, na visão dos recrutadores, têm potencial de criar projetos ou produtos milionários. Uma forma mais segura de captar essas ideias é se associar aos empreendedores que já estão no mercado. A e.Bricks, braço de tecnologia do grupo de comunicação RBS, comprou fatias em sete startups no fim de 2012.

“Olho para o potencial do dono, que não viria trabalhar aqui de outra forma”, afirma Felipe Matsunaga, diretor de aquisições da empresa.

Uma das compradas é a Everwrite, que ajuda empresas a identificar a preferência dos internautas. Foi criada pelos mineiros Edmar Ferreira, de 26 anos, e Diego Gomes, de 27. Mesmo dentro da e.Bricks, eles têm liberdade para tocar seus projetos. O site comparador de preços Buscapé tem uma estratégia parecida.

Há dois anos, lançou o prêmio Sua Ideia Vale um Milhão, em que compra 30% de uma startup investindo 300 000 reais. A última vencedora foi a Cuponeria, site que emite cupons de desconto para empresas idealizado pela carioca Nara Iachan, que, aos 22 anos, é formada em economia com MBA em gestão. 

Depois de recrutar essa turma, o desafio é criar um ambiente que estimule o empreendedorismo. De nada adianta trazer jovens brilhantes e cheios de iniciativa para, no dia seguinte, colocá-los para fechar balanços ou outras tarefas burocráticas.

Eles demandam autonomia e um contato direto com o alto escalão para trocar ideias e pensar em projetos. O banco Santander perguntou no ano passado a um grupo de jovens funcionários promissores o que estava faltando na rotina deles.

A resposta foi acesso ao alto escalão. Desde então, foram realizados quatro encontros, o último deles com Marcial Portela, presidente do banco no Brasil. Os jovens empreendedores podem ser cada vez mais numerosos, mas não são, obviamente, o único perfil de iniciante buscado por grandes empresas.

Jovens interessados em áreas técnicas ou em gestão vão continuar a ser fundamentais para qualquer negócio. “As empresas vão continuar precisando do jovem que sonha em ser executivo”, afirma Rony Rodrigues, sócio da Box 1824. “Mas são os empreendedores que trarão novos negócios.” E é por isso que eles são os jovens que toda empresa quer ter.

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