Olimpíadas põem o Rio sob os holofotes do planeta

Com os Jogos Olímpicos de 2016, o Rio de Janeiro, que acaba de completar 450 anos, pode se firmar como uma cidade global
 (Fernando Frazão / Viagem e Turismo)
(Fernando Frazão / Viagem e Turismo)
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Bruno Villas Boas, Daniel BarrosPublicado em 27/04/2015 às 16:31.

São Paulo -- Os escritórios da empresa de consultoria EY no bairro carioca de Botafogo têm o que se pode chamar, sem exagero, de vista privilegiada. Por isso, José Carlos Costa Pinto, um dos sócios da empresa no Brasil, costuma submeter os forasteiros que o visitam a uma espécie de ritual.

Primeiro, ele os leva a uma sala com vista para o Pão de Açúcar e o Morro da Urca. Em seguida, conduz os visitantes a outro ponto do escritório, onde os janelões dão para o Morro do Corcovado, com o Cristo Redentor no topo.

“As pessoas ficam encantadas com essas paisagens, conhecidas no mundo todo”, diz Costa Pinto. O problema: quando saem do prédio para a rua, eles encontram outra face da imagem internacional da cidade. “O Rio ainda tem problemas sérios de infraestrutura precária, segurança e pobreza”, afirma.

Eis uma dicotomia que tem muito a ver com o momento atual do Rio de Janeiro. Aos 450 anos, completados no dia 1o de março, a cidade atravessa um momento crucial em sua história. Nos últimos anos, o Rio deu sinais de ter interrompido uma fase de declínio iniciada na década de 60, quando perdeu o posto de capital federal para Brasília.

Às vésperas da Olimpíada de 2016, os cariocas têm uma oportunidade para mostrar que, além dos atrativos naturais, a cidade conseguiu achar um caminho para solucionar seus graves problemas. Não passar no teste, porém, reforçará aos olhos do mundo o estigma de ser uma terra abençoada pela natureza, mas incapaz de lidar com os desafios do desenvolvimento.

O que vai prevalecer? E quais serão as perspectivas do Rio após os Jogos Olímpicos? “Queremos transformar o Rio num ícone global não apenas pelas festas e pelas praias”, diz o prefeito Eduardo Paes. “Vamos ser reconhecidos internacionalmente como referência no desenvolvimento da tecnologia do petróleo e por termos conseguido construir uma sociedade mais justa.”

Trata-se de uma visão ambiciosa, sem dúvida — e faz todo o sentido que os cariocas, e os demais brasileiros, batalhem por ela. Caso tudo se concretize, o Rio estará mais perto de se firmar no cenário internacional como uma cidade global.

O termo foi cunhado nos anos 90 pela socióloga holandesa Saskia Sassen para designar cidades que se conectam a outros grandes centros e constituem uma espécie de rede mundial de metrópoles. São polos financeiros, culturais e de consumo com capacidade para se articular globalmente. Para Saskia, há pouco mais de duas décadas, apenas Nova York, Londres e Tóquio eram realmente dignas desse nome.

De lá para cá, com o crescimento das economias emergentes e a evolução na tecnologia e nas comunicações, o número de cidades globais se ampliou para quase uma centena. “No Brasil, além do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília têm vocação global”, diz Saskia. “Mas essas cidades ainda deixam a desejar no que diz respeito ao tecido social.”

Motores do crescimento

Para o Brasil, talvez nunca tenha sido tão importante ter cidades globais como é agora. Os grandes centros urbanos costumam ser motores do crescimento da economia. Mais produtivas do que a média de seus países e com condições para atrair mão de obra qualificada, as cidades com vocação internacional quase sempre se encontram em posição melhor para liderar a saída das crises.

“As cidades globais são mais flexíveis e reagem mais rapidamente nos momentos difíceis”, diz Willem van Winden, especialista em urbanismo e crescimento regional no Euricur, centro de estudos urbanos comparados da Universidade Erasmus, de Roterdã, na Holanda. “Por isso, países nos quais há uma grande cidade global têm vantagens.”

Um estudo publicado no início do ano pelo Brookings Institution, centro de pesquisas em gestão pública com sede em Washington, mostra que no ano passado um terço das 300 maiores cidades do mundo superou os indicadores de crescimento, nível de emprego e geração de riqueza per capita de seus países. Juntas, essas 300 grandes áreas urbanas concentram 20% da população e dos empregos do planeta e são responsáveis por quase metade do PIB global.

A boa notícia: recentemente, o Rio de Janeiro passou a figurar nos principais rankings de metrópoles globais. Um deles, feito pela consultoria A.T. Kearney, classifica o Rio na 56a posição de uma lista de 84 cidades.

