O México continua o México

As reformas pareciam ter colocado o país no rumo da modernidade, mas a morte de 43 estudantes mostrou quanto a sociedade mexicana está distante de seu objetivo

	Enrique Peña Nieto, presidente do México: os protestos estão em alta. Já sua popularidade...
 (REUTERS/Henry Romero)
Enrique Peña Nieto, presidente do México: os protestos estão em alta. Já sua popularidade... (REUTERS/Henry Romero)
Por Fernando MelloPublicado em 28/11/2014 05:00 | Última atualização em 28/11/2014 05:00Tempo de Leitura: 5 min de leitura

Washington - O estado de guerrero, ao sul da cidade do México, tem a maior taxa de homicídios do ­país e está entre os mais pobres — 70% das pessoas vivem na pobreza, das quais 30% na miséria. Iguala, a terceira maior cidade de Guerrero, também destoa da média nacional.

Num país onde os políticos costumam andar para cima e para baixo com escoltas armadas, José Luis Abarca Velázquez, o prefeito recentemente destituí­do, tinha o hábito de dirigir seu carro esporte sem nenhum segurança, o que, segundo a imprensa local, seria um indício de relações próximas com a máfia do narcotráfico.

Pobre, violenta, atrasada e um caso extremo de promiscuidade entre políticos e o mundo do crime, Iguala, com menos de 120 000 habitantes, tornou-se o centro de uma crise que tomou todo o México de assalto — e não tem hora para acabar.

Na noite do dia 26 de setembro, 43 estudantes de uma escola rural desapareceram quando rumavam para protestar num evento político contra María de Los Ángeles Pineda, mulher de Abarca Velázquez.

Por várias semanas houve dúvidas sobre o destino dos jovens, mas sabe-se agora que os estudantes foram detidos pela polícia municipal e provavelmente entregues ao cartel do narcotráfico Guerreros Unidos. Num lixão, foram torturados, mortos e seus corpos incinerados. Quando as notícias ganharam as redes nacionais, manifestações começaram a eclodir em várias partes do país.

Acusado de negligência, o presidente Enrique Peña Nieto logo virou o alvo predileto dos protestos. Sua popularidade, que já não vinha bem, caiu abaixo de 50%. Nas mídias sociais, variações da hashtag #YaMeCanse (numa tradução livre, “já me cansei”) não param de se multiplicar. Como isso foi acontecer justamente com o México, o país eleito pelos investidores como o novo exemplo a ser seguido na América Latina? 

A resposta pode ser dada em várias partes. A primeira é que o México, a despeito de todos os progressos dos últimos tempos, continua sendo o México. Num país onde 100 000 pessoas foram mortas pelo narcotráfico nos últimos oito anos, o massacre demorou a atrair a atenção das autoridades federais.

A taxa de homicídios do país é de 19 por 100 000 habitantes, inferior à média brasileira (25 por 100 000), mas, de todo modo, inaceitavelmente alta.

Depois, em meados de novembro, com o país ainda em convulsão, Peña Nieto manteve os planos de viagem para a China, onde participaria da reunião do bloco econômico que reúne as nações da Ásia e do Pacífico, e para a Austrália, onde seria realizado o G20.

Antes de partir, o presidente cancelou o resultado do leilão para a construção de um trem-bala entre Cidade do México e Querétaro. Dias após a decisão, veio à tona que uma das empresas do consórcio ganhador havia financiado a mansão de Peña Nieto num luxuoso bairro da capital. Batizada de “Casa Branca”, a propriedade virou assunto nas ruas e no meio político. 

Reformas

A crise, sem dúvida, também é consequência do baixo resultado econômico. Em 2013, o país cresceu 1%, abaixo da média de 2,7% da América Latina. Neste ano, a previsão é que o PIB tenha uma expansão de 2,5%, bem acima do que se espera para o Brasil, mas ainda abaixo das expectativas dos mexicanos, que projetavam um percentual superior a 3% no começo do ano.

Desde que assumiu o governo, em dezembro de 2012, Peña Nieto tem promovido uma agenda de reformas para modernizar a economia. Até agora foram aprovadas 11, entre elas as de energia, de telecomunicações, da educação, do trabalho, fiscal e financeira.

De modo geral, elas buscam aumentar a competição e enfraquecer o poder dos sindicatos, numa tentativa de tornar o país mais atrativo para investimentos. Aprovadas recentemente, as mudanças não tiveram tempo suficiente para dar resultados concretos.

Em meio ao caos atual, pelos menos ninguém está falando em perigo de retrocesso da reforma do setor energético, a que acabou com o monopólio da estatal petroleira Pemex e potencialmente tem mais poder de impacto. “A geração de energia vai ser aberta para quem quiser participar.

O produtor que gerar energia mais barata será priorizado”, diz Enrique Ochoa, diretor da Comissão Federal de Energia do México. Na última década, período em que o petróleo chegou a preços recordes, a Pemex viu a produção cair 1 milhão de barris por dia, tudo por culpa de sua própria incompetência.

Espera-se que agora, com a abertura do mercado, o México consiga atrair o capital das grandes multinacionais do setor e reverta uma tendência de queda nos investimentos. 

Isso, claro, se Peña Nieto conseguir acalmar a situação rapidamente. A expectativa é que ele apresente uma estratégia crível de combate ao narcotráfico e de defesa das instituições — Peña Nieto é acusado de ter dado prioridade à econo­mia em detrimento de ações para vencer a guerra contra os cartéis das drogas.

Nas últimas semanas tem aumentado a pressão por uma reforma judicial e outra na polícia. “O principal desafio do governo hoje é restabelecer a gover­na­bilidade”, diz Luis Rubio, diretor do Instituto México, braço do centro de estudos Wilson Center, de Washington. Como sempre acontece nesses momentos, opositores que estavam calados aproveitaram a oportunidade para colocar o bloco na rua.

À frente dos protestos estão os professores. Logo no começo de seu mandato, Peña Nieto bateu de frente com Elba Esther Gordilho, presidente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Educação, acusada de ter uma mansão nos Estados Unidos e contas em paraísos fiscais. 

O exemplo mexicano torna evidente quanto é parecida (e difícil) a situação latino-americana: bolsões de pobreza, tráfico de drogas, ausência do Estado, políticos corruptos...

E quando, mesmo nesse ambiente, reformas para tornar a economia mais eficiente são aprovadas, elas ainda correm o perigo de ser vistas como parte do problema, e não a solução. O caminho da modernidade por aqui é longo.