Revista Exame

O nosso 1914

A geopolítica, que durante décadas mal entrou nas discussões das empresas e foi preocupação menor de países como o Brasil, estará onipresente no próximo mandato presidencial

A lição de 1914 não é que a guerra é inevitável. É que as janelas se fecham mais depressa do que qualquer contemporâneo consegue acreditar (LightStock/Getty Images)

A lição de 1914 não é que a guerra é inevitável. É que as janelas se fecham mais depressa do que qualquer contemporâneo consegue acreditar (LightStock/Getty Images)

Diogo Castro e Silva
Diogo Castro e Silva

Economista e Sócio da Nostrum Public Affairs

Publicado em 25 de junho de 2026 às 06h00.

Um longo período de paz entre as grandes potências, embora os conflitos na periferia se multipliquem e as crises geopolíticas se sucedam com virulência crescente. Globalização e inovação tecnológica a testar as sociedades, acompanhadas de polarização e violência política. A potência dominante tentada pelo isolacionismo e entretida em conflitos em zonas distantes do globo, enquanto a grande potência emergente se divide entre a ansiedade de chegar ao primeiro lugar do pódio, a paciência estratégica nutrida durante as décadas da sua ascensão e o medo de que a oportunidade lhe escape no último momento.

Não, não estou descrevendo 2026. Estou retratando 1914. Mas é também este, quase ponto por ponto, o mundo que espera o próximo presidente brasileiro. Uma nova guerra mundial não é inevitável hoje. Mas também não o era em 1914. A geopolítica, porém, que durante décadas mal entrou nas discussões das empresas e foi preocupação menor de países como o Brasil, estará onipresente no próximo mandato presidencial. E as decisões que aí se tomarem vão definir o lugar do nosso país nas próximas décadas. Todas as regiões do mundo estão sendo sacudidas por três ameaças, em proporções diferentes em cada uma: o conflito entre Estados num mundo onde as fronteiras deixaram de ser sacrossantas, o crime organizado cada vez mais poderoso, e as novas tecnologias altamente disruptivas lideradas por empresas cada vez maiores e mais ambiciosas na sua agenda política e social. Se eu tivesse escrito esta coluna há alguns meses, pouco diria sobre a primeira. O nosso continente parecia dos mais imunes a tensões entre Estados. Esse mundo não existe mais.

Os EUA, em retração do seu papel global, acelerada pelo fiasco no Oriente Médio e pela exaustão de sustentar uma presença planetária, vão se concentrar no hemisfério de forma mais agressiva, até porque o hemisfério tem uma correia de transmissão direta com a política doméstica americana em temas como a imigração e o narcotráfico. O sinal para o Brasil foi dado no final de maio. E esse não é um fenômeno passageiro, porque a política americana está mudando de forma estrutural. As duas costas que dominaram o poder político, econômico e cultural do país durante mais de um século estão perdendo relevância face ao interior. Em todas as dimensões.

E são dois Estados Unidos muito diferentes. Regiões e países costeiros têm um DNA de abertura ao mundo e prosperam no comércio. O interior vê muito mais ameaças no mesmo mundo, valoriza recursos em vez de trocas e carrega um messianismo militante alimentado pela influência religiosa. O crime organizado está espalhado na nossa região, ganha força com as novas tecnologias e se infiltra cada vez mais na política e na economia formal. Grandes empresas de tecnologia, sobretudo- dos EUA, olham a região como mercado cativo, como fonte de recursos naturais para sustentar a revolução da IA e como laboratório de suas teses sociais mais radicais, com governos locais se oferecendo como cobaias voluntárias. A experiência cripto de El Salvador ou agora a liberação total da IA na Argentina, com empresas geridas por agentes autônomos sem humanos obrigatórios, são exemplos disso.

Em janeiro de 2026, em Davos, o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, declarou o fim de uma ordem mundial e o início de uma realidade brutal sem árbitro, dividida entre quem reescreve as regras pela força e quem as defende. O mundo do caos e o das regras. A equidistância, o modo default do Itamaraty, confortável quando nem a URSS era revisionista da ordem, tornou-se cada vez mais cara de sustentar. Para o -Brasil e outras potências regionais, é o mundo das regras que protege a soberania e evita a escolha difícil entre desenvolvimento e militarização. E os potenciais aliados do Brasil são múltiplos: do Canadá e da Europa à -Turquia, à Coreia do Sul e ao Japão, passando por vários países do Sul Global.

Com clareza estratégica, existe um papel de destaque disponível para o Brasil nesse grupo. A Europa está num programa acelerado de reequipamento militar que, somados os planos nacionais, ultrapassa o trilhão de euros e esbarra na falta de capacidade industrial, exatamente o que o Brasil tem de sobra. A cadeia automotiva, por exemplo, concentrada no Sul e no Sudeste e ameaçada pela concorrência asiática, pode ser reconvertida para a cadeia de suprimentos de defesa com relativa facilidade, gerando empregos de qualidade. O Brasil é um dos maiores mercados civis do mundo em drones e, como quem conta cabeças de gado pode contar soldados, o potencial aqui é igualmente notável. Isso implica olhar para a Ucrânia, líder mundial na aplicação militar de drones, de outra forma. E a pergunta que o leitor faz agora é: isso é possível? A resposta chama-se Turquia, que em dez anos transformou a sua indústria de defesa numa das mais inovadoras do mundo, exportando mais de 10 bilhões de dólares no ano passado.

Em junho de 1914, Sir Edward Grey, chefe da diplomacia britânica e, provavelmente, o homem mais bem informado da Europa à época, escrevia que “estamos em bons termos com a Alemanha e desejamos evitar um rea-vivar de fricções”. Semanas depois, à janela do Foreign Office, vendo os lampiões a gás serem acesos ao anoitecer, pronunciaria a sua frase mais famosa: “Os lampiões estão se apagando por toda a Europa; não voltaremos a vê-los acesos durante a nossa vida”. A lição de 1914 não é que a guerra é inevitável. É que as janelas se fecham mais depressa do que qualquer contemporâneo consegue acreditar.

Mas o desafio, no fundo, não é só para o próximo presidente. Para cada empresa brasileira com alguma exposição internacional, e hoje são quase todas, a geopolítica, quando chega, não chega como notícia. Chega no negócio. Em 1914, ninguém soube que vivia o último ano de uma era. A nossa já virou a página. A vantagem será de quem a souber ler a tempo.

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