O Rio também estreou no ano passado em outro levantamento, da consultoria PwC, com as 30 cidades que melhor equilibram aspectos como capital intelec­tual, tecnologia, infraestrutura, saúde e ambiente econômico. O Rio ocupa o 27o lugar, à frente da queniana Nairóbi, da indonésia Jacarta e da indiana Mumbai, e atrás de São Paulo — a lista é liderada por Londres, seguida de Nova York e Singapura.

Para o egípcio Hazem Gallal, líder da área de governos estaduais e municipais da PwC, as cidades que quiserem figurar nas primeiras posições precisam de infraestrutura, capital humano, bons serviços e ambiente favorável à inovação: “Apesar de ter sido incluído no ranking, o Rio, assim como São Paulo, tem defi­ciências em muitos desses aspectos”, diz. Em outras palavras, as metrópoles brasileiras estão numa espécie de segunda divisão das cidades globais.

Como o Rio pode perseguir as primeiras colocações? No livro Depois dos Jogos, Pensando o Rio para o Pós-2016, organizado pelo economista Fabio Giambiagi, autores como o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, sugerem rumos. São ideias que fariam da cidade uma mistura de Barcelona, cuja economia depende em boa medida dos turistas atraídos pela beleza e pelo patrimônio cultural local, com Houston, a capital do petróleo nos Estados Unidos.

Para além da energia e do turismo, Giambiagi sugere que o Rio também pode ser percebido como um destino do turismo de negócios e se tornar referência em competições esportivas, na esteira da experiência e da infraestrutura acumulada não só com a Olimpíada mas também com a realização da Copa do Mundo de 2014 e do Pan-Americano de 2007. “O Rio já tem uma marca global, mas é preciso trabalhar para melhorar e explorar mais essa imagem”, diz Giambiagi. “A cidade tem potencial para mais.”

Um dos atributos cariocas é a presença internacional da cidade em áreas como a das negociações de acordos climáticos. O prefeito Eduardo Paes preside o C40, grupo que reúne líderes de 63 cidades do mundo para discutir o papel das prefeituras na tarefa de retardar os efeitos das mudanças do clima.

Rio de Janeiro e Buenos Aires estão coordenando uma reunião que representantes das principais cidades latino-americanas terão em 27 de março para tentar criar um consenso sobre o que a região deverá defender na reunião COP 21, a conferência da Organização das Nações Unidas sobre o clima, marcada para Paris no fim do ano.

“Estamos tentando mudar uma tradição de pouco contato entre as cidades brasileiras e as do resto da América Latina”, diz o diplomata Laudemar Aguiar, coordenador de relações internacionais da prefeitura do Rio de Janeiro. Esse tipo de negociação liderado por cidades tem um nome: paradiplomacia.

“Cidades não discutem os conflitos na Síria, mas podem tratar de parcerias pragmáticas para melhorar a vida dos cidadãos”, diz Rodrigo Tavares, que até o ano passado coordenava a área de relações internacionais do estado de São Paulo — agora ele está criando um centro de pesquisa sobre paradiplomacia na Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

Medellín, a segunda maior cidade da Colômbia e cuja região metropolitana tem 6 milhões de habitantes, é um exemplo de como entrar no jogo diplomático pode ajudar na expansão. A cidade colombiana foi pioneira ao montar uma agência de promoção internacional ainda em 2002, muito antes de qualquer cidade brasileira — a similar Rio Negócios, da prefeitura carioca, foi criada em 2010.

Na época, o único objetivo da agência era promover Medellín globalmente, mostrando o aumento da segurança pública — os homicídios haviam caído 80% em 20 anos — e os projetos de renovação urbana com a construção de escolas, bibliotecas e infraestrutura de transporte. Em 2006, a agência acabou recebendo também a missão de buscar investimentos estrangeiros.

De lá para cá, os negócios intermediados por seus funcionários trazem, em média, 140 milhões de dólares ao ano de investidores internacionais. Boa parte desse montante é aplicado por empresas de tecnologia — o objetivo de Medellín é ser a cidade mais inovadora da América Latina até 2023.

Parte da estratégia de Medellín consiste na criação de uma rede mundial de cidades parceiras. O plano já tem resultados: a espanhola Barcelona está ajudando a financiar a revitalização do centro histórico de Medellín.

Uma parceria ganha-ganha: caso São Paulo se consolide como o centro financeiro da América Latina, o Rio de Janeiro também sairá lucrando (Germano Lüders / EXAME)

Zonas de segurança

Assim como em Medellín, pelo menos numa área essencial para o Rio de Janeiro — a segurança pública — houve avanço expressivo nos últimos anos. Desde 2008, a taxa de homicídios na cidade caiu quase pela metade, chegando perto de 19 assassinatos por 100 000 habitantes no ano passado.

