Craig Venter, na Synthetic Genomics: as máquinas biológicas são mais rápidas, mais baratas e têm menos impacto ambiental (Sandy Huffaker/The New York Times/Latinstock)
Da Redação
Publicado em 21 de dezembro de 2012 às 14h47.
Nova York - O cientista americano Craig Venter tornou-se célebre ao desvendar o código genético humano nos anos 90. Hoje, dedica-se a buscar a resposta para grandes dilemas, como livrar o mundo da dependência do petróleo ou alimentar a população mundial, em minúsculos seres visíveis apenas no microscópio.
Para Venter, micro-organismos geneticamente modificados podem se tornar poderosas fábricas de biocombustível e até proteína. Em 2010, ele criou a primeira célula com genoma totalmente sintético da história. Agora, pesquisa como adicionar genes capazes de programá-las para funções específicas.
Dono da Synthetic Genomics, com sede na Califórnia, ele assinou em 2009 um contrato de 600 milhões de dólares com a petroleira Exxon para estudar o uso de algas na produção de biocombustível. Venter concedeu a seguinte entrevista a EXAME.
EXAME - O senhor se tornou conhecido pelas descobertas sobre o genoma humano. Quando passou a se interessar pelos micro-organismos geneticamente modificados?
Craig Venter - Em 1995, iniciei as pesquisas para descobrir qual seria a menor estrutura genética possível para manter uma célula viva. Conseguimos fazer isso em 2010, e foi um marco na história da biologia.
Agora estamos pesquisando como adicionar outros genes a essa fórmula básica para torná-la capaz de produzir com eficiência biocombustível e proteína para consumo humano, retirar impurezas de rios poluídos, fazer vacinas. Queremos construir máquinas biológicas. É uma nova tecnologia que deverá beneficiar a humanidade em diversos campos.
EXAME - Qual é a vantagem dessas máquinas biológicas?
Craig Venter - A produção tende a ser muito mais rápida e barata, e tem menos impacto ambiental do que as atividades tradicionais, como a agricultura e a produção de combustível fóssil.
EXAME - O senhor pode dar um exemplo disso?
Craig Venter - A agricultura como conhecemos hoje é extremamente ineficiente. Exige muita terra, água e fertilizante. Teremos um acréscimo de 1 bilhão de pessoas na população mundial na próxima década. É impossível aumentar a produção agrícola no mesmo ritmo.
E no caminho acabaremos inevitavelmente destruindo florestas, como já acontece no Brasil. Precisamos descobrir novas maneiras de alimentar as pessoas. As algas são até 100 vezes mais produtivas do que variedades agrícolas na síntese de proteína. E ainda consomem gás carbônico no processo.
EXAME - De que maneira as grandes empresas estão acompanhando essas descobertas?
Craig Venter - A Exxon começou a trabalhar conosco em 2009. Além do dinheiro, estamos em busca de escala. Não temos grandes fábricas para testes. Por isso, trabalhamos com quem tem. Também mantemos parcerias com a Novartis para descobrir novas vacinas para o vírus influenza. Recentemente, o brasileiro Eike Batista discutiu conosco possíveis parcerias. Mas não passamos das conversas iniciais.
EXAME - Quais são as dificuldades para obter escala industrial na produção dessas células?
Craig Venter - As células apresentam uma vantagem enorme nesse sentido — elas se reproduzem sozinhas e rapidamente. Você pode multiplicar uma única célula numa população de 1 trilhão delas num período relativamente curto. A dificuldade é criar o micro-organismo ideal para o interesse das indústrias.
EXAME - Qual é a área mais promissora?
Craig Venter - O resultado mais rápido virá do ramo das vacinas. No caso dos combustíveis, pode levar algumas décadas para que o biodiesel produzido por algas alcance um volume relevante. Mas, de todas as possibilidades da biologia sintética, desenvolver uma alternativa ao petróleo é a que terá o impacto mais transformador na sociedade.
EXAME - Em qual estágio estão as pesquisas para a produção de combustível?
Craig Venter - Desenvolvemos uma alga amarelada que facilita a passagem da luz solar por toda a colônia — ao contrário do que acontece com as variedades escuras que encontramos no ambiente. Estamos montando uma fazenda de algas alimentadas pelo dióxido de carbono produzido por uma refinaria de petróleo.
EXAME - É possível estimar o impacto econômico dessa nova tecnologia?
Craig Venter - Pode ser enorme. Pode ter o mesmo impacto que a descoberta das primeiras máquinas industriais. Em vez de equipamentos de metal, teremos minúsculos seres vivos na linha de
EXAME - Depois de produzir a primeira célula sintética em laboratório em 2010, qual é o próximo passo?
Craig Venter - Estamos muito perto de produzir a primeira célula com o genoma inteiramente modificado em laboratório e com uma função genética específica. No experimento de 2010, criamos uma célula apenas com funções vitais básicas.
EXAME - Qual será a relevância dessa descoberta?
Craig Venter - Isso provará que estamos chegando mais perto do domínio da construção de seres totalmente programados em laboratório. É algo que pode impactar verdadeiramente a humanidade.
EXAME - Alguns cientistas dizem que a criação de organismos artificiais representa um risco ao ambiente. Qual a gravidade desse risco?
Craig Venter - O risco é baixíssimo. Em primeiro lugar, não vamos deixar que essas células fiquem soltas no ambiente. Elas estarão confinadas numa linha de produção. Além disso, podemos programar organismos que se destruam fora do laboratório.