O novo piloto da Land Rover

Cyrus Mistry, de apenas 44 anos, assume em dezembro o comando do grupo indiano Tata, que, além da montadora, controla um império de quase uma centena de empresas
Fábrica da Land Rover: as vendas nos países emergentes têm crescido (Divulgação)
Fábrica da Land Rover: as vendas nos países emergentes têm crescido (Divulgação)
Por Guilherme ManechiniPublicado em 15/08/2012 06:01 | Última atualização em 15/08/2012 06:01Tempo de Leitura: 4 min de leitura

São Paulo - Na Índia, a cada dia aumenta a expectativa sobre a transição de poder no grupo Tata, o maior conglomerado empresarial do país. Com um faturamento global de 83 bilhões de dólares, cerca de 50% maior que o do grupo Vale, o Tata atua em áreas tão diversas como telecomunicações, automobilística e construção.

Está prevista para dezembro a primeira mudança de presidente em duas décadas. Sai Ratan Tata, responsável pela internacionalização do grupo, hoje presente em mais de 80 países, dono de marcas renomadas como a montadora Jaguar Land Rover. E entra Cyrus Mistry, de 44 anos, que, além da pouca experiência à frente de um grande conglomerado, não carrega o sobrenome Tata.

As más línguas lembram que a família Mistry é a maior acionista individual do grupo Tata, com cerca de 19% de participação — viria daí, e não de seu sucesso como executivo, sua indicação. As ações foram compradas em 1930 pelo avô de Cyrus e, desde então, a família, dona de uma fortuna estimada em 7,6 bilhões de dólares, tem lugar cativo no conselho de administração da holding.

Mas Mistry venceu a disputa contra o meio-irmão de Ratan, Noel Tata, tido como um dos favoritos ao cargo, e outros 12 candidatos, entre eles a indiana Indra Nooyi, presidente mundial da Pepsi. 

A solução caseira por Mistry, aprovada por todos os membros do conselho, seguiu o desejo de Ratan, que queria sangue novo no comando. Sangue novo, mas com algumas velhas características. Mistry, assim como Ratan, é conhecido por seu estilo discreto, pela habilidade com temas financeiros e por ter metas ousadas.

À frente da construtora da família, Mistry foi um dos principais responsáveis pelo aumento do faturamento de 20 milhões de dólares, no começo dos anos 90, para cerca de 1,5 bilhão, hoje. No campo étnico e espiritual, sempre uma questão importante na Índia, também há semelhanças entre o presidente que sai e o que chega.

Ambos são parses, como são chamados os seguidores da religião zoroastrista na Índia, a que deposita seus mortos no topo de uma torre para ser consumidos por abutres. Criado há 144 anos, o grupo Tata tem como tradição buscar sucessores com características semelhantes às dos líderes de saída.

Por mais de um terço de sua história, entre 1938 e 1991, o grupo foi administrado por um só presidente, Jehangir Ratanji Dadabhoy Tata. Quando passou o bastão para Ratan, disse: “Acho que ele é o mais parecido comigo”. 

Veredito

A aposentadoria de Ratan já vinha sendo discutida havia mais de cinco anos. Há pelo menos dois anos, começou a ser trabalhada objetivamente dentro do grupo. Desde agosto de 2010, foram diversas as reuniões do conselho de administração da holding para tratar do assunto e entrevistar os candidatos.


Ao final, vieram o anúncio e a explicação de Ratan: “Cyrus é membro do conselho da Tata desde 2006. Nesse período, fiquei impressionado com a qualidade e o calibre de sua participação, suas observações perspicazes e sua humildade”.

Mesmo tendo todo o apoio do maior ícone do capitalismo indiano e do conselho do grupo, Mistry sabe que o maior teste de sua vida vai começar em dezembro. Os resultados do grupo no ano fiscal 2011-2012 vão ser divulgados nos próximos dias. A expectativa é de um crescimento robusto, algo que eleve o faturamento a uma marca próxima de 100 bilhões de dólares.

A Jaguar Land Rover, por exemplo, registrou alta de 37% no faturamento do último ano, impulsionada pelas vendas na China. Se esses números se confirmarem, a saída de Ratan será, sem dúvida, triunfal. 

O problema para Mistry é que o cenário para os próximos anos começa a ficar turvo. A economia indiana, assim como a do restante do mundo, está desacelerando.

“A inação do governo da Índia, somada a fatores como inflação e valorização do dólar, enfraquece o mercado interno da Tata Motors. Já para a Jaguar Land Rover, as notícias negativas sobre as economias da China, dos Estados Unidos e da Europa não são nada alentadoras”, diz Ashwin Patil, analista da corretora indiana LKP.

O mesmo vale para a Tata Steel, uma das dez maiores produtoras de aço do mundo. Desde que foi anunciado como futuro presidente, Mistry não para de ser nomeado para o conselho de administração das empresas do grupo. Os casos mais recentes foram o da TCS, empresa de tecnologia avaliada em 43 bilhões de dólares, e o da Tata Global Beverages, que tem marcas como a Tata Tea, segunda maior produtora global de chá.

O mais impressionante no grupo Tata é a dimensão dos negócios. São mais de 90 empresas, algumas delas, como mostram os casos acima, nomes que estão entre as líderes globais. Mantê-las no topo é a maior missão de Mistry.