O ranking das empresas mais endividadas

A alta do dólar fez a dívida das companhias abertas no Brasil subir 20% no primeiro trimestre. A Petrobras representa um terço da dívida líquida total
Navio petroleiro no canal de Ilhabela (SP): a Petrobras cortou custos para segurar a dívida (Edson Grandisoli/Pulsar)
Navio petroleiro no canal de Ilhabela (SP): a Petrobras cortou custos para segurar a dívida (Edson Grandisoli/Pulsar)
Por Bárbara NórPublicado em 13/08/2020 05:00 | Última atualização em 12/08/2020 22:21Tempo de Leitura: 4 min de leitura

As grandes empresas brasileiras começaram o ano com mais dívida. Se em dezembro de 2019 a dívida bruta das 275 maiores empresas na bolsa B3 era de 1 trilhão de reais, em março deste ano esse valor já tinha subido para 1,2 trilhão de reais, ou 20% mais. Já a dívida líquida (o total de compromissos financeiros menos o caixa líquido) somava 801 bilhões de reais — sem contar a Petrobras, que sozinha tinha uma dívida líquida de 380 bilhões de reais, de longe a maior entre as companhias abertas do país. Os dados foram levantados pela consultoria Economatica, a pedido da EXAME, e mostram a situação financeira de empresas que vão ser destacadas na edição 2020 de MELHORES E MAIORES.

Mas as notícias não são necessariamente ruins. “É por meio das dívidas que as empresas conseguem alavancar seus projetos”, afirma Einar Rivero, gerente de relacionamento institucional da Economatica. Ele aponta que o aumento das dívidas neste ano tem mais a ver com a alta do dólar — no primeiro trimestre, a moeda americana subiu 29% em relação ao real. “Uma parcela significativa dessa dívida está fora do mercado brasileiro”, diz Rivero. Isso ocorre porque sai mais barato tomar dinheiro emprestado lá fora — pelo menos até pouco tempo atrás. Agora, com os cortes na taxa Selic, que no início de agosto caiu para 2% ao ano, é possível que mais empresas passem a contrair dívidas em real.

A combinação de dólar alto com pandemia de covid-19, no entanto, poderá trazer problemas para as empresas que não conseguirem lidar bem com os efeitos da variação cambial. Essa tem sido a dificuldade da fabricante de papel e celulose Suzano, que registra a segunda maior dívida entre as empresas brasileiras de capital aberto. “O problema da Suzano não foi o aumento da dívida, mas o hedge [prática para se proteger de variações cambiais]”, afirma Ilan Arbetman, analista da corretora Ativa Investimentos. A Suzano sentiu logo no início os efeitos da pandemia com a recessão na China, grande consumidora de celulose de eucalipto de fibra curta. “Eles não estavam protegendo a dívida para esses cenários mais extremos e têm a cultura de não realizar o hedge entre real e dólar.” Resta ver qual será o impacto da alta do dólar no lucro — a valorização da moeda americana, por outro lado, favorece a receita com exportações.

Já a Petrobras, apesar de ser a empresa com a maior dívida, parece ter conseguido evitar danos maiores. Os números mostram um aumento de 22,7% na dívida líquida entre dezembro de 2019 e junho deste ano — um acréscimo compatível com a alta do dólar nesse período. O que chama a atenção são as variações na dívida de curto prazo (a que precisa ser paga em até 12 meses) e o caixa da empresa. “No fim de 2019, a Petrobras não tinha caixa nenhum para pagar a dívida de curto prazo”, afirma Rivero. Entre dezembro de 2019 e junho deste ano, porém, a dívida da Petrobras de curto prazo aumentou 61%, enquanto o caixa cresceu 229%.

Para Arbetman, os números da Petrobras são resultado da boa gestão que vem sendo feita na estatal. “O segundo trimestre deste ano tinha tudo para ser uma tempestade perfeita”, diz o analista. Mas, com os primeiros sinais da crise do coronavírus, a empresa conseguiu fazer a manutenção do endividamento, suspendendo a produção e os investimentos e focando o corte de custos.

Outra estatal que se destaca é a Eletrobras, que tem reduzido o valor de suas obrigações. “A dívida da Eletrobras é legado de grandes investimentos executados sem muito crivo econômico-financeiro, como projetos no setor de distribuição que não deram certo”, diz Arbetman. “Mas, desde 2018, os esforços da empresa vêm sendo reconhecidos no mercado.” Mudanças de governança e de direcionamento de projetos, assim como a venda de uma série de ativos, estão por trás da redução da dívida da Eletrobras, uma das estatais na lista de privatizações do governo — a previsão é que isso ocorra em 2021.