O indicador é alto quando comparado com o de outras cidades globais: em Nova York há quatro homicídios ao ano para cada 100 000 pessoas. A melhora no Rio coincide com o período em que foram criadas as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), instalações para monitorar as favelas. Hoje há 41 UPPs em áreas nas quais, somadas, vivem 712 000 pessoas.

Mas os desafios continuam enormes. O Rio tem 763 favelas, e muitas áreas da cidade estão longe de ser pacificadas. Um exemplo: a companhia americana de entregas FedEx Express vai mudar a localização de seu Centro de Distribuição, de 30 000 metros quadrados, instalado na Pavuna, bairro da zona norte. Fruto de um investimento de 12 milhões de reais e inaugurado em 2009, o Centro de Distribuição opera com insegurança.

“Sofremos muitos assaltos, e há vários casos de motoristas nossos que foram sequestrados por ladrões de carga”, diz Guilherme Gatti, diretor de marketing da divisão América Latina e Caribe da FedEx Express. A empresa procura agora terrenos para montar um novo centro. “A violência afastou empresas e ajudou a deixar a cidade no fundo do poço”, afirma Marcelo Haddad, diretor executivo da Rio Negócios. “Recuperar a confiança das pessoas na segurança pública é essencial para a tranquilidade da população e dos investidores.”

Para o país, é importante que grandes cidades brasileiras, como Rio de Janeiro e São Paulo, sejam vistas como lideranças latino-americanas. Globalizadas, as duas principais metrópoles brasileiras podem se transformar num eixo de desenvolvimento ainda mais importante do que são hoje.

A melhor analogia está na Costa Leste dos Estados Unidos. À medida que Nova York se consolidou como centro financeiro global, Boston se transformou num destino para gestoras de recursos que querem estar por perto. Algo semelhante poderia ocorrer no Brasil.

A Brain — associação criada por instituições financeiras brasileiras para trabalhar em prol da melhoria do ambiente de negócios no eixo Rio-São Paulo — está elaborando um estudo sobre o que o país precisa fazer para atrair investimentos e consolidar a capital paulista como o principal centro financeiro latino-americano.

Suas primeiras conclusões mostram que boa parte da tarefa depende de órgãos federais. Seria preciso, por exemplo, que o Banco Central facilitasse o câmbio de moedas de outros países da América Latina. Outra recomendação é que o Ministério da Fazenda firme acordos de tributação para que os investidores não paguem imposto duas vezes — no país de origem e no Brasil.

Algo que pode ajudar é o fato de que o ministro Joaquim Levy foi presidente da Brain até novembro do ano passado e conhece bem o tema. Hoje em dia, só o bairro do Leblon já tem cerca de 20 gestoras de recursos que administram mais de 70 bilhões de reais. “Imagine o que aconteceria na economia carioca se São Paulo pudesse se consolidar como um centro financeiro latino-americano?”, diz o economista André Sacconato, da Brain.

Recessão no horizonte

Os cariocas enfrentam, porém, alguns desafios imediatos. Um deles é o cenário recessivo na economia do país — a arrecadação do imposto sobre mercadorias e serviços do governo fluminense encolheu 2,5 bilhões de reais em 2014, prejudicando a capacidade de investimentos estaduais na capital.

O outro é o fim do período de euforia na indústria petrolífera, causado pelos problemas enfrentados pela Petrobras e pela queda nas cotações internacionais. A arrecadação de royalties do estado deverá encolher 2,4 bilhões de reais neste ano. O Parque Tecnológico do Fundão, desenvolvido para atender principalmente a cadeia do petróleo, pode ter uma onda de demissões.

A multinacional alemã Siemens há pouco dispensou 750 funcionários, a maioria deles engenheiros, de seu centro de pesquisa no Fundão. O setor naval também está abatido. O estaleiro carioca Inhaúma, operado pela Enseada, empresa controlada pelas construtoras Odebrecht, OAS e UTC, citadas na Operação Lava-Jato, vai entregar sua última plataforma para a Petrobras até o fim do ano e poderá cortar seus 6 000 trabalhadores, já que a estatal vetou a contratação de novas encomendas.

Conclusão: a cidade terá de se adaptar a uma temporada de baixa no setor petrolífero. Não é que o cenário para quem vive e faz negócios no Rio de Janeiro tenha deixado de ser sedutor, mas é preciso afastar as nuvens do horizonte — e aproveitar bem a chance da Olimpíada para brilhar aos olhos do mundo.